quarta-feira, 3 de setembro de 2014

DICIONÁRIO etimoLÓGICO – MILLÔR FERNANDES

A reverência hoje é para Millôr Fernandes, que faz parte da Santíssima Trindade do Humor no Brasil. Os outros dois podem ser qualquer um dos craques que existem por aqui, mas só o Millôr tem cadeira cativa. Olhaí.

"Millôr Fernandes é um dos grandes pensadores brasileiros e também um dos maiores humoristas. Uma de suas vastas e variadas produções é o Dicionário etimoLÓGICO, no qual as palavras ganham um novo significado criativo e engraçado numa brincadeira vocabular."
(http://convitealiteratura.blogspot.com.br/2011_12_01_archive.html)

Aguardar - Economizar água.
Algodão - Oferecem alguma coisa.
Apelido - Coisa lida sem sentar.
Armarinho - Vento que vem do mar.
Asfalto - Ausência da principal carta do baralho.
Aspirar - Aviador endoidar. 
Barganhar - Herdar um botequim.
Barracão - Cidadão que proíbe a entrada de cães.
Certidão - Momento em que eles declaram que você existe como ser.
Cerveja - Sonho de toda revista.
Coitado - Estuprado.
Comensal - Se alimenta com cloreto de sódio.
Comerciante - Se alimenta em frente.
Comichão - Devora terra.
Comodista- A que distância fica?
Comover - Maneira de olhar.
Compenetrar - Entrar a pé.
Competição - Tem um pé de crioulo.
Consolidar - Apenas com o fato de cuidar de uma coisa.
Consumo - O que ainda não foi expremido.
Convocação- Tem avô de filhote de tubarão.
Correligionário - Intimação para o legionário abrir no pé.
Criatura - Suporta o barulho dos grilos.
Democracia - Sistema de governo do inferno.
Demolição- Aula do diabo.
Demover - Olhar o diabo.
Desenvolta - Dez pessoas cercando uma.
Desespero - Aguardo uma dezena.
Destroços - Uma dezena de coisas.
Detergente - Ato de deter pessoas.
Dever - Olhar o D.
Dogmatizar - Misturar cães ingleses.
Fanfarra - Orgia dos admiradores.
Fascinantes - Certas mulheres que antes de cederem fazem sinal afirmativo.
Filatelia - Tomava conhecimento de tuas idéias o pessoal que esperava um atrás do outro.
Homossexual - Sabão em pó para lavar partes íntimas.
Informação - Está se fazendo.
Janota - Começa a perceber.
Jogador - Sujeito que arrisca a dor alheia.
Leiteria - Possuiria postulados legais.
Manutenção - O nervosismo do irmão.
Maratona - À superfície do oceano.
Marfim - Onde acaba o oceano.
Melancólica - Dor de barriga provocada por excesso de melão.
Missão - Culto religioso desses que enchem o saco.
Mortificar - Transformar-se em defunto.
Novecentos - Sujeito que vê centenas de nós por toda parte.
Obtemperar - Fazer salada com a letra B.
Padrão - Padre muito alto.
Pastoral - Tranquilidade entre os esposos das vacas.
Pelourinho - Pé fulvo.
Penalizar - Passar as mãos nas plumas.
Perverso - Por cada estrofe.
Presidiário - Indivíduo preso todos os dias.
Pungente - Pessoas que dão tiro.
Servir - Criatura humana que vai chegar.
Sólido - Apenas trabalho.
Unção - Um que não está doente.
Veracidade - Apreciar a metrópole.
Viaduto - Local onde se reunem homossexuais.

Se alguém quiser conhecer ou relembrar um pouco mais, siga o link


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

LET IT BEAGLES

Não se trata de ser mais velho e, por isso, menos idealista ou mais rabugento. Desde sempre eu fui doutrinado a respeitar as normas estabelecidas, mesmo discordando de algumas. Por isso, provavelmente, sempre fui considerado bundão pelos mais moderninhos ou rebeldes.

Hoje eu me permito escrever coisas inconvenientes, desrespeitosas, politicamente incorretas. Seria, talvez, uma expressão extemporânea de rebeldia e transgressão. Mas continuo achando que pichação é só vandalismo, só crime (e é mesmo, por lei); que invasão de propriedades particulares pelos movimentos sem isso ou sem aquilo é uma coisa ilegal que deveria ser combatida com extrema severidade pela polícia e demais autoridades, etc.

