quarta-feira, 14 de agosto de 2024

DENTES DE DRAGÃO

 
Recentemente, descobri que minhas netas de cinco anos começaram a "colecionar" pedrinhas. Não sei como as conseguem, mas prometi que, na próxima visita, eu arranjaria mais algumas para elas. Para evitar ciúmes, precisava de quatro pedras, para que as duas netas mais velhas também ganhassem.

A solução estava aqui em casa, em um vaso enorme que um dos meus filhos desistiu de levar para sua nova casa. Esse vaso é coberto por pequenos pedaços de mármore branco, que algum processo abrasivo transformou em pedrinhas de formas ligeiramente arredondadas, perfeitas para que uma criança pequena não se machuque. Escolhidas e lavadas as quatro pedras, só faltava esperar o Dia dos Pais para entregá-las. Mas senti que faltava um toque de fantasia, de magia.

Quando meus filhos eram pequenos, eu tinha a mania de recontar histórias infantis invertendo as qualidades dos personagens. "Os Três Porquinhos", por exemplo, ganharam uma versão em que um lobo bonzinho era perseguido por três porquinhos malvados e sacanas. Por que eu fazia isso? Não tenho muita certeza. Talvez quisesse estimular a imaginação deles e libertá-los de ideias estereotipadas. Hoje, com as netas ainda pequenas, tento fazer o mesmo, mas sem muito sucesso. Quando conto minhas piadas infantis, elas me chamam de doido. Mesmo assim, insisto em ser o avô mala.

Por isso, olhando as quatro pedrinhas brancas, imaginei que poderiam ser dentes de unicórnio. Após uma overdose de leite com Toddy (gelado, por favor), achei que seria mais engraçado dizer às meninas que eram dentes de dragão.


Então pensei em pedir à IA Ideogram para criar a imagem de um "dragão banguela". E o pedido foi assim formulado:
"Um dragão que perdeu dois dentes do maxilar superior e dois dentes do maxilar inferior."

As imagens geradas mostravam ameaçadoras cabeças de dragão, totalmente inadequadas para divertir crianças de cinco e seis anos.
 
Refiz o pedido, solicitando imagens de um dragão banguela usando óculos escuros. Das imagens geradas pela IA, a que mais me agradou mostrava um dragão sorridente, mas exibindo todos os dentes. Para mim, essa é uma prova de que a Suno tem um comando "foda-se" só para contrariar e enfurecer quem pede sua ajuda.

Joguei a imagem no Paintbrush e resolvi a questão apagando quatro dentes. Mas, como minhas netas são gemelares, achei por bem criar uma segunda imagem ao tirar outros dentes da imagem original.

Quando mostrei a elas as imagens dos dragões gêmeos (e banguelas), elas riram e pediram que os pais vissem também.

Mas a magia acabou quando entreguei os "dentes de dragão". A Lelê (cinco anos) disse que dragões não existem, e a Cacá (seis anos) deu a palavra final:
- "Isso não é dente, é só uma pedra."

E pensar que, aos oito anos, morri de medo ao ler a história da Cuca no livro "O Saci", de Monteiro Lobato!





terça-feira, 13 de agosto de 2024

The Fab Four

 

Creio que a maioria dos leitores que acessa esta bagaça já deve ter ouvido a expressão "The Fab Four", criada para designar o fabuloso quarteto The Beatles, mas, para mim os verdadeiros "Fab Four" são estes caras aqui, em foto tirada no Dia dos Pais:



segunda-feira, 12 de agosto de 2024

NÃO QUERO PRESENTES!

 
Por ter errado praticamente todos os presentes que comprei e por não ter apreciado a maioria que recebi, creio que um dos efeitos colaterais disso é o fato de não gostar nem sentir falta de ganhar presentes no Dia dos Pais, no Natal ou em meu aniversário. Além disso, não me agrada seguir costumes padronizados.
 
Frequentemente, sinto vontade de trocar os presentes que recebo. Talvez por isso, meus filhos sempre me presenteiam com livros. Contudo, como estou com uma pilha de leituras inacabadas, enviei-lhes a seguinte mensagem:
 
Aviso aos navegantes: domingo é dia dos pais. Ok. Mas não quero ganhar presentes. Ou melhor, os presentes que quero e preciso ganhar são abraços. Não precisam ser demorados nem apertados. Basta que sejam abraços. Combinado? Beijão (amo vocês!)
 
Ontem, Dia dos Pais, fui abraçado e abracei todos os filhos e netas, que era tudo o que eu queria. Mas após o almoço, um dos filhos surgiu com um presente, uma blusa branca de malha, e disse que eu precisava experimentá-la para saber se tinha comprado o tamanho correto.
 
Não costumo usar camisetas brancas, pois se sujam com facilidade. Mesmo assim, pego de surpresa, obedeci. Foi então que o inesperado aconteceu: todos os filhos, netas e filhas do coração, com as mãos e pulsos pintados de tinta para tecido, me abraçaram, deixando suas marcas na parte de trás da camisa.
 
Encantado com a ideia, perguntei como tinham pensado nisso e a resposta do autor intelectual foi:
- Você não disse que só queria abraços?
 
