quinta-feira, 6 de outubro de 2016

ESPELHO

Que aconteceu com aquele menino
que sonhava viajar em um Vera Cruz prateado?

Onde se escondeu aquele adolescente inseguro
que queria aprender a beijar lendo um livro?

Onde foi parar aquele jovem ingênuo
que um dia encontrou o amor de sua vida?

Que fim levou aquele pai que dormia,
incapaz de ajudar seus filhos com os deveres?

Onde está aquele homem insensível
que pensava mais em si mesmo?

É esse, aquele velho espantado
que se vê refletido em espelhos paralelos?

MINHA VIDA NO FACEBOOK - 06

Um belo dia (isso é apenas força de expressão, pois não há registros de  como realmente estava o dia – ensolarado, nublado, chuvoso?), o bom e velho Moshe (Moisés, entendeu?) subiu ao monte Horeb (Sinai, para os íntimos). Voltou quarenta dias depois, trazendo consigo duas “tábuas de pedra” contendo os Dez Mandamentos (aqueles mesmo!).

Esses mandamentos teriam sido ditados e gravados por Deus, mas, pelo tempo decorrido entre a subida e a descida (quarenta dias!), creio que o que realmente ocorreu foi uma inspiração e muita transpiração. Inspiração recebida de Deus e transpiração do velho Moshe para gravar aquilo tudo em lajes de pedra.

Pois bem, eu disse que iria transcrever os Dez Mandamentos do Facebook, mas como não sou Moisés, andava meio sem inspiração. O máximo que consigo ter é piração. Além do mais, ainda não se passaram quarenta dias da promessa que fiz. E se o coleguinha barbudo teve esse tempo, eu também queria. Afinal, mesmo que os meios utilizados sejam diferentes (buril e marreta versus editor de texto e HD), gravação é gravação e não quero nem saber.

Aqui cabe um parêntese que eu sempre quis registrar: pode até ser um jogo de palavras, mas “inspiração” é a captura e posterior utilização do que alguém disse ou fez antes. Para mim, o que você cria ou pensa e depois exibe é, na verdade, uma expiração.

Antes de prosseguir, preciso dizer que este é provavelmente o último post da série (imperdível!) "Minha vida no Facebook". Mas deixa pra lá e voltemos aos top ten, pois resolvi andar mais rápido que o velho e bom Moisés.


 OS DEZ MANDAMENTOS DO FACEBOOK
(cuidadosamente escritos na fonte "Old English Text MT")

1-     Não quebrarás nem tentarás subverter os paradigmas do Facebook
2-     Não divulgarás textão
3-     A ti compete apenas “curtir” e “compartilhar”
4-     Quando quiseres comentar algum  post, darás preferência às emoticons
5-   Se achares graça em algum post deverás usar três ou mais “k” (a nuvem é o limite); menos, nunca
6-    Compartilharás apenas posts com imagens de gatinhos, cãezinhos, flores ou xingamentos contra políticos contrários à tua ideologia
7-     Cuida para que as fotos pessoais que divulgares sejam sempre selfies fazendo biquinho.
8-  Os posts criados por ti mesmo devem se limitar a vídeos de cãezinhos, fotos de comida de restaurante, mapas de onde estás e fotos de viagens
9-    Solicitarás a amizade de toda pessoa sugerida pelo Facebook, para que possas bater a meta do Roberto Carlos (“eu quero ter um milhão de amigos”)


Os 1,7 leitores que ainda acessam este blog devem estar se perguntando por que os dez mandamentos são apenas nove. A explicação é simples: é que ninguém tem saco para ler muita coisa no Facebook.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

VELHITUDE

Mesmo que equivocadamente, eu classifico as famílias de minha mãe e de meu pai da seguinte maneira: a família de minha mãe é formada por gente simples no trato, alegre e descontraída; a de meu pai eu enxergo como meio depressiva, um pouco elitista e muito reservada. Talvez essa classificação seja injusta, até por ter convivido pouquíssimo com os irmãos de meu pai (mesmo que eu os amasse – como amo até hoje, embora estejam todos mortos). Um dos motivos para isso é o fato de ser uma família de gente bem mais velha que os irmãos e irmãs de minha mãe. A título de exemplo, meu avô materno era mais novo que o irmão mais velho de meu pai.

Como morei na casa de minha avó materna até me casar, nada mais natural que eu tenha adquirido um comportamento mais descontraído e alegre, próprio da família de minha mãe e que se manifesta na maior parte do tempo. Entretanto, não raras vezes eu exibo as características herdadas da família de meu pai: introversão, timidez, ironia e depressão, sem me esquecer de um jeito meio elitista de ser.