É claro que os defensores dos “direitos humanos” poderão me considerar um sujeito de direita. Mas eu sou apenas um sujeito que preza o cumprimento do Direito, da lei.

Esse papo está parecendo discurso de candidato às próximas eleições, mas não é nada disso. O motivo é um fato acontecido em outubro de 2013. Naquele mês um bando de ativistas de uma tal “Frente de Libertação Animal” invadiu um instituto de pesquisas para “libertar” uma penca de cães da raça beagle que eram usados como cobaias (com isso, inviabilizaram as pesquisas que estavam em andamento).

Para mim, essa atitude é tão absurda e criminosa quanto o saque de mercadorias em lojas depredadas durante manifestações disso ou daquilo. Para registrar minha discordância com atos desse tipo, imaginei, na época, um cartoon idiota (que acabei não fazendo, pois foda é desenhar) desse jeito:

O cenário mostraria um túmulo meio escavado e uma lápide tombada onde estaria escrito John Lennon (também poderia ser George Harrison). Um sujeito (meio calvo e de barba rala, de preferência) com uma pá na mão, olha com cara apalermada para outro sujeito, que está puto da vida. O cara puto diz a seguinte frase:

-   Eu te falei para libertar os Beagles!!!!!!!!!

domingo, 31 de agosto de 2014

IMBRÓGLIO

Recentemente. o Papa Francisco canonizou o Papa João Paulo II. Até aí, tudo bem, pois o Karol Wojtyla era dez. 

Quando o Papa Francisco já tiver morrido, talvez pensem também em canonizá-lo, talvez não. Se virar santo, provavelmente será conhecido pelos argentinos como San Francisco... 

Se não virar, pode pelo menos ser lembrado como Stan Francisco. Olhaí.

(sem sacanagem, eu acho que mandei bem agora. É verdade que meu carnê de viagem para o inferno teve mais uma parcela quitada).


sábado, 30 de agosto de 2014

SILÊNCIO OBSEQUIOSO

-   Resolvi criar um blog!

-   Para que?

-   Em vez de ficar mandando e-mails pra vocês com as coisas que me vêm à cabeça, vocês poderão entrar no blog e ler tudo!

-   Que alívio, meu...

-   Não entendi, mas tudo bem. Estou empolgadão!

-   Se você está assim, imagine seus amigos como ficarão quando souberem da boa nova ...

-   Já pensou?

-   E você já tem alguma coisa para colocar?

-   Aí é que mora o segredo! Tudo o que eu mandei pra vocês está guardado. Precisa só dar uma recicladinha e tá pronto.

-   Está falando sério ou isso é porque você é meio retardado?

-   Seríssimo!! Todo mundo reclama que eu falo demais, mas assim eu vou mostrar que não sou de jogar conversa fora. Boa essa, não?

-   Pôô!... Você disse que precisa dar só uma reciclada. E qual será o nome do seu blog - "Aterro Sanitário"? Porque você não é prolixo, você é pro lixo!

-   Tá de sacanagem comigo! Eu, sem falsa modéstia, escrevo bem pra caralho.

-   Deus tá vendo! É cada “joia” que envia! E como você é meio mal acabado, deve ser por isso que quando se aproxima, o pessoal já diz – “lá vem o Spamtalho”... 

-   Isso é gozação!

-   Tá bom, vou mudar de assunto. Qual será mesmo o nome do seu blog?

-   Ainda não decidi, mas já pensei em colocar junto com o nome uma frase bem sacada, só pra causar impacto.

-   Impacto?

-   É, tipo assim “o blog da vaidade exacerbada” ou “o blog sem desconfiômetro” ou, até mesmo, o ” blog da solidão ampliada”.

-   Com os dois primeiros eu concordo totalmente, mas por que “Solidão ampliada”?

-   É, porque quando eu escrevo eu estou totalmente solitário.

-   Aaah, sei! Mas eu tenho outra frase legal para você pensar nela, que seria uma homenagem aos seus amigos e parentes e uma referência à "aprovação" que fazemos de sua "obra".

-   Gostei! E qual seria?

-   O blog do silêncio obsequioso

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE (PASSANDO A SUJO)

Quando trabalhava em construtora, fiquei sabendo de um caso explícito de “mau-caratismo”. Um colega fez um elaborado estudo sobre algum assunto, para a diretoria da empresa. Esse engenheiro era muito inteligente, culto e escrevia bem pra caramba, além de ter ótima caligrafia. Não sei se chegou a apresentar o trabalho. O que sei é que outro engenheiro, um picareta ignorante e mesquinho, pegou esse trabalho e reescreveu tudo com a própria letra (não havia computadores) e o apresentou ao diretor.

