terça-feira, 5 de agosto de 2014

HISTÓRIAS DO DIGÃO - PARTE IX

FALANDO ALEMÃO

Quando saiu a licitação para a construção da usina nuclear Angra III, a empresa onde trabalhávamos mobilizou todos os recursos possíveis para ganhar essa obra (mas foi desclassificada). Como era uma tecnologia totalmente nova, alemã, diferente da americana utilizada na usina Angra I, uma das exigências do edital era a parceria com empresa que já tivesse construído usina semelhante. Essa empresa atuaria como consultora, antes e durante a execução da obra.

Feitos os contatos, chegaram a Belo Horizonte dois engenheiros alemães, sendo que apenas um falava espanhol. Foram logo apelidados por outro colega, crítico e irônico ao extremo, de “Grafite” e “Canetão”. Grafite, segundo a ótica desse colega, era aquele que iria arregaçar as mangas e trabalhar, pois usava apenas lapiseira – e borracha, naturalmente. O outro, justamente aquele que sabia espanhol, usava apenas caneta, útil apenas para assinar cheques, na visão desse colega.

Estávamos concentrados em nossas tarefas quando chega o Canetão:

– Óia ‘este’ planta! Está faltando um corte que está indicado ‘neste outro’ planta!

Os desenhos originais estavam escritos em alemão, com a indicação de vários cortes (schnitt). E o alemão começou a contá-los na nossa frente, para conferir:

 eins, zwei, drei, vier... E o Digão emenda: – fünf, sechs, sieben, acht…

O alemão, que aparentava idade próxima à de meu amigo, um senhor, portanto, surpreende-se.

 O senhorrr fala alemáo? – pergunta encantado.

 Não, só sei contar até dez – responde o Anta. Começamos a rir depois que o Canetão saiu.

 Animal, você forneceu pro alemão a prova definitiva que o Brasil não é um país sério, sua Anta!!!  


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

HISTÓRIAS DO DIGÃO - PARTE VIII

VIDA CRISTÃ

Quem toma conhecimento dos casos já contados pode imaginar que meu amigo era um debochado, uma pessoa vazia e irresponsável, o que é um ledo engano. O Digão era um cavalheiro, profissional correto e interessado, marido dedicado, pai severo e, às vezes, impaciente, sério e respeitoso ao tratar com qualquer mulher e um católico fervoroso.

Um de seus nove filhos, não sei se do primeiro ou do segundo casamento, nasceu com anencefalia. Segundo ele, não havia a mais remota chance da criança sobreviver sem o auxílio de um respirador artificial. Diante disso, ele perguntou ao médico quais eram os procedimentos médicos obrigatórios. O médico respondeu que tudo o que a ética médica mandava fazer já havia sido feito.

Ele então pediu que não fosse feito mais nada. Com a criança nos braços, batizou-o ele mesmo, abençoou-o e ficou ali carinhosamente abraçado com o menino, até que ele morresse.


A morte da primeira mulher, causada por uma transfusão errada, se não me engano, provocou nele uma recusa total de Deus. Dizia coisas como se Deus existe eu quero que um raio caia sobre minha cabeça”. Mas, perto de sua casa, na Serra, havia um convento de dominicanos, religiosos extremamente cultos, “guardiões da fé”, segundo ele. Passou a frequentar a biblioteca do convento, a conversar com os irmãos e a alimentar-se do conforto espiritual ali encontrado. Resultado: tornou-se definitivamente um católico praticante, tão convicto de sua fé, tão religioso que foi admitido como irmão leigo. Na ordem, ele tinha a seguinte identificação: Frei Vicente de Ferrer, irmão leigo da Ordem Terceira dos Dominicanos.


Muitas e muitas vezes fui à sua sala, onde conversávamos sobre Religião, sobre religiões, Deus e fé, onde expunha minhas dúvidas e ele me acalmava com sua fé serena e profunda. Por conta dessas conversas, emprestou-me um livro interessantíssimo sobre o Santo Sudário, escrito por um médico legista francês, cujo título é A Paixão de Cristo segundo o Cirurgião.

