sexta-feira, 10 de julho de 2015

SÓ PARA PASSAR O TEMPO - 01

Há muitos anos, a igreja que frequento era de responsabilidade dos Padres Cruzios, todos eles holandeses. A casa paroquial onde moravam era guardada por um cachorro pastor alemão bravo pra caramba. Um belo dia, fiquei sabendo que o cão mordera a mão do vigário. Não tive dúvida tratar-se de um conflito religioso: um pastor alemão mordendo um padre holandês. Óbvio!


Lembrei-me desse caso depois de ter lido no site do IG que a filha do Edir Macedo lançará seu livro “Casamento Blindado” em outro continente (não conheço o conteúdo do livro, mas acredito que podia ter o subtítulo "usando o cinto de castidade"), com tiragem inicial de 45.000 exemplares! E o continente é a África, onde já existem mais de cem franquias da Universal.  Mais de cem igrejas na África! Se vacilar, até gnu já foi convertido (zebra, não, porque com ele só vale o que pode dar certo). Tenho que admitir que o bispo é muito foda em prospectar novos mercados e novos negócios! 

Foi aí que me ocorreu uma ideia que passaria para ele "de grátis", sem cobrar nada: a Record já faz novelas com temas bíblicos, certo? Porque não fazer também um desenho animado no estilo Hanna Barbera? Esse estúdio tinha um personagem parecido com o Scooby Doo, um dog alemão biônico ou um robô em forma de cachorro, não sei bem. No Brasil, recebeu o nome de Bionicão

Se essa ideia fosse aprovada, eu já teria duas sugestões: o cachorro seria um pastor alemão (questão de afinidade religiosa, sabe como é?) e o nome em português poderia ser Evangelicão. Show de bola!

quinta-feira, 9 de julho de 2015

COISAS DE ORATÓRIOS

Meu pai nasceu em Oratórios, mais precisamente em São José dos Oratórios, na época em que esse município ainda era apenas um distrito de Ponte Nova. Saiu de lá na década de 30, creio, mas guardou sempre uma lembrança carinhosa de sua terra. De tal forma, que quando mencionei que o João Bosco, compositor nascido em Ponte Nova, havia gravado uma música com o nome de “Das Dores de Oratórios”, meu pai espantou-se:

 Não é possível! Será que é mesmo a minha querida Oratórios?

Era. Dei a ele o disco que continha essa música. A bem da verdade, não era uma música para se gostar de imediato. Falava de uma noiva que foi abandonada no altar, enlouquecendo a partir daí. Trajando o que restou do vestido de casamento, ficava gemendo e gritando pela cidade.


Quando eu e meu irmão éramos crianças, nosso pai nos contava histórias incríveis enquanto nos colocava para dormir. Começou contando casos de sua infância e acabou com histórias mirabolantes inventadas por ele. Para nós isso não fazia a menor diferença, porque tudo parecia ser a narrativa saída de um livro de aventuras, tal sua dessemelhança com nossa vida de crianças de cidade grande cercadas e controladas por onze adultos.

Minha irmã, onze anos mais nova que eu, também ouviu esses casos. Meu pai era um bom contador de histórias mas, talvez, a explicação do encanto e diversão proporcionados por esses casos antigos esteja nesta frase ouvida recentemente (infelizmente, desconheço o autor): “nada é mais estranho que o passado recente”.

Finalizando essa não tão pequena introdução, preciso dizer que a maioria dos casos ouvidos por nós dissipou-se como fumaça, como a fumaça do tempo que passou. Por isso, relembrar alguns desses casos ingênuos, divertidos e antigos que já tinha esquecido, me deixa feliz. Porque parte do que sou hoje veio lá de São José dos Oratórios, veio da família de meu pai, de seus costumes, de sua esquisitice e de sua forma peculiar de relacionar-se com o “mundo exterior”. Para isso, vou usar e abusar da memória e das descrições encaminhadas por minha irmã, que conviveu muito mais tempo com nosso pai. Vamos lá:


DO TEMPO DA ESCRAVIDÃO
“Papai me contava algumas histórias dos escravos do avô dele (pai da vovó Vita): quando ocorreu a abolição, eles imploraram para continuar na fazenda porque não queriam ir embora de jeito nenhum – e realmente continuaram lá. Segundo relatos de nossa avó, esses escravos eram tratados com consideração, como se fossem empregados e não escravos. Uma das histórias que eu mais gostava de escutar era a de um escravo velho e meio amalucado: no dia em que ele cismava que era feriado não tinha ninguém que o convencesse do contrário. Punha uma garrafa de cachaça debaixo do braço e ia às fazendas da vizinhança provocar ‘os colegas que não estavam de folga’. Isso dava uma confusão danada para o nosso bisavô, que depois tinha de apaziguar a fúria dos demais fazendeiros, porque o tal escravo perturbava o trabalho dos outros. Segundo papai, nossa avó contava esse caso com muita simpatia e muita ternura porque gostava muito do preto.

Quanto à família do vovô Augusto, imagino que talvez tivesse um perfil abolicionista, porque não me lembro de relatos desse tipo de história; ao mesmo tempo, lembro-me vagamente de menção à revolta de nosso avô frente a situações de desumanidade. Papai dizia sempre que seu pai era um homem extremamente correto e justo e não mentia em hipótese alguma, doesse a quem doesse, embora fosse muito amoroso”.


SÁ GERMANHA E SÁ GENOVEVA
“Sá Germanha (Germania) e Sá Genoveva eram empregadas da casa deles e, provavelmente, irmãs. Uma delas dizia que quando ia a um ‘baile’, levava um almanaque; assim, quando algum ‘cavaiero’ a convidava pra dançar, ela agradecia e recusava delicadamente explicando – ‘não posso, estou estudando’. E papai acrescentava que o almanaque devia estar de cabeça pra baixo, porque ela não sabia ler.

Uma delas, quando ia à cidade fazer compras, às vezes voltava vitoriosa contando a negociação que tinha realizado. Era alguma coisa como – ‘acha que eu sou boba de comprar isso por cinco réis (ou coisa parecida)? Eu levo se o senhor deixar por dez!’ E o comerciante muito generosamente e em consideração à ‘clientela fiel’, concordava!

