Às vezes eu digo em tom de brincadeira (sou
muito repetitivo) que devo ter nascido em Marte e deixado aqui por engano,
porque detesto quase tudo o que boa parte dos brasileiros curte. Um breve
inventário das minhas aversões confirma a tese:
- não gosto nem assisto a jogos de futebol,
mesmo em Copa do Mundo. Nesse ponto digo que é trauma de infância (o que é
real);
- não gosto de música sertaneja, pagode ou
funk;
- parei de beber em 2014 e detesto o gosto de
cerveja e de destilados, só abrindo exceção para bombons de licor;
- detesto picanha gorda e malpassada. Nos
raríssimos churrascos a que vou, sempre peço as carnes já passadas do ponto,
quase carvão;
- para finalizar, odeio programas
popularescos de televisão.
E aí eu pergunto: sou ou não sou de Marte?
Fiz essa introdução só para perguntar: você é
brasileiro? A resposta mais provável é “sim”. Eu também sou. Mas, tirando as
filigranas legais e constitucionais, quem realmente é brasileiro? Essa dúvida
me ocorreu ao ver alguns nomes na lista dos “brasileiros” mais ricos da Forbes.
Para tentar responder, escolhi apenas os dois primeiros colocados entre 300
bilionários – André Saverin e Jorge Paulo Lehmann.
O André Saverin (fortuna de 220 bilhões de
reais) tem o seguinte percurso: nasceu no Brasil em 1982, mudou-se com a
família para os Estados Unidos em 1993 (tinha 11 anos), naturalizou-se
americano aos 16, emigrou para Singapura em 2009 e renunciou à cidadania americana
em 2011.
Já o Jorge Paulo Lehmann (fortuna de 88
bilhões de reais) nasceu no Brasil, estudou em Harvard, voltou, foi campeão
brasileiro de tênis, trabalhou em instituições financeiras daqui, fez seus
primeiros investimentos aqui. Hoje mora na Suíça depois que seus três filhos
mais novos sofreram uma tentativa de sequestro no Brasil – frustrada graças ao
carro blindado e à habilidade do motorista. Mantém três fundações que apoiam
jovens talentosos – Fundação Estudar, Fundação Lemann e Instituto Tênis.
E aí vem a pergunta que não quer calar: qual
dos dois pode ser considerado brasileiro? Para mim, a partir de sua
naturalização como americano, o sócio do Facebook já deixou de ser. Que vínculo
emocional ele pode ter com um país de onde saiu aos 11 anos de idade – e nunca
mais voltou?
Talvez o problema esteja no nosso velho complexo de vira-lata:
queremos a todo custo carimbar como “brasileiros” os que enriqueceram lá fora,
mesmo que já não tenham nenhum laço real com o país. Mas, no fim das contas,
ser brasileiro não é só ter nascido aqui. É, sobretudo, ter vínculo afetivo com o país – e isso, talvez, Saverin tenha perdido há muito tempo.
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