Numa dessas conversas, comentei com ele que tinha lido uma frase estranha do Einstein, que era alguma coisa assim: “acredito no Deus de Spinoza” e perguntei o que poderia significar. Ele me disse que Spinoza era um filósofo judeu, mas que não sabia o que isso significava. Esqueci o assunto, até o dia em que entregou umas dez folhas sobre o Spinoza, só que manuscritas por ele! Ele deve ter gasto um tempo filhadamãe copiando os textos sei lá de onde, só para atender a um amigo, só para acalmar a minha fé vagabunda e oscilante (ao contrário da sua, que era sólida e tranquila). Figuraça!  


domingo, 3 de agosto de 2014

HISTÓRIAS DO DIGÃO - PARTE VII

ESCATOLOGIA

O Digão era um sujeito curioso, pois sendo um pai severíssimo, ao tratar com os colegas, transmutava-se, tornava-se tão igual aos demais, que ninguém ligava para a diferença de idade existente entre ele e nós outros. Assim, às vezes os assuntos descambavam para a mais pura escatologia, como se dois ou mais pré-adolescentes estivessem conversando.

Um dia comentou conosco que tinha sido operado de hemorroidas, contou alguns detalhes da operação e disse que um procedimento pós-operatório era o “alargamento do ânus”, para que a cicatrização fosse realizada adequadamente, evitando com isso o estreitamento do reto. Mas no caso dele, esclareceu, não foi feito esse “tratamento de choque”:

 O dedo do médico era da grossura do meu punho, pô!!




Depois de ser designado chefe do setor de projetos, mudou-se para o outro extremo do prédio, no mesmo andar, onde ficavam os desenhistas e projetistas, mas ia todo dia conversar fiado na antiga sala. Normalmente, chamava a atenção com a expressão Aqui, vocês já viram...” Na falta momentânea de assunto, saiu um dia esse diálogo:

 Aqui, você já cagou hoje?

 Já.

 Muito ou pouco?

 Normal.

- Qual a cor?

 Marrom...

 Mole ou duro?

 Normal!!!

 Fino ou grosso?

 Vá à puta que pariu!



O caso a seguir é um dos que classifico como fantasioso e de gosto mais que duvidoso, diga-se. Entretanto, o que mais impressiona nele é o fato de ter sido contado sem nenhuma preocupação de parecer ridículo, para um grupo de colegas que riram até a barriga doer, por um senhor de cabelos brancos, educadíssimo, muito culto, um cavalheiro, enfim. Em outras palavras, ele sempre fez questão de se comportar como qualquer um de nós, nunca quis ser tratado com a deferência e respeito a que tinha direito e merecia. E era essa simplicidade e sabedoria que faziam dele o grande sujeito que realmente era e de quem todos gostavam. Mas vamos à história, tão “suja” quanto sanitário de posto de gasolina:

Um dia, quando ainda trabalhava em outra empresa, foi encarregado de levar ao Rio de Janeiro uma proposta para uma licitação de obra. Como iria voltar no mesmo dia, só levou uma pasta com os documentos necessários. Enquanto aguardava o seu voo, ficou no restaurante do aeroporto com um colega, tomando chope – vários, segundo ele – e beliscando tira-gostos. Chegou ao Rio, almoçou e foi direto para o órgão público para a abertura das propostas concorrentes, mas começou a sentir um pouco de cólica. Aguentou firme até o final do processo licitatório (demorado, na maioria das vezes).

Pegou um táxi, mas percebeu que não seria boa ideia ir direto para o aeroporto, distante do local onde estava. Pediu para o motorista seguir para o hotel onde costumava ficar quando ia à cidade.

Chegou à recepção já muito apertado e pediu a chave de um quarto, pois precisava ir ao banheiro urgentemente. Perto dele, um grupo de estudantes preenchia suas fichas, ficando com “risinhos irônicos” ao perceber a afobação do meu amigo.

Recebeu a chave de um quarto em andar mais elevado. O recepcionista disse que alguém iria acompanhá-lo até lá, mas ele dispensou, com o intestino já na mais aberta rebelião. Ao sair do elevador, o quarto ficava no final de um longo corredor:

 Parecia que tinha um quilômetro!

A chave salvadora destrancou a porta e a mão acionou a maçaneta, mas a porta não abriu – a fechadura tinha duas voltas.