Um dia, quando uma delas estava na cozinha com uma conhecida, um dos tios entrou e perguntou se o ‘coffee’ estava pronto e ela respondeu que já estava saindo. Outro tio surgiu e ela informou que o café estava pronto, ao que ele respondeu: – ‘oh! muchas gracias!’. A amiga, boquiaberta, perguntou se ela entendia o que eles diziam e ela muito importante esclareceu: – ‘ah minha filha, pra trabalhar aqui nesta casa, tem que falar muitas línguas’.”


ZÉ MAMÃO
“Sei que morava em Oratórios e papai falava dele com muita simpatia. Ele gostava muito da família do papai e ia com muita frequência na casa ou venda deles. Uma vez ele apareceu com uma mala velha de couro e foi se despedir porque estava indo embora para Ponte Nova ou sei lá onde. Tio Delvaux então com muita conversa e psicologia o convenceu a desistir do intento, usando argumentos ‘fortes’ ao dizer como todos na cidade ficariam muito tristes com a ausência dele e que não achariam ninguém para substituí-lo nas ‘funções imprescindíveis que ele executava tão bem’, funções essas que eu não lembro bem, mas eram umas coisas bem malucas. E Zé Mamão, muito comovido, desistiu de ir embora e abriu a mala para que o Tio Delvaux visse as preciosidades que ele ia levar: uns carretéis de madeira vazios, umas latinhas, uns vidrinhos sem tampa e um pedaço de fumo de rolo. Aí foi a vez do Tio Delvaux ficar comovido com tamanha inocência. Outros tempos, né?”


NADANDO NO RIO
“Segundo papai, algumas vezes, ele, Tio Nhô, seu primo Odilon e outros amigos iam para a beira do rio fumar escondido. Quem sabia nadar, aproveitava a ocasião pra se refrescar; um desses era o Odilon.

Papai dizia (e mamãe também confirmava) que seu primo era moleque demais. Em um desses dias, depois de ter nadado bastante, montando na bicicleta todo molhado e, diga-se de passagem, nu e com o cigarro no canto da boca, começou a fazer demonstrações das habilidades ciclísticas. Só que justo nessa hora, passa a jardineira (ônibus) das moças do colégio interno e com as freiras também, que dão de cara com a cena: Odilon pedalando a bicicleta, pelado e de cigarro na boca.

Papai contava que foi aquele alvoroço, as freiras horrorizadas tentando tapar os olhos das moças e algumas mais assanhadas olhando animadamente com risinhos disfarçados e irônicos.”


O PRIMEIRO AUTOMÓVEL
“Papai contava que em determinado dia chegou o primeiro automóvel em Oratórios e, como era de se esperar, causou imenso rebuliço. Todos os moradores, boquiabertos, querendo ver de perto aquela preciosidade. Era um carro alemão (papai dizia a marca, mas eu não me lembro).

Como ninguém sabia dirigir, resolveram chamar certo indivíduo, muito ‘gabaritado’ por ter morado algum tempo no Rio de Janeiro. O problema é que o sujeito também não sabia dirigir, mas não podia dar o braço a torcer. Como dizia papai, “montou no carro e ligou a ignição” e saiu dando arrancos e mais arrancos e fazendo um barulhão, em meio ao espanto e entusiasmo geral.

Quando alguém com um pouco mais de sensatez perguntou ao ‘experiente motorista’ se era daquele jeito mesmo, ele respondeu categoricamente que sim, porque aquele era um carro alemão e os alemães são assim mesmo, ‘muito bruscos’”.


“O SECRETÁRIO MODERNO”
“Outro caso de que me lembrei foi o de um amigo do Tio Lourival que ficou hospedado na casa dos nossos avós alguns dias. Esse amigo estava radiante com um livro que havia adquirido. O título era ‘O Secretário Moderno’ e o livro apresentava modelos de cartas para várias situações. Quando partiu, despediu-se calorosamente de todos, principalmente do amigo Lourival, agradecendo a hospedagem.

Pois bem, pouquíssimos dias depois, Tio Lourival recebeu uma carta desse amigo com os seguintes dizeres (imagino que devia ter um prezado ou caro ou algum outro pronome de tratamento):

‘Lourival,
Qual o motivo do teu silêncio?' 

E papai completava  ‘ele devia estar doido para estrear o livro, mas não conseguiu encaixar o Lourival em nenhum dos modelos de carta. Não encontrando outra opção, não se deu por rogado’.
Fico imaginando a cara do Tio Lourival, que era muito irônico, lendo a carta.”


LINGUIÇA NO FUMEIRO

Imagino que no início do século XX todas as casas mais simples possuíam um fogão de lenha. Também existia um na casa de meus avós paternos, em São José dos Oratórios (distrito de Ponte Nova). Pendurado sobre o fogão havia um pau roliço, onde se colocava parte da produção caseira de linguiças, que iam sendo defumadas graças ao calor e à fumaça da lenha queimada para o preparo das refeições da família.

E é aí que entra a protagonista deste caso: uma mulher meio louca, meio desaforada e talvez já um pouco idosa, às vezes ia à casa de minha avó pedir esmola ou comida, se não me engano. Pelo menos para meu pai e seus irmãos era conhecida por "Sá Maria me Atende" (a súplica transformada em apelido!).

Creio que em um dia qualquer, Sá Maria entrou na casa, provavelmente pela cozinha, e pediu comida. Uma de minhas tias, talvez desejando verdadeiramente ajudar a coitada, ofereceu trabalho a ela. E a surpresa veio com a resposta dita de forma irônica e lírica, dizendo que aceitava galinha assada e "linguiça no fumeiro", mas de trabalho estava fugindo. E nunca mais voltou a por os pés na casa de minha avó. É uma historinha boba? Certamente que é, mas a frase esquecida é que daria sabor a esse "causo", talvez um sabor de linguiça caseira defumada lentamente.