Essas características ficaram mais visíveis à medida que fui envelhecendo. Estados depressivos começaram a acontecer com mais frequência, o bom humor e a alegria sendo substituídos pela ironia e pelo sarcasmo; irritabilidade e tendência ao isolamento completando o quadro.

Essas mudanças e alterações de humor fizeram com que eu começasse a ter uma visão desencantada da Vida e, mais especificamente, da minha própria vida. Tentei encontrar um sentido para essa coisa bizarra que é viver, mas desisti. Hoje isso já nem me preocupa mais. Mas comecei a ter a necessidade de registrar tudo o que penso – por mais idiotas e simplórios que sejam esses pensamentos –, talvez para melhor ordená-los ou (quem sabe?) como forma de me “eternizar”.

Por que estou dizendo tudo isso? Porque meus textos são sempre confessionais, na medida em que me mostro em cada bobagem que penso, em cada piada idiota que crio, em cada coisa que comento. Mas o motivo real de estar dizendo tudo isso é o desejo de mudar essa situação.

Hoje, não sei exatamente porque, acordei com a sensação de que preciso mudar minha vida. Não sei quantos anos mais eu viverei, mas quero vivê-los plenamente feliz e talvez poder dizer como disse de si mesmo o genial Millor Fernandes, no final da vida: “Sou indecentemente feliz”.

É óbvio que existirão momentos em que ficarei triste e não terei como mudar isso, mas quero que essa tristeza não parta de mim mesmo. Que seja como nesta oração atribuída a São Francisco de Assis:

“Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado, resignação para aceitar o que não pode ser mudado e sabedoria para distinguir uma coisa da outra.”

E o instrumento que encontrei para realizar essa mudança não é terapia do tipo convencional, mas “programação neurolinguística”, uma espécie de auto-curandeirismo. Apesar da ironia, eu acredito que isso funciona razoavelmente bem, desde que me mandaram fazer um curso dessa técnica, quando estava lotado na gerência comercial da última empresa onde trabalhei.

O que entendi, dito de forma simplificada é que somos aquilo que pensamos ser. Exemplificando, tenho dito para todo mundo que sou um velho, que estou velho, etc. Na prática, sinto-me muito mais novo do que apregoo, mas infinitamente mais velho do que gostaria de ser. Apesar de sentir-me mais novo do que realmente sou, de tanto proclamar minha “velhitude” (antônimo de “juventude”), acabo por adotar comportamentos normalmente associados à galera da “melhor idade”, ou seja, impaciência, amargura, nervosismo e irritabilidade.

Há outros exemplos sobre o efeito da auto-sugestão negativa em mim mesmo, mas já me alonguei demais nesta sopa rala.

O que sei é que pretendo mudar o enfoque das coisas que penso e digo no dia a dia, ao adotar um estilo mais assertivo, mais positivo, mas cuidando para não ficar hipócrita ou alienado. Assim, talvez eu possa um dia dizer como o Vovô Catapreta, bisavô da Eliany: “eu tenho noventa e seis anos, sete meses e dez dias”. E falava isso com visível orgulho e satisfação.  

domingo, 2 de outubro de 2016

UM EMBRULHO DE PAPEL BRILHANTE - ELIANE BRUM

Tão bonito e comovente que pareceu ter caído um cisco no meu olho.

A espio chegando, com seus pés tortos por um milhão de problemas, uma bolsa pesada na mão e uma mala de rodinhas. É minha mãe e acabou de descer do ônibus com meu pai. Vejo que ela me procura com olhos ansiosos na rodoviária de Porto Alegre, já pronta pra reclamar que estou atrasada. Eu poderia me apressar. Em vez disso, estaciono minhas botas atrás de uma das colunas. Tento fixar esse momento. Naquele instante eu sei que aquela cena é irrepetível, e de súbito essa revelação me engolfa. Faz alguns anos, já, que a percepção da passagem do tempo se faz nítida em mim. Sinto-me como se estivesse no fundo de uma piscina, ouvindo à distância o burburinho surdo dos outros. Respiro e estou de novo na superfície. Guardo a cena inteira numa dobra do meu corpo, desprego-me da coluna e surjo sorridente diante deles.
  
Estamos todos ali, na cidade em que já não vivo há muito, para uma consulta com o médico da capital. Naquele dia, eu apalpo essa nova geografia na qual ainda preciso descobrir se sou montanha, rio, um lago. Talvez apenas uma árvore não muito grande, não muito forte. Quando a hora de cuidar dos pais nos alcança, os filhos que se importam encontram-se não apenas em território desconhecido, mas acabam por encontrar um território desconhecido dentro de si.
   