Quando a porta não se abriu na primeira volta da chave, todos os controles entraram em colapso e ele se liquefez ali mesmo, na porta do quarto, com a merda descendo pela perna até o sapato e manchando o carpete do corredor. Correu ao banheiro, pegou uma toalha, encharcou-a no lavatório e limpou o carpete, que ficou com uma mancha úmida “suspeitíssima”. Agora, era hora da higiene: tomou um longo banho, lavou a toalha, as calças, a cueca e os sapatos.

Depois que acabou, constatou que não poderia sair do quarto, por não ter trazido nenhuma muda de roupa. Chamou a camareira e perguntou pela lavanderia do hotel e soube que já estava fechada. Sem outra solução, perguntou quanto a funcionária ganhava por semana e ofereceu a ela a mesma quantia, para que fosse à sua casa secar a calça “que havia caído na água, ao tomar banho”.

Duas ou três horas depois, volta a camareira com a calça seca e comenta, se desculpando:

 Não ficou muito bom não, porque a calça estava meio suja na bainha. O senhor deve ter pisado em algum barro...


sábado, 2 de agosto de 2014

HISTÓRIAS DO DIGÃO - PARTE VI


O VOO CEGO

Quando foi trabalhar no sul do país, na construção de uma outra ponte, mudou-se para lá com toda a família. Ali ficou sabendo que uma senhora estava vendendo o monomotor do marido, já falecido. Graças à sua paixão por aviões, resolveu comprá-lo, em sociedade com outro funcionário da obra.

Já sabia pilotar aviões – apesar do olho cego – desde a obra onde aconteceu o caso da vaca (–  “Aprendi a voar antes de aprender a decolar”).

Para utilizar o avião, mandou fazer uma pista de terra próxima à casa onde morava. A cabeceira da pista ficava logo após uma linha de alta tensão, o que o obrigava a uma aterrissagem rápida após a passagem sobre os fios. E o mecânico do avião era o mesmo que dava manutenção no trator de esteiras...

– Altamente especializado – disse rindo.

Segundo sua explicação, o centro de gravidade desse modelo, quando o piloto está voando sozinho, fica no segundo banco, que contém os mesmos comandos da frente do avião. Caso contrário, o peso do motor mais o peso do piloto inclinam o avião para a frente, sei lá com que consequências. Com duas pessoas, o problema deixa de existir, pela melhor distribuição de peso.

No caso dele, por ser cego de um olho, pilotar sozinho, sentado no banco de trás, era impossível. Para resolver o problema, utilizava um saco de cimento colocado no banco de trás, ou levava junto o Diguinho. Ao passar em voos rasantes sobre a casa, o Xulipa (que era como chamava o filho) acenava freneticamente, com o corpo meio para fora da janela:

– Hei, mãe!!!

Por duvidar dessa loucura, perguntei ao Diguinho se a história era verdadeira e ele confirmou, rindo.

Um domingo pela manhã, com “céu de brigadeiro”, para testar os limites do avião, resolveu subir até onde a potência do motor conseguisse superar o ar cada vez mais rarefeito.. E foi subindo em espiral, até onde o avião aguentou.
Ao verificar a altitude – no olho, pois o avião não tinha altímetro funcionando – resolveu descer, também em espiral – “fazendo belíssimas voltas” enquanto apreciava a paisagem.

Olhando para sua casa, notou que havia se formado um pequeno ajuntamento de gente na porta. Em seguida, viu o carro de sua mulher sair em disparada, na direção da pista de pouso. Sem entender nada, continuou descendo, sempre na espiral.

Ao chegar à altitude adequada, endireitando o avião para o pouso, em linha reta com a pista, a cabine foi invadida por uma fumaça preta. Foi a conta de desviar da linha de alta tensão, mergulhar o avião e descer correndo, tão logo o calhambeque aéreo parou. Mas nada explodiu ou se incendiou. A fumaça foi diminuindo e acabou.

Explicação: o parafuso de drenagem do óleo do motor estava meio bambo, fazendo com que o óleo, pela ação do movimento de descida, deslocamento de ar e tal, fosse “cair” sobre a superfície quente do motor, queimando-se e provocando a fumaceira preta, que saía pela tangente e para cima e ia ficando sempre fora de sua visão, principalmente por sair do lado do olho cego, até ele alinhar o avião com a pista.

– Foi o fim da picada! – disse rindo – Depois disso, Dona Maria me fez vender o avião...