FALANDO FRANCÊS
“Trata-se do filho de um dos moradores do distrito; o pai era frequentador e freguês do armazém de nosso avô Augusto. Homem muito humilde, trabalhador rural e que tinha muita estima pela família do papai, no final do dia, depois da lida, ia para o armazém conversar fiado, fumando cigarro de fumo de rolo e provavelmente tomando uma pinguinha, como muitos outros. 

Pois bem, esse homem simples tinha um filho que foi mandado para um seminário como auxiliar de serviços e adquiriu algum estudo por lá. Teria sido enviado para esse seminário por intermédio de algum patrão do pai com a intenção de ajudar na educação do rapaz. De tempos em tempos o rapaz voltava à casa paterna, talvez em período de férias e o pai, muito orgulhoso,ao exibir o talento de seu primogênito, aparecia no armazém geralmente em dia e horário de maior movimento, para que mais pessoas pudessem apreciar o espetáculo. E começava ordenando ao filho que pedisse o primeiro item da lista de compras apontando para o saco de arroz. O “crioulinho” (era assim a referência ao elemento) na maior desenvoltura, pedia em alto e bom som (vou escrever do jeito que se pronunciava):

 ‘Done moá an quilô de arrozê’.

(Entenda-se: done moá an quilô = donne-moi un kilo...)
E o pai, orgulhosíssimo, olhava ao redor para ver a impressão causada nos demais, igualmente encantados e boquiabertos. E assim o filho prosseguia com os outros itens. Feijão virava feijô, fubá virava fubê, farinha era farinhê na boca do picareta. E ouvindo o filho falar "francês", o pai, não se contendo de emoção, já engasgado com toda aquela erudição, ordenava o último item e o rapaz, sem pestanejar:

 ‘Done moá ine rapadurê’.

Em vista disso, o pobre homem prorrompia em pranto e, entre lágrimas, exclamava:

 ‘Ele fala um francêis tão ispivitado, que até eu, que sou anarfabeto, entendo!

E papai concluía de forma solene e irônica: ‘Coisas de Oratórios!’ Mamãe sorria e balançava a cabeça como quem diz ‘nunca vi tanta bobagem’”.

* * * * *

Este texto é uma homenagem a meu pai, nascido em 1911, em um dia de Finados. Por ter acompanhado o enterro dos pais e de quase todos os irmãos (era o segundo mais novo), ele odiava essa data, ocasião em que trancava-se em um quarto, imagino que entregue às lembranças da família. E só permitia a entrada dos filhos.

É também um agradecimento público à minha irmã, pela paciência e empenho em lembrar e escrever esses casos para mim.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

DORMINDO PROFUNDAMENTE

Este post é mais um adendo ou anexo, pois não fazia parte do texto que escrevi para meus filhos. Resolvi fazê-lo para encerrar a série "Século... vírgula..." sobre a família de meu pai, depois de receber três presentes de minha irmã.

ÁLBUM DE RETRATOS
O primeiro presente foram os retratos que ela me enviou por e-mail. Fiquei fascinado com as fotografias. Sinceramente, gostaria de apresentar os tios sem a beca de formatura, mas não consegui as fotos 3 x 4 de todos. O TOC me impediu de usar quatro fotos normais e só uma com beca. As fotos das tias são mais recentes, tal como eu me lembro delas. E a ordem, claro, é coerente com a data de nascimento de cada um. O casal que aparece em uma foto esmaecida são meus avós paternos - Vovó Vita e Vovô Augusto (Sô Gusto). Esse retrato tem mais de setenta e cinco anos, pois quando eu nasci meu avô já tinha morrido.

Curioso é o fato de todos os homens terem estudado medicina e todas as mulheres farmácia. É claro que alguma coisa deu errado nessa história, pois nenhum dos homens exerceu essa profissão! A minha dedução é que aconteceu com meus tios o mesmo que com meu pai: estudaram medicina só para agradar os pais. 

Não faz muito tempo, inexistia a separação nítida de cursos universitários tal como é hoje. Tive um colega cujo título era engenheiro civil-eletricista. Minha mãe tinha um cunhado cujo título era engenheiro-arquiteto. Assim, imagino que, na época de meus tios, quem se formava em medicina estava automaticamente habilitado em farmácia. Foi o que aconteceu com meu pai.

Aliás, há mais uma curiosidade: durante o Estado Novo, se não me engano, os farmacêuticos foram autorizados a registrar-se como químicos, para suprir uma mão de obra inexistente e necessária aos esforços de industrialização do país. Dessa forma, meu pai tinha a formação de médico, farmacêutico e químico (profissão que realmente exerceu). 

Esse colar de títulos universitários não o impediu de viver duro a maior parte da vida, sempre às voltas com agiotas. E o motivo, creio, é bem simples: com a morte de dois dos irmãos mais velhos e a quebra dos negócios da família, sobrou para os remanescentes o pagamento de dívidas e encargos, situação bem na linha da frase -"segura no pincel aí que eu vou tirar a escada”.

QUADROS
Na mesma linha homenagem-memória dos textos anteriores, apresento duas imagens do "quadro dos carneiros" mencionado no post anterior ("SÉCULO VINTE VÍRGULA TRÊS"). A primeira resultou de uma foto tirada (ficou com reflexo do flash) por minha cunhada e tem as cores originais da pintura. A segunda é a cópia que está hoje na casa de minha irmã. Como pode ser visto, as cores não correspondem às originais.



NO PAÍS DOS BANGUELAS
Recentemente, minha irmã perguntou se eu queria uma maletinha que pertenceu ao pai de meu pai. Acho que a resposta que dei é óbvia, não? Aceitei na hora, lógico!

Além de toda desmontada e comida de cupim, trazia uma curiosidade: na parte interna (apesar dos cupins), estavam preservados os "berços" das ferramentas que ali estiveram acondicionadas. As formas das ferramentas eram visualizadas ou intuídas facilmente. E eram alicates, boticões e ferrinhos de dentista!