Quero protegê-los, mas não sei como. Devo chamar um táxi ou esperar pelo meu pai, como sempre foi? Devo tomar a iniciativa e fazer eu as perguntas para o médico ou devo permanecer como coadjuvante? Devo andar no lado externo da calçada ou devo respeitar o lugar do meu pai, que como todo homem de sua geração sempre se manteve como um escudo entre a rua e as mulheres, na intrincada arte do footing? Ele esclarece: “Vá para o meio, para conversar com a tua mãe”. Não vá para o meio porque sou eu que protejo vocês. Eu compreendo a enormidade dessa cena banal. Mas nada digo. Apenas deslizo para dentro.

Mais tarde, depois da consulta, levo-os para jantar num shopping em frente ao centro médico. Vou de balcão em balcão da praça de alimentação em busca de algo que meu pai possa comer. Ele agora tem muitas alergias. “Você não pode só fazer um pão com queijo mozzarella?”, eu pergunto. Logo, estarei quase implorando. Mas parece que ninguém pode fazer pão com queijo. As franquias são todas formatadas, as atendentes me olham como se eu estivesse pedindo olhos de macaco com pão de urtiga australiana. Será que eu não compreendo que não é possível sair do padrão? Comer no shopping ganha contornos de um sonho persecutório. Sinto-me incapaz de levar comida para o meu pai.
  
Naquele momento, não apenas confronto a fragilidade recém-descoberta deles, mas também a minha. Ao despedir-me de meus pais, temo que algo possa acontecer porque não estarei ali para protegê-los, mas internamente duvido que possa de fato protegê-los. Imagino catástrofes, há um torniquete ao redor do meu coração quando pego o avião de volta. Sei bem agora que posso no máximo cuidar deles, como eles cuidaram de mim – e, de um modo muito particular, ainda cuidam. Ninguém pode proteger ninguém, essa é só mais uma ilusão. E, mesmo quando acreditamos compreender a vida, somos empurrados para um novo vazio e restamos às tontas.

Antes de eu pegar o avião, eles o ônibus, minha mãe me empurra um pacotinho em papel de presente brilhante. Eu sei o que é. Minha mãe sempre me dá um pijama. Não só para mim, para todos. É um carinho e um desejo, o de nos ver na cama, aquecidos, a salvo, como num tempo em que, todos sabemos, nunca existiu. O pijama já vem lavado, devidamente desinfetado de todos os germes da loja e das mãos que o cobiçaram antes dela. O pijama vem lavado dos males do mundo, minha mãe confiante no poder redentor dos produtos modernos de limpeza. Não posso nem quero imaginar uma vida sem pacotes de papel brilhante com um pijama cheirando a amaciante dentro.
  
Na semana seguinte voltamos a nos encontrar, agora para a cirurgia do meu pai. Minha mãe de novo está com sua bolsa pesada, uma mala de rodinhas e seus pés claudicantes. É um mistério como ela consegue andar tão rápido e ir a todos os lugares com aqueles pés. Mas ela sempre está uma curva adiante de nós, em vários sentidos. Qualquer um levaria o básico ao preparar a mala para uma viagem de saúde. Pijama, roupas de baixo, talvez um roupão, escova de dentes, essas coisas. Minha mãe, eu tinha certeza, carregava também uma caixa de docinhos. Docinhos mesmo, estes de aniversário de criança. Glaceados, caramelizados, trufados, bombas de glicose concentrada.  

Minha mãe jamais viaja sem uma caixa de docinhos. Já carregou caixas de docinhos no colo por mais de mil quilômetros. Se há alguma criança nos arredores, os docinhos surgem no formato de bichos, carros, gurias de tranças. Por quê?, pergunto com a boca cheia de leite condensado. “Os doces de Ijuí são diferentes”, ela diz, com o tom das verdades absolutas. Minha mãe sempre demonstrou afeto com comida. Desisti de levar o feijão dela congelado, de Ijuí para São Paulo, quando o líquido viscoso, impregnado de linguiça caseira, escorreu pelo compartimento das bagagens de mão do avião e pingou a milímetros da cabeça do passageiro ao meu lado. Foi uma decisão difícil de comunicar a ela.
  
A caixa de docinhos era ali uma garantia de que algo permanecia imutável numa vida cujo controle nos escapava. Algo doce. Era a segunda vez que nos preparávamos para a cirurgia. Na primeira, o plano de saúde avisara que não cobriria o “procedimento” na hora da internação, com o respeito habitual. Desta vez, a pressão de meu pai subia porque o esqueceram na emergência do hospital. De novo eu tentava protegê-lo. E de novo fracassava.
  