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

HISTÓRIAS DO DIGÃO - PARTE V

A PAIXÃO POR LIVROS

O Digão tinha uma paixão desmedida por livros. Para ele, um livro era muito mais que um objeto de leitura. Era sempre o presente escolhido para dar a alguém, era sempre o presente desejado no aniversário ou Natal. Os livros novos eram manuseados, cheirados, examinada a textura e a gramatura das folhas. Eram, enfim, tratados quase como uma joia. 

Quando perguntado sobre a quantidade, sempre dizia que tinha uns cinco mil volumes. Esse número permaneceu estável ao longo do tempo, não só por não tê-los mais contado, como, segundo ele, pela frequente subtração de romances cometida pelas filhas do primeiro casamento, fato compensado pela aquisição permanente de novos livros. Além dos livros, encadernava também as revistas que comprava – National Geographic, Scientific American, Veja (desde o primeiro número, se não me engano). O mesmo fazia com jornais especiais que já haviam saído de circulação, caso do jornal Opinião e até de um jornal do século XIX.

Aos sábados ia à Livraria Van Damme, onde era amigo do proprietário. Durante a semana, diariamente ou quase isso, ia à Livraria Ouvidor que ficava a um quarteirão de distância da empresa onde trabalhávamos. Ali folheava livros e revistas importadas, encomendava e comprava compulsivamente, a ponto de ter conseguido com o gerente a comodidade de pagar após o recebimento do salário. Comprava “na caderneta”, como ainda se faz em alguns armazéns de bairro. Como comprava muito e sobre qualquer assunto, útil ou inútil, às vezes comprava o mesmo livro duas vezes. Se pudesse devolver ou trocar por outro, ótimo. Se não, presenteava os amigos com os duplicados. Ganhei uns dois livros dele dessa forma.

Um dia chegou entusiasmado com um prospecto sobre a nova edição da Enciclopédia Britânica. Falou maravilhas e disse que estava pensando em comprar. Como eu sabia que já possuía outras enciclopédias, perguntei-lhe o que iria fazer com uma enciclopédia nova, se já não tinha mais filhos em idade escolar e, principalmente, se já possuía uma edição anterior.

– Vocês são uns ignorantes – irritou-se ele. – vocês acham que enciclopédia é só para fazer trabalho escolar de menino? Além do mais, ela foi totalmente reprogramada e ampliada, é outra enciclopédia!

– Porque você então não se desfaz da edição antiga? – perguntei a ele.

Algum tempo depois, chega ele todo sorridente:

– Comprei a Britânica. É uma beleza!

– E a outra, vendeu?

– Não, resolvi ficar com as duas, pois são muito diferentes...

– Animal!!!!


Noutro dia, chegou ao serviço com um livro grande, novinho, pedindo-nos para escrever uma dedicatória para ele mesmo. Perguntei o que pretendia com isso:

– Esse livro custou caro pra burro e, se eu chegar com ele lá em casa, a Dona Maria vai reclamar que estou gastando muito.

A dedicatória saiu mais ou menos assim: “Ao prezado Rodrigo, com a amizade de...” e vinham os nomes assinados de uns três colegas.

Quando mostrou para a esposa o “presente” que havia ganhado, ouviu o comentário irônico:

– É, seus colegas devem gostar muito mesmo de você, estão sempre te dando livros de presente sem nenhum motivo!


De outra vez, chegou com um livro comprado em um sebo, que era na verdade um catálogo de equipamentos e artefatos hospitalares. Disse que iria dar de presente para um dos irmãos, que estava fazendo aniversário. O catálogo era bacana mesmo, em inglês, publicado por volta de 1910, capa dura, os desenhos feitos a bico de pena, folhas em papel couchê brilhante, uma beleza. Ficamos olhando os desenhos e as ferramentas bizarras ali oferecidas: fórceps, carrinhos para transportar cadáveres, ferramentas para amputação e coisas do gênero. Alguns dias depois perguntei se o irmão havia gostado do presente:

– Eu não dei o livro, fiquei com ele para mim e comprei outro para ele.