Como meu avô era dono de armazém... em um distrito de Ponte Nova... no final do século XIX / início do século XX... só posso pensar que, às vezes, talvez exercesse também essa atividade naquele fim de mundo. O que teria suas vantagens: antes de extrair o siso de alguém, já vendia logo o anestésico (cachaça, claro).

segunda-feira, 6 de julho de 2015

SÉCULO VINTE VÍRGULA TRÊS

Tia Zinha, tio Nhô e tia Sinhá foram os tios com quem mais tive contato na infância. Tia Sinhá e tio Nhô eram solteiros (solteirões) e tia Zinha era separada. Tio Nhô era um desenhista incrível, sempre com ideias mais para a charge e humor. Era um sujeito extremamente habilidoso. Tão habilidoso quanto excêntrico. Fazia molhos fantásticos (tipo molho inglês), consertava seus próprios sapatos, afinou o piano da sobrinha com alicate e faca de cozinha.

Aliás, essa afinação foi motivo de aposta com um amigo, que duvidou que conseguisse afinar o piano com essas ferramentas (“se você afinar o piano com isso, eu corto minha cabeça”). Contava meu pai que tio Nhô, bem humorado, foi cobrar a aposta do amigo.

Um dos casos pitorescos que esse tio protagonizou foi o conserto de uma motoneta de meu primo Totó, que contou o caso para minha irmã. Para variar, a descrição é dela também (descobri que ela é uma boa contadora de casos!):

"O outro caso foi o Totó que me contou com todo aquele espalhafato que lhe é peculiar. Ele disse que tinha uma motocicleta velha pra caramba que andava uma beleza na reta e na descida, mas qualquer subidinha era um vexame (uma tal de gulivet ou coisa parecida, só sei que podia pedalar quando precisava).  Ele comprou essa coisa porque queria fazer bonito pra uma moça lá na Pedro II que nem olhava quando ele passava de bicicleta. Aí foi um espetáculo, porque ela começou a 'olhar de rabo de olho; também com aquele barulhão', mas no dia seguinte da compra, atravessou um cachorro na frente da moto e ele caiu bem no passeio da casa da moça e ele e a moto ficaram todos estropiados.

Foi então que Tio Nhô disse que ia resolver o problema e mandou levar a moto pra dentro do quarto dele, fechou a porta e começou a desmanchar 'a possante'. E ele conta que quando viu aquele monte de peças no chão, pensou: 'puta que pariu, antes eu tinha uma jeringonça que não funcionava, agora eu tenho é uma montoeira de peças que eu não sei pra que que serve'. E ele descrevendo Tio Nhô é bacana demais: 'E Nô lá com aquela cara muito séria e compenetrada, com o cigarro num canto da boca, e depois de um tempo me mandava acelerar, e cada acelerada era POOU e Vruuummmm e aquela fumaceira danada e nós dois ficando cada vez mais pretos. E mamãe (Tia Zinha) desesperada do lado de fora gritando 'Nô, abre essa porta, vocês dois vão sufocar aí dentro'. Depois de muita peleja, sai eu e Nô igual carvão e o 'veículo', novo em folha. Foi um sucesso e funcionou muito tempo'.

Outra coisa curiosa que eu gostava muito, é que papai contava que Tio Chiquinho, Tia Sinhá e Tio Nhô sabiam tocar violino, só que Tio Nhô como era canhoto invertia as cordas do violino, colocava-as ao contrário. Eu não entendia, mas achava aquilo um barato".

Tio Nhô, entre outras maluquices, em uma ocasião, tirou e revelou fotos 3x4 de meu pai e dele próprio (a bem da verdade, ficaram muito esquisitas). Às vezes inventava artefatos estranhos que desenhava, explicando depois como deveriam funcionar. Nunca saiu de casa sem paletó e achava um arrojo e sinal de grande modernidade o fato de meu pai sair sem.

Meu pai tinha adoração por ele, embora sempre lhe desse “uns coices” e lhe “passasse descomposturas”, como meu pai mesmo reconhecia (-“O Nhô me trata como se ele fosse minha mãe e eu retribuo escoiceando-o”). 

Tio Nhô morreu em março de 1979. Segundo minha irmã, então com 17 anos, foi a primeira vez que viu nosso pai chorar (depois de ter se segurado até o último minuto). Além das lágrimas que teimaram em sair apesar do controle rígido das emoções que ele impunha aos irmãos e a si mesmo, enquanto a cova era tampada, balbuciou uma frase simples mas definitiva: -"adeus, meu irmão querido".

Depois disso, certamente, o dia de Finados, aniversário de meu pai, ficou definitivamente triste e insuportável. Nesse dia, trancava-se no quarto e, com exceção de nós, seus filhos, não atendia ninguém, nem mesmo mamãe. Para ele, era inadmissível comemorar seu aniversário em um dia de tão tristes lembranças.

Nunca soube se sempre se sentiu assim. Às vezes penso que com a morte do pai e depois da mãe, essa data perdeu de vez o brilho para ele.

Tio Nhô (1909 – 1979)



Tia Sinhá era uma pessoa meio etérea e, talvez, um pouco aérea também. Solteira, falava inglês e era pintora, boa pintora acadêmica. Lembro-me de alguns quadros pintados por ela na juventude, dependurados na casa de tia Zinha, com quem morava. Eu sempre admirava um quadro grande, com vários carneiros em um estábulo ou coisa parecida. Era de um realismo impressionante.

Quando tia Sinhá morreu, tia Zinha deu esse quadro para meu pai. Durante algum tempo, ele enfeitou a sala da casa onde morava minha mãe e que hoje é de minha irmã. Depois que meu pai morreu, aconteceu um fato que me surpreendeu muito. A narrativa a seguir é de minha irmã:

 O quadro dos carneiros da tia Sinhá está novamente com a Cocota. Eu devolvi para ela porque quando tia Zinha o entregou ao papai foi porque ele de certa forma fez uma ‘pressãozinha’ e eu ficava com muita pena quando ela e a Cocota ficavam admirando o quadro com um ar muito saudosista. Uma vez tia Zinha pediu licença para tirar um retrato do quadro para se lembrar melhor dele. Isso me tocou muito e então eu resolvi ‘devolvê-lo a quem de direito’, no caso, a Cocota. Antes, porém, eu me inspirei na tia Zinha e pedi a um fotógrafo profissional amigo do meu cunhado para tirar um retrato do quadro. Mandei imprimir em tamanho A2, em lona, e pus uma moldura. Ficou bacana, embora as cores tenham ficado um pouco mais escuras.

