sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

MEU MOMENTO ERA ANTES

 
Estou preso no passado
Logo eu que criticava todos
Que diziam frases tolas como
No meu tempo é que era bom
 
E eu sempre pensava que meu tempo é hoje
Será sempre hoje
Não importando se o passado foi bom ou ruim

Mas as certezas absolutas talvez existam
Para que as percamos, para que as modifiquemos.
 
Hoje, uma casa vazia, uma cama vazia e uma vida vazia
Me dizem que meu lugar era lá
Que meu momento era antes
Que meu desejo era ontem

E os elos dessa corrente
São difíceis de quebrar.
 
Hoje eu me sinto como alguém
Que desceu em Marte e descobre
Que não tem como voltar
Que nunca mais
Abraçará a quem amou e ama tanto
 
Que naquele planeta estéril só terá lembranças
Enquanto aguarda que o fim
Não demore a chegar.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

AMOR π

 
As pessoas que acessam este blog têm um traço em comum: são inteligentésimas. Para aqueles que duvidam disso eu diria que usei um pouco de liberdade poética para essa afirmação.
 
Sei lá, tenho a mania de criar expressões e frases de efeito para esconder a minha própria falta de inteligência. Nesse caso, talvez fosse melhor dizer que eu crio frases de defeito, mas às vezes acerto, dou uma dentro (por favor, não me peça para explicar). E a mais recente expressão que criei ficou bacaninha, bem sacada (será que as leitoras e leitores de Portugal entendem o que eu digo/escrevo?).
 
Sempre digo que o amor que sinto por meus filhos é do tamanho do Universo, infinito. Digo isso para todo mundo, inclusive para eles. Aí, outro dia (sinônimo de data incerta e ignorada), lembrei-me dos tempos em que lustrava os bancos escolares com a bunda (trajando calça de uniforme, obviamente) e o número irracional PI (π) surgiu na minha mente quase tão irracional quanto. Como certamente TODES se lembram, esse número é resultante da divisão do comprimento ou perímetro de uma circunferência pelo diâmetro dessa mesma circunferência (cara, eu amo a Matemática!).
 
Por exemplo, se eu conseguisse saber o diâmetro do meu abdômen depois de medir a circunferência da minha pança, certamente obteria um número parecido com o valor do PI, bem melhor que o número que vejo no visor da balança digital onde às vezes me aventuro a subir.
 
Mas estou fugindo do assunto. Por ser irracional, o número PI (π) não tem limite, é infinito. E é aqui que eu queria chegar: o amor que a maioria dos pais e mães sente por seus pimpolhos pode ser definido pela expressão “amor π”, pois é um amor infinito. Apesar das palhaçadas jotabélicas, acho que mandei bem.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

CITANDO OSCAR WILDE

 

Algumas pessoas estranham o fato de publicar quase diariamente. Tem razão quem pensa assim. A explicação é o fato de ser aposentado e estar constantemente em busca de assuntos para transformar em posts. Como neste caso. Depois de ler uma frase do Oscar Wilde, resolvi procurar mais, para publicar no blog. Encontrei tantas que precisei filtrar para chegar a duas páginas apenas. Embora sempre mencionando o "Retrato de Dorian Gray", nunca li nada dele, só conhecia a fama (na cama). Agora já posso dizer ter lido um pouco do que escreveu. Olhaí.

Crer é muito monótono, a dúvida é apaixonante.

É pena que só tiremos lições da vida quando elas já não nos são úteis.

Nem todo crime é vulgar, mas toda vulgaridade é um crime.

Os prazeres são as únicas coisas que valem a pena ser vividas. Nada envelhece tão depressa como a felicidade.

O homem pode suportar as desgraças, elas são acidentais e vêm de fora; o que realmente dói, na vida, é sofrer pelas próprias culpas.

Qualquer indivíduo pode ser sensato, desde que não tenha imaginação.

Nenhum homem é suficientemente rico para comprar o seu passado.

O erro é criar hábitos.

Não tenho nada a declarar a não ser a minha genialidade.

A única diferença entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho dura um pouco mais...

Experiência é o nome que damos aos nossos erros.

O caminho dos paradoxos é o caminho da verdade.

Nenhum grande artista vê as coisas como realmente são. Caso contrário, deixaria de ser um artista.