Quando ficamos sabendo disso, um sujeito sarcástico disse que o texto tinha sido “passado a sujo”, porque estava até com erros de português e a letra do plagiador era muito mais feia que a do autor original  e comentou: “como ele é semianalfabeto, nem passar a limpo direito ele conseguiu”. Nós (aí incluído o diretor) rimos muito desse caso, mas, curiosamente, não houve punição para o mau-caráter.

Lembrei-me desse caso porque no ano passado eu mandei para algumas pessoas um texto com uma reflexão estilo "poça d'água“ (profunda como) sobre uma ideia que vinha me atormentando. Como gosto de criar títulos malucos para as coisas que escrevo, dei a esse texto o título de “Assim caminha a humanidade” por conta do assunto abordado. 

Recentemente, relendo o que havia encaminhado, achei que não dizia coisa com coisa. Aí resolvi passar essa ideia a limpo, ou melhor, “a sujo”, pois o que já era ruim ficou pior (por ter sido expandido). Então, sofrendo de novo:

Eu gosto muito de documentários sobre os grandes animais da África. Tenho especial predileção pelas cenas de caça (seria sadismo? sei lá). E uma coisa que descobri é que os predadores escolhem suas presas entre os animais mais velhos, os filhotes ou os que estão distraídos e perto demais para conseguir fugir.

A lógica disso é simples e já foi exposta em uma piada, aquela em que um sujeito vira para o companheiro de caçada e diz que não precisa correr mais que o leão, só precisa correr mais que o amigo.

Lembrando isso, outro dia me ocorreu uma ideia tipo papo cabeça, cabeça de vento, talvez, que é a seguinte (concentrando-me no exemplo dos animais mais velhos porque será?): comparadas duas pessoas de mesma faixa etária, a expectativa de vida será menor para aquela que tiver os passos mais vacilantes, menos vigor, menos desembaraço e mais dificuldade para caminhar. Como se pode notar, esta é mais uma teoria miojo.

Talvez por apresentar hoje as provas do meu desleixo e da minha irresponsabilidade com a própria saúde – artrose nos joelhos (entre outras “coisinhas”), provavelmente antecipada pelo sobrepeso que carrego displicentemente na pança, essa ideia tem se mostrado bem recorrente na minha cabeça.  

Então, bem ao estilo poça d’água, o lance é o seguinte: a capacidade de locomover-se, de deslocar-se, de caminhar foi fundamental nas migrações dos diversos povos, desde o princípio da humanidade. Expressões metafóricas do tipo “estrada da vida”, “caminhada por este mundo”, “ele deu um mau passo” são ouvidas com frequência, tal é a importância do ato de andar.

Assim, a dificuldade de caminhar notada especialmente nos idosos sinaliza (para mim, pelo menos) que a pessoa com essa limitação tem uma expectativa de vida abreviada, se comparada com ela própria se não tivesse nenhuma restrição motora. Pode ser também que essa dificuldade de locomoção seja apenas a ponta do iceberg. 

Porque penso assim? Porque quando alguém começa a ter dificuldade para locomover-se sozinho, a tendência é ficar em repouso, na maior parte do tempo sentado. E aí o organismo começa a reagir (mal) a essas mudanças. E tudo começa a ir para o ralo. A experiência é pessoal, acreditem.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

FÁBULAS DO DESENGANO - ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

Na edição número 2320 da revista VEJA, publicada em 8 de maio de 2013, eu li um artigo do Roberto Pompeu de Toledo, que tinha o título "Fábulas do Desengano". Há muito tempo sou fã desse jornalista, pois tudo o que escreve me deixa babando de admiração, seja pela elegância do estilo, clareza de ideias ou pertinência das observações e comentários.

Bom, eu gostei tanto do artigo citado, que tive o trabalho de escanear o texto via OCR e revisar para ficar igualzinho na revista. Aí mandei por e-mail para meus filhos. Lembrando-me disso, achei que esse texto seria uma ótima forma de reverenciar seu autor. Se a VEJA não fosse a excelente revista que é, só os artigos da última página, onde se alternam Roberto Pompeu de Toledo e J. R. Guzzo, já fariam  valer a pena a assinatura ou compra avulsa dessa publicação. 