Bacana, mas com essa notícia, quem ficou com “um ar meio saudosista” fui eu. Mas, tudo bem.

Outro quadro imenso que ficava pendurado na sala de tia Zinha mostrava uma paisagem rural. No canto esquerdo do quadro via-se um cavalo e uma moça jovem, que se parecia muito com tia Sinhá. Um dia ela me disse que era ela mesma. Esse quadro foi pintado quando tinha dezessete anos. Depois que eu me casei, ela pintou um quadro para me dar de presente. Também uma paisagem rural. Segundo me disse, achara uma gravura linda, com a tal paisagem. Por isso, resolveu ampliá-la para me presentear. Sinceramente, deixando de lado o aspecto sentimental, prefiro os quadros de sua juventude.

Tia Sinhá (1901 – 1989)



Tia Zinha era o contraponto de realidade para tio Nhô e tia Sinhá. Casou-se com um médico (brilhante, segundo meu pai) e teve um casal de gêmeos, Dalmo e Dalma, segundo o cartório de registro civil. Ou José Geraldo e Maria das Graças, segundo a Igreja Católica.

O marido, sem que tia Zinha sonhasse com isso, foi ao cartório e registrou os filhos com um nome. Minha tia, sem saber de nada, batizou-os com outro nome (fico imaginando que o pai de meus primos deveria estar presente no batizado).

Essa foi uma das loucuras protagonizadas pelo marido de minha tia (Ladeira, era como meu pai o tratava), até ela separar-se dele. Não tenho certeza, mas creio que quando nasci ela já estava separada. Depois que minha avó morreu, Tia Zinha mudou-se para uma casa no bairro onde morávamos.

Nessa época, pelo menos Tio Delvô ainda estava vivo, embora eu não mais o visse. Curiosamente, depois que um dos irmãos adoecia, sumia para o mundo. Nenhuma visita tinha permissão para entrar no quarto do doente. Nem minha mãe nem ninguém. Só minha prima Neusa, muito "topetuda", uma vez, enfrentou os tios e entrou no quarto para ver o doente. Mas creio que foi só essa vez.

Embora meus primos sejam um pouco mais velhos que eu, eu adorava encontrá-los quando ia à casa de tia Zinha. Para mim, eram Totó e Cocota. Meu primo Totó era um de meus ídolos, pois, além de mais velho, tinha cachorro e bicicleta (e liberdade para usufruir isso). Meu pai também o chamava de Nonô.

Tia Zinha (1916 – 1997)



A Cocota namorou e noivou ao som de Anísio Silva (“quero beijar-te as mãos, minha querida...”), um cantor horripilante do tipo Amado Batista ou Reginaldo Rossi (e fez sucesso, o filho da puta!). Casou-se com o Getúlio (falecido recentemente), um sujeito vermelhão e gente fina, por quem meu pai nutria algum desprezo, já que não tinha curso universitário. Mas era trabalhador, ao contrário de mim e de meu irmão, que vagabundamos despreocupada e irresponsavelmente até o meio da faculdade. Creio que tiveram três filhos: Mônica, Moema e “Tulinho”.



Totó era bem apessoado, com um topete que lembraria o do Elvis Presley em início de carreira. Mesmo assim, talvez por timidez, acabou se casando com uma mulher feia pra cacete (Jandira) e que parecia bem mais velha que ele. A impressão inicial que tive dela era a de uma pessoa má e invejosa. Esse julgamento nunca se desfez. Tiveram uns três filhos que não me lembro de jamais ter conhecido.

Um belo dia (para o Totó), o casal se separou e ela tornou-se evangélica (não sei se antes ou depois da separação). Encontrando-me com o Totó em uma missa de formatura ou outra coisa qualquer, tivemos o seguinte diálogo, com o humor contido da família de meu pai.
 Zé, você sabe que eu me separei, né? Pois é, fiquei sabendo que a Jandira me queimou na fogueira santa da igreja dela...
 Você não está parecendo muito queimado não. No máximo, está meio gratinado...
A Cocota, que estava perto, riu quase sem abrir a boca, bem à moda da família.



Na maioria das vezes, casos antigos de família sempre trazem boas lembranças, mesmo que na época do ocorrido possam ter gerado constrangimento ou irritação. Para encerrar este texto e como uma homenagem a minha prima Neusa, filha única de Tio Lourival, falecida há pouco mais de um mês, vou contar um caso que me divertiu bastante.

Sempre, nas pouquíssimas vezes em que nos encontramos, a Neusa era de uma simpatia incrível. Simpatia e mordacidade. Eu me divertia muito com as coisas que ela dizia e contava. Foi em um desses raros encontros, em uma das lojas C&A, que ficamos sabendo do caso do suposto irmão, de desfecho hilário.

Papai teria contado à minha irmã que Tio Lourival teve um filho com uma das muitas "namoradas" dos tempos de solteiro e que o menino era a cara dele (de acordo com minha irmã, papai inclusive suspeitava que existissem outros). O fato é que minha prima só veio  a saber disso muitos anos depois, quando, creio, meu pai já tinha morrido.

A reação foi hilariante – e contada depois por ela própria para mim e para minha mulher:

 Amintas filho da puta! Porque ele nunca me contou? Eu sempre quis ter um irmão!!!
(maio/2013)

sábado, 4 de julho de 2015

SÉCULO VINTE VÍRGULA UM

Tio Delvô e tio Chiquinho morreram quando eu ainda era criança. Só vim a reconhecê-los através de retrato, pouco tempo antes de meu pai morrer. Curiosamente, a única imagem de infância que tenho de um deles, é a de um homem de cabelos lisos, despenteados e com um olho branco (o que me causava grande medo), que via às vezes na casa de minha avó. Quando comentei isso com meu pai, vi uma grande surpresa em seu rosto, e o comentário de que tio Chiquinho teve catarata em um dos olhos (quando tio Chiquinho morreu, eu era bem novo, talvez com cinco anos. Foi a primeira notícia de morte que recebi).