O homem é um animal racional que perde sempre a cabeça quando é chamado a agir pelos ditames da razão.

Neste mundo, há apenas duas tragédias: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, e a outra a de os satisfazermos.

Todo mundo é capaz de sentir os sofrimentos de um amigo. Ver com agrado os seus êxitos exige uma natureza muito delicada.

Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que estou errado.

A moda é uma variação tão intolerável do horror que tem de ser mudada de seis em seis meses.

Posso resistir a tudo, menos à tentação.

Não existem livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos.

Se existe no mundo coisa mais aborrecida do que ser alguém de quem se fala é certamente ser alguém de quem não se fala.

Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.

Nunca viajo sem o meu diário. É preciso ter sempre algo extraordinário para ler no comboio.

Deus, ao criar o homem, superestimou a Sua capacidade.

Há uma espécie de conforto na auto-condenação. Quando nos condenamos, pensamos que ninguém mais tem o direito de o fazer.

A única maneira de nos livrarmos da tentação é ceder a ela.

Posso partilhar tudo, menos o sofrimento.

O mundo pode ser um palco. Mas o elenco é um horror.

Se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio neste mundo.

As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros.

É absurdo dividir as pessoas em boas e más. As pessoas ou são encantadoras ou são aborrecidas.

Como se pôde dizer que o homem é um animal racional! Ele é tudo o que se queira salvo racional.

Dar bons conselhos – as pessoas gostam de dar o que mais necessitam. Considero isto a mais profunda generosidade.

A diferença entre a literatura e o jornalismo é que o jornalismo é ilegível e a literatura não é lida.

Os solteiros ricos deviam pagar o dobro de impostos. Não é justo que alguns homens sejam mais felizes do que os outros.

O cinismo consiste em ver as coisas como realmente são, e não como deveriam ser.

Definir é limitar.

Preferia perder meu melhor amigo ao pior inimigo. Para ter amigos, só é preciso boa índole; mas quando um homem não tem mais inimigos, certamente há algo de desprezível nele.

A alma nasce velha e se torna jovem. Eis a comédia da vida. O corpo nasce jovem e se torna velho. Eis a tragédia da alma.

Sou a única pessoa no mundo que eu realmente queria conhecer bem.

As pessoas mais interessantes são os homens que têm futuro e as mulheres que têm passado.

Nunca confie na mulher que diz a verdadeira idade, pois se ela diz isso... Ela é capaz de dizer qualquer coisa.

A Moral não me ajuda. Sou antagônico nato. Sou uma daquelas pessoas que são feitas para exceções, não para regras.

Adoro os escândalos dos outros. Os que me dizem respeito não me interessam. Não tem o atrativo da novidade.

Os deuses quando querem nos castigar atendem as nossas preces.

Perdoa sempre o teu inimigo, não há nada que lhe ofenda mais.

Adoro interpretar. É tão mais real que a vida.

Meus gostos são simples: prefiro o melhor de tudo.

Agouros, sinais, são coisas que não existem. O destino não costuma enviar arautos. É muito sabido, ou muito cruel para fazer isso.

Frequentemente tenho longas conversas comigo mesmo, e sou tão inteligente que algumas vezes não entendo uma palavra do que estou dizendo.

Só existe uma coisa pior do que falarem da gente. É não falarem.

Chamamos de ética o conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão olhando. O conjunto de coisas que as pessoas fazem quando ninguém está olhando chamamos de caráter.

A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre.

A vida é muito importante para ser levada a sério.

O descontentamento é o primeiro passo na evolução de um homem ou de uma nação.

O Estado deve fazer o que é útil. O indivíduo deve fazer o que é belo.

O pessimista é uma pessoa que, podendo escolher entre dois males, prefere ambos.

Pouca sinceridade é uma coisa perigosa, e muita sinceridade é absolutamente fatal.

Quando eu era jovem, pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho certeza.

Ser grande significa ser incompreendido.

Perversidade é um mito inventado por gente boa para explicar o que os outros têm de curiosamente atrativo.

A arte, felizmente, ainda não soube encobrir a verdade.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

GRACINHA!

 
Sou um entusiasta da Inteligência Artificial, mas tenho medo daqueles que podem manipulá-la de forma mal-intencionada. Tenho visto no YouTube e no Facebook vídeos de pessoas e até de animais produzidos com um nível de realismo tão impressionante, tão convincente, que a reação imediata é acreditar que são reais.
 