No dia seguinte, minha mãe me sussurraria na sala de espera. Meu pai estava desacordado em algum lugar do bloco cirúrgico. E eu tentava não imaginar o corpo aberto do meu pai. Ela sussurra, então: “Nós nos despedimos, sabe. Ele disse que a vida comigo foi muito mais do que ele sonhou e que ele foi muito feliz”. Eu queria dizer que ainda seriam felizes, mas não encontrei voz. Eu sabia que eles temiam essa cirurgia com um medo novo. E que mesmo depois dela o medo talvez não fosse embora. Quase 60 anos de casamento, e o amor dos meus pais é escandalosamente vivo. Vivo a ponto de sobreviver a despedidas desse tipo.

Algumas horas mais tarde, quando tudo já havia acabado, estremecemos ao ouvir o celular: “Ele está pedindo os óculos na UTI. Diz que precisa enxergar”. Minha mãe guardava naquela bolsa pesada dela os olhos e os dentes do meu pai. Será que é por isso que está tão pesada?, pensei. À noite, eu teria pesadelos com os dentes do meu pai na bolsa da minha mãe. Meu pai sempre pareceu usar os dentes com parcimônia, mas era apenas aparência. É verdade que ele mastiga cada bocado de comida quase tantas vezes e com tanta paciência quanto um macrobiótico, mas a vida, não. Na vida ele finca os dentes. E, desconfio eu, também em algumas partes da minha mãe, mas isso eu prefiro não investigar.

Minha mãe devolveu primeiro os olhos do meu pai, depois os dentes. No dia seguinte ele reclamaria que ela levou tempo demais para devolver os dentes dele. E ainda depois descobriríamos que a chave do cadeado da mala dele havia se perdido, junto com todas as chaves que abrem portas na vida deles. “Eu não sei quem perdeu as chaves, se fui eu ou ele”, balbuciou minha mãe, subitamente sem saber para onde levar seus pés. “Era um molho enorme de chaves.” Eu sabia que eram muitas e sabia que seriam encontradas. Em algum momento, nós sempre precisamos voltar a encontrar as chaves.

Dias mais tarde, meus pais estão deitados na cama do hotel. Devagar, meu pai começa a se recuperar. Ele está lendo uma biografia de Getúlio Vargas. Minha mãe lê 50 tons de cinza. Ela reclama que é tão mal escrito quanto uma daquelas novelas românticas de banca de revista, mas não cogita abandonar a leitura. Quando ela se distrai por um instante, meu pai rouba o livro dela para dar uma assuntada. Não sei se encontra o que procura, porque logo depois volta para Vargas. Eu sinto que poderia passar a vida lendo os dois.
  
Sei que empreendi um caminho de volta para casa, mas essa viagem é apenas interna. Quando um filho parte, nunca há volta. Não deve mesmo haver volta. Há apenas esse tempo roubado, no qual eu posso abraçá-los e fingir que ainda sei o meu lugar. Ou que algum dia soube.
  
Antes da despedida, minha mãe se aproxima com seus pés impossíveis. Me alcança um pacote embrulhado em papel brilhante. Eu sei o que é. Sei também que, por enquanto, estamos todos bem.


SABONETE

Descobri que algumas igrejas evangélicas esbanjam criatividade na hora de seduzir seus clientes, ou melhor, seus fiéis. É o caso dos sabonetes "para purificação espiritual", provavelmente distribuídos graciosamente no interior dos templos. Achei bacanérrima a ideia, embora uma das embalagens que vi na internet se pareça mais com uma de camisinha. 

Aí pensei que essas igrejas poderiam também distribuir preservativos aos fiéis, e até imaginei um slogan: "MANTENHA SUA CABEÇA LIVRE DO PECADO!"

Refletindo um pouco mais, cheguei à conclusão que isso não seria uma boa ideia. Afinal, o que toda empresa de bom senso deseja é aumentar sua clientela, nunca diminuir. Olhaí.



sábado, 1 de outubro de 2016

É HOJE!

Comemora-se hoje no Brasil o “Dia do Idoso”, mais uma data idiota que algum desocupado, à falta de coisa melhor para fazer, resolveu criar. Para isso editaram até lei. Meio cismado, resolvi verificar se existe outro país que comemore essa coisa. Descobri na web que isso acontece em trinta países (mas não consegui identificar nenhum!).

Mesmo assim, resolvi fazer uma singela homenagem aos alegrinhos da Melhor Idade, aos aparvalhados da Terceira Idade, aos circunspectos preferenciais, aos amedrontados prioritários, a todos com idade igual ou superior a sessenta anos. Ou seja, aos meus pares, enfim. Espero que gostem. Vêaí.



O TEMPO - MÁRIO QUINTANA

  A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira! Quando se vê...