Pelo que dizia papai, tio Chiquinho escrevia bem pra caramba. De acordo com minha irmã, “papai se referia a ele como um verdadeiro poeta, de uma inteligência e sensibilidade nunca vistos e, ao mesmo tempo, de uma modéstia sem par. Papai achava que como tio Nhô, ele, Chiquinho, também teria estudado medicina por influência dos irmãos, mas sua natureza era de literato e historiador”.  Foi professor de História em Ubá.


Tio Chiquinho (1899 – 1955)



É curioso pensar que, para mim, até outro dia, tio Delvô seria o equivalente ao retrato de Itabira para o Drummond – apenas uma lembrança, só que sem nenhuma dor. De repente, com as informações recebidas, ele quase que se “materializou”. Segundo minha irmã, papai sempre se referiu ao tio Delvaux como sendo o "empreendedor" por excelência. Junto com o irmão Lourival fundou um laboratório de produtos farmacêuticos. Creio que o nome era Laboratório Tapaiuna. Dirigia – ou coordenava algumas farmácias de propriedade da família (coisa com que eu realmente nunca sonhei): uma no bairro de Santa Teresa, administrada pela tia Neném, outra em Brumadinho pela tia Zinha, outra em Ouro Preto, dirigida por tio Lourival e pela filha Neusa e, ainda uma no Rio de Janeiro, de responsabilidade do próprio Delvaux. O laboratório ficava na Av. Brasil e quem tomava conta era meu pai, tio Nhô e tio Chiquinho.

Palavras de minha irmã: “Por todas as informações que consegui obter da tia Zinha, (...) e Neusa, deduzo com bastante probabilidade que tio Delvaux, depois da recessão pós-guerra que culminou na falência dos negócios, desenvolveu um depressão severa que na Medicina chamamos Transtorno Depressivo Maior e não se recuperou mais.” Quando eu nasci – ou pouco tempo depois – esses negócios já tinham ido pro brejo.


Tio Delvaux (1894 – 1964)



Tio Lourival sempre me pareceu um sujeito alegre e irônico, pois sempre o via rindo, nas pouquíssimas vezes que estive com ele. Talvez o mais moleque da família. Creio que foi ele, quando criança, que trocou o pedaço de fumo de rolo de uma visita, amigo de meu avô, por excremento seco de porco. O visitante, sem perceber, teria picado o cocô seco, preparado e fumado o cigarro de palha, apenas estranhando de vez em quando o aroma e o sabor deixado na boca pela fumaça. O resto da história não sei. Já adulto, morou muito tempo em Mariana. Era casado com Lígia (não tia Lígia, apenas Lígia) e pai de Neuza, a prima mais misteriosa da minha infância, pois só vim a conhecê-la quando se casou com o Odilon.

A propósito dessa prima, há um fato pitoresco a lembrar. Ela era apaixonada pelos escritores russos (Tolstoi e companhia). Por isso, deu a todos os filhos - e ela os teve com bastante entusiasmo, talvez para compensar o fato de ser filha única -  nomes tirados dessa literatura: Kátia, Alex, Dimitri, Karina, Igor e Yuri. Ah, ainda teve um cachorro, ou melhor, cadela, de nome Natasha. Bacana!



Tia Neném era casada com tio Geraldo, um sujeito que sempre me pareceu um gentleman, com seu cabelo liso e ralo sempre muito bem penteado. Meu pai e ele tinham uma convivência civilizada, mas como Tio Geraldo tinha um bar no Santo André, próximo à pedreira Prado Lopes, isso era causa de um desprezo mal disfarçado por parte de meu pai (afinal, Tio Geraldo não tinha “cultura”!!), um esnobismo equivocado e injustificável, principalmente porque meu pai já estava na merda, naquela época.

Tio Geraldo e tia Neném formavam um casal super simpático, pais de duas gêmeas incrivelmente idênticas para mim, que nunca sabia distinguir quem era uma ou outra. Lembro-me de vê-las com vestidos absolutamente iguais. Uma delas tinha um sinal entre os olhos, fruto de uma catapora, creio. Para mim, essa era a única diferença entre elas. Chamavam-se Teresinha Maria (falecida) e Maria Teresinha (idem). Ou Teresinha e Jumbinha, respectivamente.

Essas primas tinham uma pronúncia singular, fruto talvez de terem falado muito tarde (quatro anos?): colocavam erre no final de algumas palavras, criando um efeito inimaginável. Ao referir-se à minha mãe, conhecida por Lia, diziam “porque a Liarrr...”. Além disso, sibilavam fortemente o “s”, como se cochichassem permanentemente, só que em voz alta. Quando falavam de mim e de meu irmão diziam “Cecinhô” e “Eduarrrrrdô”. Eu achava isso o máximo.

Perto da data de nosso casamento, quando estávamos entregando os convites, perguntei a meu pai como faria para entregar um convite para Tia Neném. Papai se surpreendeu e perguntou se eu queria mesmo convidar sua irmã para nosso casamento. Diante do meu “sim” categórico, deu o endereço do apartamento e uma explicação quase extraterrestre:
– “São dois apartamentos por andar. Você bata na porta que estiver escura”.

Quando cheguei ao prédio, descobri de imediato a moradia de uma legítima representante da família de meu pai.. As portas de entrada dos apartamentos, como era comum na época, tinham uma janelinha ou abertura fechada com grade e vidro, que permitia a identificação de quem batesse, sem precisar abrir a porta. Pois bem, a janelinha do apartamento de Tia Neném estava escura, sinal de que a sala estava com as janelas fechadas e em total penumbra.

Depois que toquei a campainha, uma das primas abriu a janelinha e foi aquele alvoroço:
– É o “Cecinhô”!!