Alguns ainda são fáceis de identificar como falsos – por exemplo, quando mostram em um mesmo banco ou sofá uma pessoa famosa em idades muito diferentes, as já falecidas retratadas com asas de anjo. Mas nem todos os vídeos ou imagens estáticas são assim. Muitos são praticamente indistinguíveis da realidade.
 
Por isso, pensando nas próximas eleições, não duvido que vídeos e imagens falsas possam ser usados para tentar confundir eleitores mais desavisados ou ingênuos. E é aí que mora o perigo: a má fé de braços dados com a desinformação.
 
Por curiosidade e até por diversão, pedi ao ChatGPT para criar um desenho hiper-realista a partir de duas imagens que busquei na internet: os pré-candidatos a presidente da república nas eleições de 2026 – Lula e o "Zero Um" da famiglia Bolsonaro. Duas figuras políticas antagônicas se abraçando, duas ideologias conflitantes.
 
Na vida real, seriam capazes de trocar abraços tão carinhosos como o que apareceu na imagem gerada? Creio que isso nunca acontecerá. Mas o ChatGPT fez isso acontecer. Se eu tivesse a manha para mexer com IA, talvez até produzisse um vídeo com os dois brincando em um bloco de carnaval. Isso me leva ao que disse no início deste texto: o problema começa quando essas simulações são usadas fora de contexto, com intenção de manipular ou enganar para auferir benefícios e vantagens de qualquer natureza.
 
Por isso, nas próximas eleições, recisaremos de uma postura super crítica para distinguir a informação falsa da verdadeira. E talvez apenas poucos tenham paciência e discernimento para analisar o que as redes sociais provavelmente divulgarão.
 
A título de curiosidade, as imagens que escolhi para o ChatGPT "brincar":


Olha que gracinha a imagem gerada pela IA:

Mas ainda estamos em pleno Carnaval ("quanto riso, oh, quanta alegria!") e achei que poderia ficar assim também:

Agora só falta pegar o título de eleitor e esperar outubro chegar.



 

 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

ESSA ERA MINHA FANTASIA

 
Não é novidade para ninguém que algumas pessoas despem as fantasias que usaram para viver e trabalhar no resto do ano. Há aquelas que, ao contrário, vestem fantasias só para se divertir no carnaval. E há aquelas que assumem sua própria fantasia, por mais irreal que possa ser.

Este ano, assumi a minha. Resolvi levar minha Amada para perto da agitação, para junto das pessoas que se movem, se encontram e se divertem nessa época. 
 
Para isso, mandei confeccionar uma blusa com seu rosto lindo estampado no tecido. E hoje resolvi inaugurá-la. Caminhei (com alguma dificuldade) até a esquina onde muita gente se aglomera, arranjei um banco e sentei.
 
Havia uma fanfarra tocando, muita gente andando para lá e para cá, mas não vi ninguém que conhecesse, com quem pudesse conversar. Mesmo assim, mantive-me no meu posto. Depois, quando a fanfarra resolveu descer a rua em direção à praça principal do bairro, todos se foram e eu fiquei sozinho sentado em meu banco, uma bela metáfora da solidão em que vivo atualmente.

Para registrar esse momento, pedi a um ambulante para tirar minha foto. E é ela que aparece a seguir.



domingo, 15 de fevereiro de 2026

ALMA GÊMEA - AUTOR DESCONHECIDO

 
Encontrei este texto no Facebook, de autor desconhecido. Por ser um romântico incurável – mesmo que agora solitário – resolvi publicá-lo no Blogson em pleno Carnaval. E o motivo é simples: conheci minha alma gêmea, a mulher da minha vida no Carnaval.
 