Um dos autores que eu já reverenciei neste blog é justamente J. R. Guzzo. E o texto escolhido foi “Analfabetos Voluntários”. Talvez pela visibilidade do autor, talvez por ter sido extraído dessa revista, talvez apenas por ser um excelente e super bem escrito artigo, o fato é que esse post tornou-se o top de linha do blog, com mais de 180 acessos (este é um blog modesto e praticamente invisível, porque tem, no máximo, uns 3,5 leitores).

Não duvido que o homenageado de hoje vá pelo mesmo caminho, pois ele e o Guzzo se equivalem em excelência. Roberto Pompeu de Toledo, portanto, é "O Cara" desta semana. Por isso, espero que meus 3,5 leitores também o apreciem. E como o artigo escaneado é de 2013, tomo a liberdade de transcrevê-lo na íntegra, porque deve ser difícil encontrá-lo e, claro, porque é ótimo. Vamos lá:


Uma das passagens mais conhecidas de Dostoievski é a história do Grande Inquisidor, relatada no livro Os Irmãos Karamazov. O cenário é Sevilha, nos tempos da Inquisição. Ainda na véspera, uma centena de hereges havia sido queimada, para maior glória de Deus, num soberbo auto de fé. Eis que agora... quem aparece, caminhando suavemente, na mesma praça? Ele mesmo: Jesus! Estava escrito que um dia voltaria. Decidiu voltar, bem de acordo com seu conhecido gosto pelas estratégias de risco, num momento da história em que os que se fizeram de donos de sua mensagem adotaram a política de silenciar pelas chamas os insubmissos, os desobedientes, os desviantes ou os considerados como tais.

A multidão se aglomera diante dele. Vem um cego e pede: "Senhor, cura-me". Um gesto, e o cego vê. O povo rejubila-se, canta hosanas. No momento em que adentra a catedral, encontra o pequeno caixão de uma criança morta. A mãe se aproxima, entre lágrimas. "Ressuscita minha filha." Ele ordena à criança: "Levanta-te" - e ela se levanta. Nesse momento, surge em cena o Grande Inquisidor, É um velho alto, de face seca e olhar no qual brilha um sinistro clarão. Ele viu tudo: o cego que agora enxerga, a criança que voltou à vida. Aponta o dedo para o autor dos milagres e ordena aos guardas: "Prendam esse homem". O preso é recolhido ao calabouço dos hereges. À noite, o Grande Inquisidor aparece na cela. É um homem muito ciente de seus deveres e de sua autoridade e por isso lhe comunica que, no dia seguinte, será queimado. Não dá ao condenado nem o direito de palavra. Ordena-lhe: "Não digas nada, cala-te. Que poderias tu dizer? Não tens o direito de acrescentar uma só palavra ao que disseste outrora".

Dostoievski tinha em mente Jesus e os descaminhos de sua herança nas mãos dos que dela se apropriaram. Uma moral expandida da fábula poderia incluir os grandes pensadores, os políticos, os economistas ou os artistas em nome dos quais seus seguidores, admiradores ou intérpretes haurem prestígio e autoridade. E se eles voltassem? Se Marx voltasse, ou Freud, ou Darwin? Como reagiriam os chefes de suas respectivas igrejas? Para ficar mais perto, e se Bolívar voltasse à Venezuela? Teria ele o direito de acrescentar alguma palavra ao que disse outrora?

O escritor italiano Italo Svevo (1861-1928) deixou esboçada uma história, que afinal a morte o impediu de desenvolver, na qual um velho, ao preparar-se para dormir, à meia-noite, lembra que essa é a hora em que Mefistófeles costuma aparecer e propor seus famosos pactos. A esposa, na cama, já dorme placidamente. O velho deixa-se levar pelo devaneio e conclui que - sim, por que não? – de bom grado cederia a alma ao demônio. A questão é: o que pedir em troca? Imagina Mefistófeles, satisfeito por ter amealhado mais um, à espera apenas de que ele declinasse o preço. O velho pensa, pensa, e não chega a uma conclusão. Pedir de volta a juventude? Mas por quê, se ela é insensata e cruel, ainda que a velhice seja intolerável? A imortalidade? Por quê, se a vida é insuportável, ainda que nos atormente a angústia da morte? O velho se dá conta de que nada tem a pedir e, ao imaginar o embaraço do Mefisto, diante de tão surpreendente situação, põe-se a rir, e tanto que a mulher acorda. "Rindo, a esta hora", diz ela."Ê homem de sorte."