Minutos depois a porta foi aberta e pude entregar o convite para minha tia e para uma das primas. Nessa época, elas já não se deixavam ver juntas. Quando uma estava na sala, a outra ficava no quarto. Saía a da sala e logo chegava a do quarto. Isso se repetiu quando Tio Geraldo morreu. Só uma delas foi ao enterro. Depois do sepultamento, Tia Neném e a filha deram o braço para minha mulher e foram conversando como se nada tivesse acontecido. Afinal, como orientava meu pai, o choro em público era uma coisa que devia ser evitada, mesmo diante da maior perda. Muito louco.

Um dia, para grande consternação de tia Neném e de seus irmãos, a Teresinha engravidou. O que seria para mim motivo de grande alegria, sinal de que, afinal, ela não era tão lesada como a irmã, virou motivo de vergonha e mortificação. Versões sem nexo foram divulgadas, tais como um casamento (de que ninguém nunca ouviu falar) e imediata separação, coisas assim. O fato é que essa criança, uma menina pouco mais velha que nosso primeiro filho, provavelmente nem registrada foi, o que, aparentemente, também a impediu de cursar o ensino fundamental. Não me lembro do nome dela. Até alguns anos atrás, morava com a Jumbinha, pois Teresinha, sua mãe, morreu de câncer quando ela ainda era criança.


Tia Neném (1913? – 1989)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

COMENTANDO AS PENÚLTIMAS - 06 (HINO DOS CAFAJESTES - ROGER MOREIRA)

Há muitos anos, enquanto levava meus filhos para um colégio que ficava próximo da empresa onde trabalhava, ia ouvindo no rádio um programa simpaticíssimo e muito divertido. "Acorda, Pascoal!" era seu nome. Começava às cinco ou seis da matina e terminava às sete. O encerramento era feito com uma música tipo marcha apoteótica, extremamente irônica e bem humorada. Só muito tempo depois, quando o programa já não mais existia, é que fiquei sabendo ser essa música de autoria do Roger Moreira, do Ultraje a Rigor.

A propósito do Roger, preciso deixar claro o meu máximo respeito por ele e sua obra. Como já disse anteriormente, tenho medo ou receio de muita gente, admiro outro tanto, mas só respeito mesmo os inteligentes. E o Roger é. O cara faz parte do Mensa, pô! Então, não adianta querer patrulhar e desqualificar o sujeito só por ter antipatia pelo PT e esquerdistas do mesmo tipo. Já disse também (hoje estou me citando muito) que antipatia pelo PT é sinônimo apenas de bom senso. 

Nem sei se ele é de direita. E daí, se for? Quem se importa com isso deve achar que pensamento independente ou diferente do seu é um perigo para a humanidade. Já fiz um post sobre isso (hoje estou me citando muito mesmo!). Se alguém quiser ler, o título é "Triângulo Isósceles".

Eu já defenderia o Roger só por ele ter antipatia pelo PT. Mas não só por isso. Eu identifico-me com ele em muitas outras coisas. Por exemplo, cago de medo de viajar de avião. Além disso, comparar nossas inteligências é como brincar de lego: onde sobra em um falta em outro, porque eu sou burro pra caralho.

Deixando as piadinhas idiotas de lado e tendo em vista as últimas movimentações do mundo político e empresarial brasileiro, meu comentário de hoje é, na verdade, uma reverência sincera ao Roger e uma "homenagem" à maioria (eu disse maioria!!!) dos senadores, dos deputados federais, estaduais, vereadores, empreiteiros de obras públicas, advogados que manipulam, ignoram ou omitem dados, só para defender clientes com atitudes e comportamentos indefensáveis e todo tipo de gente que transforma este país na casa da mãe joana. 

Para esses, ofereço a música "Hino Dos Cafajestes", cuja letra transcrevo a seguir. E quem quiser ouvir, siga o link após a letra. Som na caixa!

Nós, os cafajestes do Brasil
temos como missão cafajestar
queremos nossas esposas prá chifrar
e o povo prá enganar

Filhos nos quatro cantos do Brasil
pensões que nós deixamos de pagar
contamos com o respaldo popular
em qualquer lugar

Canalhas!
em qualquer posto dessa nossa sociedade
os cafajestes do Brasil
podem viver com toda liberdade






quarta-feira, 1 de julho de 2015

SÉCULO DEZENOVE VÍRGULA NOVE

A família de meu pai, tal como a conheci, sempre me pareceu oriunda de um século próprio, só deles, tal a singularidade de comportamentos e características. Teriam nascido e vivido no século 19,7 ou no século 20,3. Alguma coisa desse tipo. Porque tinham traços de grande modernidade misturados com um imenso conservadorismo. Todos os irmãos que chegaram à idade adulta tinham curso universitário. Isso, na primeira metade do Século XX! 

As moças estudaram línguas, piano e violino. Os homens tinham queda pela literatura. Lembro-me de um lindo soneto, escrito a lápis em uma folha de caderno, que meu pai um dia me estendeu. Como sabia da fama literária de meus tios mais velhos, perguntei se era de um deles. Deu um sorriso misterioso. Perguntei então se era ele o autor. Sorriu mais misteriosamente ainda e pegou de volta o papel, apesar da minha insistência em copiá-lo. Infelizmente - assim como fizeram os irmãos antes dele - pouco antes de morrer, meu pai destruiu todos seus papeis pessoais.



Não sei de seus irmãos, mas meu pai nasceu em São José dos Oratórios, antigo distrito de Ponte Nova. Saiu de lá na década de 1930, creio, mas guardou sempre uma lembrança carinhosa de sua terra. De tal forma que, quando mencionei que o João Bosco, compositor nascido em Ponte Nova, havia composto uma música com o nome de “Das Dores de Oratórios”, meu pai espantou-se:
 Não é possível! Será que é mesmo a minha querida Oratórios?
Era. Dei a ele o disco que continha essa música. A bem da verdade, não era uma música para se gostar de imediato (ou algum dia). Falava de uma noiva que foi abandonada no altar, enlouquecendo a partir daí. Vestida com os restos da roupa de casamento, ficava gemendo e gritando pela cidade.