Ontem, 14 de fevereiro, o mundo se encheu de flores, jantares à luz de velas e promessas de amor eterno. O Dia de São Valentim renova, ano após ano, uma pergunta antiga e sedutora: existe mesmo alguém que foi feito sob medida para nós? Em algum lugar, caminha a nossa metade perfeita?
A ideia atravessa séculos. Na Grécia antiga, Platão imaginou que já fomos seres completos, divididos ao meio pelos deuses, condenados a buscar a parte perdida. Na Idade Média, as histórias de Camelot transformaram o amor em devoção absoluta, como o de Lancelot por Guinevere. Mais tarde, William Shakespeare eternizou os “amantes marcados pelas estrelas”, sugerindo que o próprio universo escreve — e às vezes sabota — as histórias de amor.
Hoje, trocamos cartas perfumadas por aplicativos. A promessa, porém, continua a mesma: encontrar “a pessoa certa”. Mas a ciência tem lançado um olhar mais cauteloso sobre essa crença.
O psicólogo social Viren Swami, da Anglia Ruskin University, afirma que a noção moderna de escolher um único parceiro para toda a vida se fortaleceu quando as transformações sociais deixaram os indivíduos mais isolados. Procurar uma “alma gêmea” tornou-se também uma forma de buscar pertencimento e segurança em um mundo fragmentado.
O problema, segundo pesquisadores, não está no romantismo, mas na expectativa de que o amor verdadeiro seja fácil. O professor Jason Carroll, da Brigham Young University, diferencia “alma gêmea” de “pessoa certa”. A primeira seria encontrada pronta, como destino. A segunda é construída ao longo do tempo, com ajustes, pedidos de desculpas e crescimento mútuo.
Estudos conduzidos por C. Raymond Knee indicam que pessoas que acreditam que relacionamentos “simplesmente deveriam funcionar” tendem a desistir com mais facilidade diante de conflitos. Já aquelas que enxergam o amor como processo mostram maior comprometimento. Em outras palavras, o que sustenta um casal não é a ausência de problemas, mas a disposição para enfrentá-los juntos.
Há ainda a questão da química. Nem toda conexão intensa é sinal de compatibilidade. A coach Vicki Pavitt alerta que aquilo que parece destino pode ser apenas familiaridade com padrões emocionais antigos. Relações instáveis, que alternam proximidade e distância, geram ansiedade — e a ansiedade pode ser confundida com paixão. O cérebro interpreta intensidade como profundidade, mesmo quando há sofrimento.
A biologia também sugere que a atração não é fixa. Fatores hormonais e contextuais influenciam quem percebemos como atraente ao longo da vida. Se a química muda, torna-se difícil sustentar a ideia de que existe apenas uma combinação possível.
E, curiosamente, até a matemática entra nessa discussão. O economista Greg Leo, da Universidade Vanderbilt, desenvolveu modelos que mostram que cada pessoa pode ter várias combinações altamente compatíveis — não apenas uma. O amor, nesse sentido, parece menos destino e mais probabilidade.
Mas talvez a resposta mais bonita venha do cotidiano. Pesquisas lideradas por Jacqui Gabb, da The Open University, indicam que relacionamentos duradouros se sustentam em pequenos gestos: uma xícara de chá levada à cama, o carro aquecido numa manhã fria, um sorriso cúmplice no meio da rotina. Não são os grandes fogos de artifício que mantêm o vínculo, mas as pequenas chamas constantes.
Talvez o verdadeiro equívoco esteja em imaginar que a alma gêmea nos completa como peça que faltava. A ciência sugere algo menos mágico — e, paradoxalmente, mais profundo. Não se trata de encontrar alguém perfeito, mas de escolher, repetidas vezes, a mesma pessoa imperfeita e construir algo singular.
No fim, o amor que parece “destinado” costuma ser aquele que foi cultivado. Não nasce pronto. Cresce. Talvez a alma gêmea não seja encontrada. Talvez seja feita.

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

RELIGARE - REFLEXÕES SOBRE RELIGIOSIDADE, CRENÇA E FÉ

 
(Continuação do post anterior)

Os sentimentos de perplexidade, decepção e raiva surgiram imediatamente ao ver a palavra “BLOQUEADO” à direita da imagem da capa original. Perguntei ao Fabiano Caldeira, meu consultor para assuntos relacionados aos e-books da Amazon e ele disse nunca ter visto nada daquilo.
 
E não havia como modificar nada. Talvez a solução fosse reiniciar o processo, ou melhor, “fazer de conta” que se tratava de outro livro – que, muito provavelmente, também seria bloqueado.
 
Muito irritado com a situação, comecei freneticamente a fazer alterações. Excluí três ou quatro textos, dois deles com longas transcrições de livros que li (e talvez esteja aí o motivo da recusa – direitos autorais não respeitados).
 