A fábula de Svevo é parecida com uma outra, de Monteiro Lobato, nesse grande livro que é Reinações de Narizinho. Dona Aranha, exímia costureira, faz o vestido de baile com o qual Narizinho vai se apresentar à corte do Príncipe Escamado. O vestido fica tão bonito que o espelho diante do qual a menina foi prová-lo arregala os olhos de espanto, e, à medida que são acrescentados os adereços, mais os arregala, e mais ainda, até que, de tanto se espantar, racha de alto a baixo. Era o sinal que Dona Aranha esperava desde que tinha nascido e, de menina que era, fora transformada em aranha por uma fada má. Ao mesmo tempo, uma fada boa lhe dera aquele espelho, prometendo que, no dia em que fizesse o vestido mais lindo do mundo, deixaria de ser aranha para ser o que quisesse. E agora? Dona Aranha pensa, pensa. Transformar-se em quê? Princesa? Sereia? Pensa, pensa, e desiste. "Acho melhor ficar no que sou. Estou acostumadíssima." Tanto na fábula de Svevo quanto na de Lobato a magia é derrotada. Por isso são tão saborosas. É uma delícia ver seres superpoderosos, como Mefistófeles ou as fadas, reduzidos à impotência, diante de quem despreza os seus serviços.


terça-feira, 26 de agosto de 2014

DARTH VADER

Acho que não estou falando nenhuma novidade, mas já repararam como as mães e as irmãs são generosas ao comentar os defeitos e qualidades dos filhos ou irmãos?

Mãe, então, é demais. Se o filho for um Norman Bates, um “serial killer” ou apenas um vagabundo, não duvido nada que ela saia em sua defesa dizendo – “ele é muito bom para mim, me ajuda tanto!” E daí?

As irmãs não ficam muito atrás. Se o sujeito é só um perdedor, um cachaceiro desocupado que – de vez em quando – arruma uns bicos para descolar um troco, só falta a irmã falar que o idiota é microempresário. Mas, se apertar, tenho certeza que ela dirá que o irresponsável trabalha por conta própria, é autônomo.

No quesito “condescendência”, as irmãs tiram nota nove, normalmente só perdem para as mães, que tiram sempre dez, "nota dez!". Isso, traduzido, significa que ambas são péssimas para julgar de forma isenta as qualidades e defeitos dos irmãos ou filhos. Podem acreditar, isso é real. Minha mãe era assim também. Hoje, não sei, porque não frequento o “Centro Oriente”.

Porque entrei nessa? É que minha irmã já disse algumas vezes que eu sou um desperdiçado, porque seria “multi-talentoso”, já que toco violão, desenho e escrevo. Falando sério, isso é coisa de irmã mesmo.

Se formos analisar a realidade chegamos à seguinte situação: quando jovem, eu gostava de desenhar e até sonhava em me tornar um cartunista. O problema é que o “produto” obtido apenas demonstrava que eu não passo de um autista gráfico.

Se o assunto é música, a coisa fica ainda mais feia, pois sou apenas um espancador de violão. Mas eu queria ser guitarrista de banda de rock, um Eric Clapton, um Slash ou até um George Harrison. Entretanto, o máximo que eu consegui ser foi um George Ha Ha riso...

O que sobra então é o fato de que gosto de escrever. Como minha autocrítica é zero, aprecio o que faço (até criei este blog!). E embora eu sonhasse escrever com a elegância e o lirismo do Rubem Braga, a análise literária dos textos demonstra outra coisa: eu abuso tanto do uso de vírgulas que, se fossem droga, eu já teria sido internado em clínica de reabilitação.

Eu também não sei usar travessão direito; nem dois pontos. O tempo todo eu sou atropelado pelos sinais gráficos e o pior é que nunca consigo anotar a placa. Ponto e vírgula, então, dá até vergonha; eu realmente não sei como se usa essa merda! Quem lê o que escrevo só fica mesmo aliviado quando vê o ponto final.

Tem mais: eu mencionei “análise literária”, mas a qualidade e originalidade do que escrevo estão mais para ser examinadas em laboratórios de análises clínicas tipo Hermes Pardini – e levadas em potinhos!

Então, voltando ao julgamento equivocado de minha irmã, o que posso dizer é que desenho mal, toco violão mal e escrevo mal. Ou seja, o que eu sou realmente é um cara do Mal.

TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS - ÁLVARO DE CAMPOS

  Tenho publicado alguns (ou vários) poemas, onde celebro o amor que estou sentindo por uma menina que me revirou pelo avesso e explodiu min...