Antes de aposentar-se, morava em uma casa no bairro Serra. Essa casa tinha um cômodo totalmente ocupado por livros e estantes, igual a uma biblioteca. Havia também livros espalhados por outros aposentos, tal a quantidade. Um dia comentou que havia mandado instalar umas prateleiras, presas com corrente, sobre a cabeceira da cama dos dois filhos homens que moravam com ele. Começamos a caçoar, dizendo que ele tinha feito uma armadilha para se livrar dos filhos “delinquentes”. Quando uma das duas filhas do segundo casamento resolveu morar com a avó, o Digão não perdeu tempo: imediatamente instalou estantes no quarto desocupado.


Além dos livros comprados em duplicata por engano, ganhei dele outros livros, sempre com dedicatória. Um catecismo católico atualizado, um livro sobre música clássica e um sobre a presença de cristãos-novos no Brasil.

Segundo ele, por volta de 1500 e poucos, os judeus de Portugal foram obrigados a converter-se ao cristianismo, na marra. Após a “conversão”, foram batizados e tiveram os sobrenomes mudados para nomes de animais e plantas, criaturas de Deus. Surgiram aí os Pereira, Figueira, Pinto, Coelho, Laranjeira, etc. A designação “cristão-novo” foi utilizada para diferenciar dos cristãos originais, cristãos-velhos, portanto. Muitos desses judeus “convertidos” vieram para o Brasil, fugindo da Inquisição, etc. Tempos depois dessa aula dada por ele, ganhei o tal livro, com a seguinte dedicatória: “Ao amigo ..., um cristão-novo da melhor categoria”


Tendo ficado em São Paulo por quase um mês, voltou com uns dez ou mais livros, sobre os mais diversos assuntos, cada um mais inútil que o outro. Entre os títulos havia coisas como: “Perfil Geológico da Serra do Mar no trecho tal”, “Conheça o interior de sua calculadora científica”; “A economia do Rio de Janeiro no Século XVIII”, as coisas mais estapafúrdias ou inúteis.

– Para que serve essa merda? – perguntei. A resposta foi a habitual:

– Você é um ignorante! Olha só que troço joia esse livro sobre circuitos de televisão!

– É, só se for usado para calçar uma mesa ou cadeira manca!


E ele se ria, divertido.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

HISTÓRIAS DO DIGÃO - PARTE IV


A PONTE

Além da experiência rodoviária, o Digão trabalhou também na construção de pontes, inclusive fazendo parte da equipe que iniciou as obras da Ponte Rio - Niterói. O caso a seguir relaciona-se com outra ponte, de menor porte.

As fundações de alguns dos pilares da tal ponte ficavam localizadas dentro do rio. Para a execução dessas fundações foram feitos aterros provisórios, que avançavam para dentro da água, permitindo assim o acesso de máquinas e a construção das bases e estacas em terreno mais seco. Com isso, o rio ficava mais estrangulado e a água, consequentemente, passava com maior velocidade no local. Foi também construída uma ponte metálica de serviço, provisória, para facilitar o acesso de uma à outra margem.

Devido à distância da obra em relação às cidades mais próximas, os engenheiros e todo o resto continuavam acampados nos finais de semana, sem ter muita coisa a fazer, a não ser encher a cara.

O Digão foi um ótimo nadador em sua juventude, tendo como rival nas piscinas o Fernando Sabino. Um dia, já de cara cheia, apostou uma caixa de cerveja que saltaria da ponte provisória. Naquele salta não salta, pegaram o carro e dirigiram-se ao local da ponte, ele e vários outros, entre apostadores e curiosos.

– Quando fomos chegando perto, o fogo já foi melhorando.

Desistir naquela hora seria a suprema humilhação, apesar de todo o risco de vida embutido na ideia maluca de pular da ponte.

– Quando eu olhei aquela água passando lá em baixo, eu pulei o guarda-corpo, agarrei-me  à viga da ponte e fiquei pendurado ali, até não mais aguentar, quando soltei as mãos.

Só conseguiu sair da água uns três quilômetros rio abaixo.

– A partir daí, foi um sucesso, cansei de ganhar apostas com os visitantes da obra. Para grande alegria dos meus colegas de serviço, lógico.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

HISTÓRIAS DO DIGÃO - PARTE III


A VACA VOADORA

Essa história é muito, muito inverossímil, embora ele jurasse que aconteceu mesmo. Mas é uma das melhores contadas por aquele velho maluco.