Mudei o texto de divulgação, utilizei apenas uma “palavra-chave” em lugar das sete da versão anterior, escolhi nova capa – bem melhor que a original e, só de raiva, estabeleci o preço de R$5,00 para a nova versão. Originalmente custaria apenas R$1,99. O novo livro foi aprovado e posto à venda. Aleluia!
 
Se alguém se interessar em saber como seria uma "bíblia jotabélica" (não herética!) ou outras viagens na maionese surgidas e "perpetradas" nos últimos dez anos, o período de download gratuito vai de 13/02/2026 a 17/02/2026, em pleno período carnavalesco. Mas, por coerência com a temática do novo e-book, é melhor que seja lido durante a quaresma. Olha o link aí.




A capa antiga (da versão não aprovada) era assim. Ao lado dela, o aviso da Amazon.










quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

TUIUIÚ

 


O tuiuiú é considerado a ave-símbolo do Pantanal Matogrossense. Mesmo não sendo exatamente um passarinho – pois pode chegar a mais de 1,5 metros de altura, fiquei pensando que os ambientalistas poderiam propor a criação do “Dia do Tuiuiú”. Nesse caso, poderiam cantar esta musiquinha: “Happy Bird Day, Tuiu iú!” 

Acho ficaria bom.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

CONVERSANDO SOBRE RELIGIÃO, RELIGIOSIDADE, CRENÇA E FÉ

 
A morte da minha mulher teve para mim o efeito de um ciclone, de um tsunami ou, no mínimo, de um capotamento de carro, pois minha vida foi revirada como se fosse uma roupa dentro de uma lavadora. Tudo mudou, nada ficou como antes.
 
Tenho tentado manter a casa minimamente organizada e limpa, mas às vezes a vontade é de ficar deitado em nossa cama – em minha cama, agora tão grande e tão vazia.
 
Conversando com um de nossos filhos, o mais irrequieto, sempre querendo que eu me desfaça de metade dos objetos que minha mulher acumulou ao longo de cinco décadas, comentei que nossa casa é, na verdade, da Eliany, deles, dos nossos filhos, e que eu sou apenas o síndico. Ele riu e disse que é então o zelador, sempre querendo arrumar isso e aquilo.
 
Essas mudanças aconteceram também no campo religioso. Eu já me sentia praticamente ateu quando a doença de minha mulher teve uma progressão acentuada, fazendo-me lembrar desta frase do Millôr Fernandes: “O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”.
 
A partir daí, comecei a repensar as crenças que tive, a fé que fui perdendo e a esperar por um milagre que revertesse o quadro triste que começava a se desenhar com nitidez. Infelizmente, o milagre não aconteceu, trocado que foi por um vazio imenso e por uma saudade abissal.
 
Foi nesse cenário que surgiu a vontade de reler todas as postagens indexadas no marcador “Religare” do Blogson Crusoe. Sinceramente falando, gostei bastante de quase tudo o que li – apesar de perceber com clareza a curva descendente da minha fé desde o primeiro texto que falava de religião e religiosidade, de crença e de fé, escrito quando eu ainda nem sabia o significado da palavra “blog”.
 
Pensar em um novo e-book com esses textos foi uma reação quase imediata, estimulado pelas lembranças da minha Amada. Mas aconteceu o inesperado: o livro a quem dediquei tanto carinho foi recusado pela Amazon! 

Depois de seguir todos os passos para sua publicação, recebi um e-mail com este texto: Com base em nossa análise, não aceitaremos seu envio para publicação porque os livros podem resultar em uma experiência decepcionante para o cliente.

O que aconteceu depois fica para a próxima postagem.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

DOIS MESES

 
Hoje se completam dois meses do dia em que te toquei pela última vez. Eu estava em choque, sem pressentir a saudade que sentiria depois, na nossa casa vazia, cheia de lembranças, enfeites, retratos e roupas que você usava para ficar ainda mais linda.
 
É difícil imaginar a dor de saber que nunca mais celebraremos nosso aniversário de casamento, o Dia das Mães, que nunca mais comemoraremos o Dia Internacional da Mulher nem o seu aniversário. O Dia dos Namorados era uma data tão importante quanto o Natal. Como rir e cantar músicas antigas nas festas de família? Você não está mais aqui!
 