De minha avó, tenho apenas uma única lembrança. Fui uma vez visitá-la e ela estava doente, de cama. Levei para ela um pente verde, de cabo largo e arredondado (meu irmão deu um, igual, de cor vermelha, para minha avó materna). Creio que ela me pediu para penteá-la, não sei. Imagino que tenha morrido pouco tempo depois. O que me causa alguma estranheza é o fato de eu conseguir lembrar - com absoluta nitidez - do tal pente, pois devia ter uns cinco anos ou menos quando isso aconteceu.
Casa da família de meu pai

Meu pai tinha verdadeira adoração por ela e cursou medicina só para atendê-la. Apesar disso e embora fosse um ótimo médico, odiava essa profissão e toda a carga de sofrimento a ela relacionada. Para mim e para meu irmão, ela era a “vovó Vita”, em contraponto à avó materna, com quem morávamos (Dona Leta), tratada apenas de “vovó”.

Segundo as informações de minha irmã, teria nascido em 27 de outubro de 1878. Todos os meus tios (e primos!) referiam-se à minha avó apenas pelo apelido, Vita. Nada de “Mãe”, nada de “”. Só meu pai referia-se a ela como “Mamãe” ou, tomado de emoção, como “minha querida mãezinha”. Curiosamente, “Papai” era o tratamento que todos davam a meu avô.



Augusto era o seu nome. A data provável de seu nascimento é 19 de julho de 1866 (!). Foi dono de armazém em Oratórios e, segundo ironizava meu pai, era a terceira pessoa em importância no distrito, atrás apenas do padre e do delegado. Com essa “importância” toda, tinha muitos afilhados (provavelmente, muita venda fiado também). De acordo com meu pai, em uma visita a um dos afilhados nascido há pouco tempo, meu avô deparou-se com a “comadre” segurando uma mamadeira e o menino, no colo, berrando. Perguntada sobre o que estava acontecendo, disse que estava dando cachaça para o menino. Diante da reação escandalizada de meu avô (-“está louca, comadre?”), a mãe esclareceu: -“se não acostumar desde pequeno, depois não acostuma mais”. Quando nasci, meu avô já tinha morrido.

Apesar da criação humanista, meus tios tinham uma timidez e introversão enormes, percebidas até por uma criança como eu. Já adulto, comecei a pensar que a família de meu pai tinha uma grande vocação para a auto-extinção. Afinal, em uma época de famílias com prole numerosa, apenas quatro dos oito adultos se casaram. Assim mesmo, dentre os que se casaram, meu pai foi o que teve mais filhos, três, ao todo. Ou seja, minha avó, que teve dez filhos, talvez ficasse silenciosamente escandalizada por ter apenas oito netos. Mais introversão que isso é difícil. Curiosamente, essa tendência continuou a se manifestar nos netos e até nos bisnetos. Há, entretanto, alguns casos obscuros sobre filhos não reconhecidos. Um deles, se não me engano, aconteceu com tio Delvô.

Consta que um dia, muitos e muitos anos atrás, bateu à porta do laboratório farmacêutico de propriedade de meu pai e seus irmãos, uma senhora que trazia uma criança pela mão, filho provável desse tio. Essa senhora queria falar com tio Delvô. Meu pai, que a atendeu, em vez de conversar civilizadamente com a mulher, fez o contrário: bem ao seu estilo explosivo e antissocial, botou a dona pra correr (em estilo figurado, claro). Curiosamente, existe hoje em Ponte Nova uma família cujo sobrenome é “Delvaux”, a grafia exata do nome de meu tio. Seriam eles descendentes desse meu primo desconhecido?



Quando ia com minha mãe e meu irmão à casa de meus tios, tinha a sensação que eles se escondiam de nós, pois surgiam, cumprimentavam, riam e depois sumiam de novo para dentro de seus quartos. Tinham o risinho nervoso das pessoas tímidas e inseguras, olhavam como se estivessem medindo nossa aprovação. Mas eram de trato doce e muito carinhosos, exceção feita apenas para meu pai, de gênio tempestuoso e irascível. Quando queria, suas palavras cortavam silenciosa e profundamente, como se fossem lâminas de bisturi. Não sei se foi sempre assim, mas era o bicho-papão da família. E, não tenho dúvida, foi quem mais perdeu com isso.

Chamava-se Amynthas. Assim mesmo, com y e th, pois não concordava em alterar o nome que seus pais haviam dado a ele só por conta de uma reforma ortográfica ocorrida após seu nascimento. Curiosamente, embora considerasse “sagrada” a grafia original, achava muito feio o próprio nome, referindo-se ironicamente a ele na terceira pessoa: “porque o Amynthasssssss...”, sibilando fortemente o “s”, de pura sacanagem.

Tendo muitos irmãos, sempre que contava algum caso sobre eles, o fazia com indisfarçado amor. Para mim, que os via só de vez em quando, tinham uma magia e um encanto incríveis, tal o carinho e admiração com que meu pai se referia a cada um deles.

Aliás, papai nunca escondeu seus sentimentos positivos. Como tinha perdido tudo e estava sempre às voltas com agiotas, dizia-nos que não tendo nada material para nos deixar, só poderia nos deixar educação e instrução formal. Mas hoje sei que ele nos deixou muito mais do que isso: sua capacidade de demonstrar, sem nenhuma reserva, o amor incondicional que sentia pelos filhos.

Em uma época em que a maioria dos pais que conheci era distante e autoritária, ele contava histórias para nos fazer dormir (histórias absolutamente sensacionais sobre sua própria infância), beijava nossas testas e murmurava orações e bênçãos inaudíveis (quase como se fossem mantras) quando íamos sair.


Mesmo depois de casado, quando nos encontrávamos, em qualquer lugar que estivéssemos, eu me curvava para que ele me beijasse novamente a testa e me abençoasse, em retribuição a todo o carinho e amor que tinha recebido dele (hoje, eu ajo da mesma forma com meus filhos). Mas, vamos voltar à trilha original.

ANDRÉ MAUROIS - FRASES

  Depois de ler uma bela frase atribuída a André Maurois, quis saber um pouco mais sobre ele e se teria escrito outros aforismos, com a inte...