O Digão trabalhou em obras durante muitos anos, a maior parte do tempo fora das capitais. Uma dessas obras foi a construção de um trecho de estrada no norte do Brasil, bem no meio da selva, ligando, se não me engano, Porto Velho a Rio Branco.

Segundo ele, o acesso inicial ao local era feito de barco. Os equipamentos pesados, provavelmente transportados por balsa, abriram uma clareira na floresta, que logo deu lugar a uma pista de pouso. A empresa tinha um avião DC-3 ou Constelation, adaptado para o transporte de carga. Assim, a porta se abria para dentro do avião, sabe lá Deus por qual motivo. O piloto, meio aloprado, havia sido demitido de uma das companhias da época (Panair, Real ou outra qualquer).

A obra transcorria dentro da normalidade, exceto por um detalhe: a carne servida aos operários era necessariamente salgada, charque. Depois de um tempo, começaram as reclamações, pois ninguém mais aguentava comer todo dia essa carne.

A primeira solução encontrada foi contratar um caçador que, apesar de estarem na selva, só conseguia trazer macacos, cobras, coisas assim. Segundo o Digão, um macaco limpo (sem os pelos, sei lá), lembra muito uma criança recém nascida. Já viu que devia ser uma maravilha de se preparar ou comer, não é?

O fato é que o abastecimento de carne era um problema real. Surgiu então a ideia de comprar algumas cabeças de gado, deixadas em Rio Branco ou Porto Velho. Na medida da necessidade, os bois eram abatidos e a carne levada para a obra no DC-3. Entretanto, devido a algum problema, às vezes o voo atrasava. Assim, quando a carne chegava ao local da obra era jogada fora, pois já estava esverdeada e cheirando mal, provavelmente devido ao calor e falta de refrigeração.

Aí, surgiu a solução definitiva: levar o boi vivo para a obra. Para isso, o boi era colocado em um cercado improvisado, feito com uma espécie de rede usada para prender a carga dentro do avião. Chegando à obra, o boi era abatido, esquartejado, desossado e tudo o mais que é necessário para um cristão poder comer carne fresca.

Pela paixão que tinha por aviões, quase todas as vezes que havia voo para buscar alguma coisa, o Digão ia junto. Segundo ele, foi assim, nessas viagens e graças ao piloto aloprado, que aprendeu a pilotar o DC-3, sem, no entanto, decolar ou aterrissar.

Em uma dessas aconteceu o caso da vaca. A viagem transcorria normalmente, com a vaca presa na rede, até que apareceu um “CB”, um cumulus nimbus, que é uma nuvem com intensa turbulência interna segundo meu amigo.

O piloto ainda tentou contornar a nuvem, mas o avião começou a balançar muito. Com isso, a vaca começou a ficar agitada e tentando se desvencilhar da rede que a prendia. O piloto começou a dar ordens:

– Acalma essa vaca!

E o avião chacoalhando e a vaca cada vez mais agitada. E o piloto ainda mais agitado:

– Acalma essa vaca aí, pô!!

Os poucos passageiros tentavam acalmar o animal, mas a situação estava realmente preta, com grande risco para todos. Decidiram que a vaca deveria ser jogada para fora do avião.

O fato é que utilizaram a tal rede para fazer um corredor até a porta do avião (que abria para dentro, como já dito antes). Uns puxavam, outros empurravam e a vaca foi chegando perto da porta. E o piloto, já possesso:

– Joga essa vaca pra fora!!!

E eles lá, tentando:

– Vai, neguinha, vai!!!

Mas a vaca empacou perto da porta, provavelmente assustada com o barulho do vento e do avião. Tentaram empurrar, mas nada. E o piloto, já histérico:

– JOGA ESSA VACA PRA FOORA!!!!!!!

Aí, alguém teve a ideia salvadora: tirou um punhal ou peixeira e espetou na bunda da vaca que, mugindo de dor, saltou, melhor dizendo, voou pela porta afora. Nesse ponto, enquanto literalmente chorávamos de rir com a história, o Digão emendou, a título de gozação:

– Não sei se é verdade, mas dizem que até hoje tem lá uma tribo que adora uma vaca que caiu do céu.

DE ONDE EU VIM?

  Desde quando fiquei sabendo que o exame de DNA poderia trazer informações sobre a minha ancestralidade, eu tive vontade de fazer. Mas o di...