Fui criticado por um de nossos filhos por beijar seus lábios frios no caixão. Meu desejo era poder te abraçar pela última vez, só mais uma vez. Mas não pude. Precisei sair de casa para resolver questões ligadas ao seu sepultamento e, quando voltei, você já tinha sido levada embora. Para sempre.

Um de meus filhos me enviou a letra de uma música que está compondo, falando justamente dessas certezas definitivas, como nunca mais poder ser abraçado por você. Não consegui ler até o final, pois minha garganta começou a queimar e meus olhos a lacrimejar.
 
Quando, meu Amor, conseguirei conviver com a sua perda sem chorar? Queria tanto acreditar que nós nos reencontraremos um dia e que, nesse dia, eu possa te abraçar, te beijar e repetir milhares de vezes que eu te amo, que sempre te amei e que sempre te amarei! Será isso possível?

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ENFEITIÇADA, INCOMODADA E DESNORTEADA

A publicação de hoje serve para suavizar um pouco a crueza de algumas postagens recentes. Por isso, para não ficar falando abobrinhas, resolvi mudar a forma de apresentação de uma música lindíssima.

- Trata-se de um vídeo musical, um clip não oficial da música Bewitched, Bothered and Bewildered, produzido a partir da compilação de cenas extraídas da série The Crown, mostrando a Princesa Margaret em momentos distintos de sua vida. Na série, foram usadas duas atrizes – uma interpretando a princesa mais jovem e outra, já mais velha.

- Bewitched, Bothered and Bewildered é uma das músicas mais lindas que já ouvi. Foi composta em 1940 e, neste vídeo, é interpretada por Ella Fitzgerald. Como não assisti a nenhum episódio da série, não sei se essa melodia faz parte ou não de sua trilha sonora.

- O lado bom para quem não entende nada de inglês é a existência de legendas no vídeo, o que permite fazer analogias e ter ao menos uma pálida ideia (muito pálida) do comportamento da Princesa Margaret.

- Em algum momento, ela teria feito o seguinte comentário: “Era inevitável: quando há duas irmãs e uma é a rainha, que deve ser a fonte de honra e de tudo que é bom, a outra acaba ficando no foco da mais criativa malícia, a irmã diabólica”.

- A irmã da Rainha Elizabeth teve uma vida social bastante agitada. Bebia muito, fumava muito e se relacionou, ao longo do tempo, com dezenas de homens – entre eles, talvez, Mick Jagger, dos Rolling Stones. Morreu aos 71 anos.

- Agora, só não se deixa levar pela música sofisticada e pelas imagens quem prefere um estilo musical mais rústico, menos elaborado ou, digamos assim, mais “rural” ou “periférico”.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

"QUANDO EU ERA CRIANÇA"

“Quando eu era criança pequena lá em Barbacena” era o bordão do personagem caipira Joselino Barbacena da “Escolinha do Professor Raimundo”, programa comandado pelo genial Chico Anysio. Curiosamente “esse bordão foi reconhecido, por lei, como frase cultural dessa cidade”. Fiz essa descoberta ao pensar em uma frase para começar este texto. Então, vamos lá.
 
Quando eu era criança pequena lá no bairro Carlos Prates não havia (ou não se conhecia) a diversidade de comportamentos e preferências expressa na sigla LGBTQIAPN+. Se você não sabe o que significa essa sopa de letras, vai saber agora:
 
L: Lésbicas; G: Gays; B: Bissexuais; T: Travestis, Transexuais e Transgêneros; Q: Queer (pessoas que não se encaixam na heterocisnormatividade); I: Intersexo (pessoas com características biológicas que não se encaixam na binariedade masculino/feminino); A: Assexuais; P: Pansexuais; N: Não-binários e (ufa!) “+”, que representa a pluralidade de outras identidades de gênero e orientações sexuais. O “ufa!” aí não é sigla, é só frescura.
 
Pois bem, quando eu ainda era criança só imaginava existir a sigla LG, ou seja, “L” para as lésbicas, conhecidas na época como “entendidas”, “machonas” ou sapatões e “G” para os gays – as bichas, bichas loucas, bichinhas ou viados, enfim. De um lado mulheres com comportamento masculinizado e do outro, homens delicadíssimos, voz afetada e gestual ondulante.
 
