O
Millôr era muito foda!
Bem, fiquei calado mais ou menos duzentos
anos, na esperança de que algum latinista, algum erudito, aparecesse para
corrigir Inácio de Alvarenga. Como todo mundo sabe, está na História, está nos
“Autos” da Inconfidência, reuniram se, em casa de Tomás Gonzaga, além do
próprio, o dr. Cláudio Manuel da Costa, Inácio de Alvarenga e o padre Corrêa de
Toledo (1).
Nessa reunião, o grupo discutiu a já muito
discutida questão da Bandeira da Nova República. Cláudio Manuel da Costa, que
já tinha feito uma proposta de bandeira, insistiu nela: a figura de um gênio
quebrando seus grilhões com a inscrição: “Libertas
Aequo Spiritus” (2). Alvarenga lembrou então que essa proposta já tinha
sido feita numa reunião em casa de Francisco de Paula, mas que nem mudando a
legenda para Aut Libertas Aut Nihil o
pessoal tinha topado. Naquela mesma reunião o alferes Tiradentes tinha feito
outra proposta: uma bandeira com um triângulo representando a Santíssima
Trindade. Ele próprio, Alvarenga, sugerira que se juntasse ao triângulo o verso
de Virgílio: Libertas Quae Sera Tamen
e a proposta tinha sido aprovada. Nesta reunião aconteceu o mesmo — todos
acharam a ideia muito bonita. E a bandeira da insurreição ficou sendo,
definitivamente, essa.
Pois desculpem, amigos, a ideia não é boa e o
latim é péssimo. Eu, que sempre achei a frase Liberdade Ainda que Tardia uma proposta completamente furada (3),
resolvi, um dia, com minha total descrença na História e nos Historiadores, ir
diretamente à fonte da frase: Virgílio. E, como não podia deixar de acontecer,
a frase estava errada. Inácio de Alvarenga citou de memória, ninguém foi à
fonte (nem na hora, nem até hoje, duzentos anos depois) e o erro se perpetuou.
A frase de Virgílio é Libertas: quae sera. Essa frase, sim, dá em português Liberdade,
ainda que tardia. Como está na Bandeira (Libertas
quae sera tamen) é um saudável bestialógico: Liberdade ainda que tardia todavia.
Bem, mas como não sou latinista (4), é melhor
reproduzir o próprio original (5) pro pessoal aí não começar com discussões
inúteis (6). Como sabem os que já leram as “Éclogas” (7) de Publius Vergilius
Maro, mais conhecido como Virgílio, logo no início da primeira écloga, dois
personagens se encontram, Melibaeus e Tityrus, este indo a Roma comprar sua
liberdade. O diálogo:
Melibaeus — Et quae fuit tibi tanta causa
vivendi Romam? (E qual foi, para ti, a causa tão premente de vir a Roma?)
Tityrus — Libertas: quae sera, tamen respexit
inertem; postquam candidior barbacadebat tondenti; etc. (Liberdade: embora
tardia, todavia (tamen) ainda me alcança em minha inatividade, quando a barba
já me cai embranquecida.)
Como veem os leitores, o tamen nada tem com a
primeira parte da frase, escolhida por Alvarenga. O que me permite repetir,
mais uma vez: “A História é uma istória!” (8)
Notas:
1) Este repórter também estava presente mas,
devido à sua extraordinária discrição, a História não reparou nele.
2) “Deus do céu, que horror!” murmurou este
repórter, do seu carro.
3) Qualquer grupo revolucionário quando
propõe liberdade é pra já, pô, e não ainda
que tardia. Você pode aceitar uma liberdade ainda que tardia, como o personagem de Virgílio, mas jamais
propô-la como bandeira de luta. Liberdade
ainda que tardia já será, assim, uma antecipação de Minas está onde sempre esteve?
4) Aliás, não sou nada.
5) Cito da excelente Interlinear Translation, de Hart & Osborn, David McKay Company,
Inc. Nova York.
6) Existem outras?
7) Ao todo 37 pessoas, no Brasil inteiro,
sendo que 19 em São Luís do Maranhão.
8) Relutei muito tempo em aceitar a palavra estória como conto, diferenciada de História, narrativa de fatos importantes
da vida da humanidade. Essa palavra foi criada pelo Diário Carioca, no tempo em
que este era dirigido pelo jornalista Pompeu de Sousa, agora em Brasília. Acho,
aliás não tenho certeza, que foi o próprio Pompeu de Sousa quem inventou a
palavra. Todavia não vejo por que, se a palavra é totalmente inventada, não se
escreve istória, como se pronuncia.
Se, porém, a palavra pretende, ainda,
alguma etimologia, esta vem, naturalmente, de História, e, portanto, também
nesse caso, dá istória.
Veja, 17 de
janeiro de 1979