Sempre tive mais dificuldade para identificar as meninas “L”, o mesmo não acontecendo com os homens “G”, normalmente alegres e sempre insinuantes. Lembro-me de um que ao me ver já adolescente saindo da piscina com a água escorrendo mais concentrada nos pelos já existentes na barriga de tanquinho (eu já tive!), exclamou: “- Caminho da felicidade”.
 
Mas o tema de hoje não são reminiscências da infância e juventude. Tudo surgiu e foi motivado por um comentário feito pelo titular do blog “As Crônicas do Edu” a respeito de recente postagem que fiz com o título “Macho Dzeta” onde, sem me estender muito, confessei ser um heterossexual um pouquinho afeminado – traço de comportamento apreciado por algumas mulheres (não todas). Em outras palavras, um membro da fictícia “ABHA - Associação Brasileira de Heteros Afeminados”.
 
Meu amigo Eduardo, talvez sentindo-se incomodado com minhas “inconfidências”, lascou um comentário que me fez pensar neste texto, ampliando um pouco minha resposta original.
 
Falando sério, eu realmente falo "noossa" e "ui". O "ui" é real e o "noossa" é só de gozação, mas é difícil definir o limite entre um homem "sensível" e um afeminado, pois essa "fronteira" é elástica, fluida, da mesma forma que é difícil definir o que é um "macho". Cara, eu odeio esta palavra, tanto quanto "fêmea"! São duas palavras redutoras que servem apenas para coisificar alguém que tem muito mais para mostrar que apenas um comportamento estereotipado.
 
A realidade, aliás, vive desmentindo esses rótulos. Há gays com comportamento muito mais “macho”, dentro do imaginário tradicional, do que muitos heteros sensíveis ou vistos como afeminados. E está tudo bem. Porque orientação sexual não é manual de conduta, e masculinidade não vem com certificado de autenticidade.
 
Posso estar enganado, mas os homens que espancam ou matam suas companheiras estão abrigados no nicho "macho das antigas", usando um termo que acho engraçado. Obviamente – e ainda bem – são minoria. Mas fruto direto de uma ideia ultrapassada e tóxica do que significa “ser homem”.
 
No fim das contas, talvez o problema possa não ser o “ui”, o “noossa”, a sensibilidade ou a firmeza. Os costumes mudam, as pessoas podem também mudar, suavizando arestas antigas e revendo costumes enraizados, aceitando com mais naturalidade a multiplicidade de comportamentos e escolhas. Que acham disso? (cartas para a redação) 


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

UM MUNICÍPIO INVISÍVEL


Já manifestei aqui no blog minha preocupação com os miseráveis que dormem debaixo das marquises de prédios, tendo muitas vezes apenas um papelão como defesa contra a friagem do solo. Para mim, pouco importa o que levou esses infelizes a chegar a esse nível de absoluta miséria e desamparo. Só sei que fico penalizado por cada um que vejo deitado nas calçadas. E esse número tem aumentado.

Todos os dias, pela dificuldade que tenho para andar a pé (artrose nos joelhos) vou de carro para comprar o pão nosso de cada dia. E saio bem cedo de casa, por volta das seis da manhã. Na volta, sou obrigado a passar pela praça principal do bairro, bem em frente ao icônico Bar do Bolão. Hoje, debaixo da marquise desse bar, quatro pessoas estavam deitadas, ainda dormindo. E é isso que me deixa desolado. São tantos os que se (des)abrigam nas calçadas e praças que, sinceramente, não consigo pensar que alguém tenha uma solução real para o problema. Por isso, resolvi apelar para a ironia.
 
Minas Gerais tem 853 municípios. Em Belo Horizonte, (sobre)vivem 15.474 pessoas em situação de rua – um contingente maior do que a população de 618 municípios do estado.
 
Diante dessa situação absurda, talvez seja uma boa criar o 854º município  o da população em situação de rua. Com direito a prefeito e verbas federais! Ou não?

domingo, 1 de fevereiro de 2026

GASTANDO O LATIM – MILLÔR FERNANDES

 
O Millôr era muito foda!
 
Bem, fiquei calado mais ou menos duzentos anos, na esperança de que algum latinista, algum erudito, aparecesse para corrigir Inácio de Alvarenga. Como todo mundo sabe, está na História, está nos “Autos” da Inconfidência, reuniram-se, em casa de Tomás Gonzaga, além do próprio, o dr. Cláudio Manuel da Costa, Inácio de Alvarenga e o padre Corrêa de Toledo (1).
 
Nessa reunião, o grupo discutiu a já muito discutida questão da Bandeira da Nova República. Cláudio Manuel da Costa, que já tinha feito uma proposta de bandeira, insistiu nela: a figura de um gênio quebrando seus grilhões com a inscrição: “Libertas Aequo Spiritus” (2). Alvarenga lembrou então que essa proposta já tinha sido feita numa reunião em casa de Francisco de Paula, mas que nem mudando a legenda para Aut Libertas Aut Nihil o pessoal tinha topado. Naquela mesma reunião o alferes Tiradentes tinha feito outra proposta: uma bandeira com um triângulo representando a Santíssima Trindade. Ele próprio, Alvarenga, sugerira que se juntasse ao triângulo o verso de Virgílio: Libertas Quae Sera Tamen e a proposta tinha sido aprovada. Nesta reunião aconteceu o mesmo — todos acharam a ideia muito bonita. E a bandeira da insurreição ficou sendo, definitivamente, essa.
 
Pois desculpem, amigos, a ideia não é boa e o latim é péssimo. Eu, que sempre achei a frase Liberdade Ainda que Tardia uma proposta completamente furada (3), resolvi, um dia, com minha total descrença na História e nos Historiadores, ir diretamente à fonte da frase: Virgílio. E, como não podia deixar de acontecer, a frase estava errada. Inácio de Alvarenga citou de memória, ninguém foi à fonte (nem na hora, nem até hoje, duzentos anos depois) e o erro se perpetuou.
 
A frase de Virgílio é Libertas: quae sera. Essa frase, sim, dá em português Liberdade, ainda que tardia. Como está na Bandeira (Libertas quae sera tamen) é um saudável bestialógico: Liberdade ainda que tardia todavia.
 
Bem, mas como não sou latinista (4), é melhor reproduzir o próprio original (5) pro pessoal aí não começar com discussões inúteis (6). Como sabem os que já leram as “Éclogas” (7) de Publius Vergilius Maro, mais conhecido como Virgílio, logo no início da primeira écloga, dois personagens se encontram, Melibaeus e Tityrus, este indo a Roma comprar sua liberdade. O diálogo:
 
Melibaeus — Et quae fuit tibi tanta causa vivendi Romam? (E qual foi, para ti, a causa tão premente de vir a Roma?)
Tityrus — Libertas: quae sera, tamen respexit inertem; postquam candidior barbacadebat tondenti; etc. (Liberdade: embora tardia, todavia (tamen) ainda me alcança em minha inatividade, quando a barba já me cai embranquecida.)
 
Como veem os leitores, o tamen nada tem com a primeira parte da frase, escolhida por Alvarenga. O que me permite repetir, mais uma vez: “A História é uma istória!” (8)
 
Notas:
1) Este repórter também estava presente mas, devido à sua extraordinária discrição, a História não reparou nele.
2) “Deus do céu, que horror!” murmurou este repórter, do seu carro.
3) Qualquer grupo revolucionário quando propõe liberdade é pra já, pô, e não ainda que tardia. Você pode aceitar uma liberdade ainda que tardia, como o personagem de Virgílio, mas jamais propô-la como bandeira de luta. Liberdade ainda que tardia já será, assim, uma antecipação de Minas está onde sempre esteve?
4) Aliás, não sou nada.
5) Cito da excelente Interlinear Translation, de Hart & Osborn, David McKay Company, Inc. Nova York.
6) Existem outras?
7) Ao todo 37 pessoas, no Brasil inteiro, sendo que 19 em São Luís do Maranhão.
8) Relutei muito tempo em aceitar a palavra estória como conto, diferenciada de História, narrativa de fatos importantes da vida da humanidade. Essa palavra foi criada pelo Diário Carioca, no tempo em que este era dirigido pelo jornalista Pompeu de Sousa, agora em Brasília. Acho, aliás não tenho certeza, que foi o próprio Pompeu de Sousa quem inventou a palavra. Todavia não vejo por que, se a palavra é totalmente inventada, não se escreve istória, como se pronuncia. Se, porém, a palavra pretende, ainda, alguma etimologia, esta vem, naturalmente, de História, e, portanto, também nesse caso, dá istória.
 
                              Veja, 17 de janeiro de 1979

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