Depois disso, pintaram novamente as mãos para abraçar minha mulher . Acho que usarei essa blusa só para dormir, para que eu sempre me sinta abraçado pelas pessoas que amo.



sábado, 10 de agosto de 2024

MEIO PATERNAL POR DENTRO

 
Devo reconhecer que tenho um gosto peculiar (para dizer o mínimo), que é divertir-me ao questionar os pensamentos padronizados que tantos gostam de compartilhar nas redes sociais. Por isso, em “homenagem” ao Dia dos Pais, resolvi cutucar meus “amigos de Facebook” com esta provocação:


 

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

CAMINHO DAS PEDRAS

 
Conhece a piada do caminho das pedras? Não? É boa, mas não vou recontar. O que me interessa dizer é que a IA da vez é a temperamental Suno IA, que cria melodias com o texto que o usuário escolhe. O problema é que ela - ao contrário de sua parente, a ChatGPT - não aceita correções e não repete a melodia que te agradou, caso queira mudar a voz ou o sotaque de quem canta seus (seus mesmos, não da IA) magníficos e criativos versos.
 
Pois bem, pela absoluta falta de tempo para descolar e publicar no velho Blogson algum assunto interessante ou bizarro, resolvi reciclar um post criado para atender apenas a uma pessoa. Então, a partir de agora, o Blogson veste sua beca de doutor em porra nenhuma, assume a cátedra e manda ver na aula sobre como decepcionar-se e se irritar com as músicas que a Suno cisma de criar com suas letras.

Por isso, siga o caminho das pedras tão carinhosamente sinalizado pelo blogueiro que vos fala. Lêaí.
 
Primeiro passo: entrar no site Suno.com. A primeira tela que aparece indica a necessidade de se cadastrar ou se inscrever. Como já estou cadastrado, essa tela não aparece mais para mim.
 
Segunda tela: como pode ver, o idioma da IA é o inglês. Você deve clicar na opção “Create”.

 
Ao fazer isso, aparece uma terceira tela, que é a “tela de trabalho”. Você precisa mover os “botões “Custom” e “Instrumental”. se não fizer isso, não conseguirá colocar letra na música. Na mesma tela aparece um janela com a mensagem “Enter your own lyrics bla bla bla”. Aí você cola o texto escolhido.

O próximo passo é definir o estilo de música para o seu texto. Há centenas de ritmos a escolher quando clica na opção “Explore”. Recomendo fazer isso antes de colocar a letra. Você pode escrever se deseja voz feminina ou masculina, etc. As instruções devem ser em inglês. Exemplo: punk, pop punk, female singer, uplifting, 2000s, catchy” (não sei o que isso quer dizer).
 
Para finalizar, digite na janela adequada o título que quer adotar e,  em seguida, clique no botão Create. Dentro de alguns segundos você terá duas versões para o estilo que escolheu. Detalhe: você tem 50 créditos por dia. A cada escolha feita você gasta 10 créditos. Isso significa que você tem cinco escolhas por dia, resultando em 10 versões para um mesmo texto ou para textos distintos. O limite é de cinco escolhas por dia.

Há outras frescuras para você escolher: copiar o link da versão de que mais gostou; fazer o download para arquivo mp3 ou mp4. Não me preocupei em fazer o download, pois essa é uma escolha pessoal.
 
Espero que o aluno dedicado tenha aprendido o caminho das pedras. E se não entendeu nada, direi delicadamente "foda-se", porque eu tenho mais o que fazer. Fui

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

VIGÉSIMA TENTATIVA

 
Acabei de apagar o terceiro – e, espero, último – post falando das recentes eleições na Venezuela (falta do que fazer é foda!). Por isso, para neutralizar minha ansiedade congênita, decidi publicar mais uma experiência musical com a IA Suno.
 
Antes disso e referindo-me à minha ansiedade, fiz questão de declará-la “congênita” pois, segundo a revista Galileu, “Ansiedade após os 50 anos pode ser sinal precoce de Parkinson. Pesquisa mostra que a doença costuma se manifestar muito antes dos sintomas motores clássicos, como lentidão e tremores”.
 
Feitos os devidos esclarecimentos, escutaí a versão musical do poema Apocalipse (vigésima tentativa).

https://suno.com/song/f4bbc248-0046-48af-829a-16874023b3d6

terça-feira, 6 de agosto de 2024

MAIS UM POUCO DE MANOEL DE BARROS

 
Sou um ignorante confesso. Por ser assim, confesso também que até há pouquíssimo tempo nunca tinha ouvido falar de Manoel de Barros. E hoje conheço pouquíssimo de seus poemas desconcertantes. Mas o que já li teve um efeito libertador, pois descobri que a poesia está guardada nas palavras e nas frases e versos por elas formados – mesmo que não obedeçam a nenhuma métrica ou rima.
 
Mas como é difícil encontrar na internet seus poemas tal como foram escritos e publicados! Um exemplo disso é o poema publicado no post anterior com o título “Poema”. Descobri que talvez – e eu repito “talvez” – seu título seja  “Tratado geral das grandezas do ínfimo”. Será? Talvez fosse mais recomendável comprar seus livros, não é mesmo? Pouco me importa, pois a magia está nos versos desse mato-grossense falecido em 2014. Por isso, mais um pouco de Manoel de Barros.
 
O Apanhador De Desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
 

Retrato Do Artista Quando Coisa
A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.
 

O Fazedor De Amanhecer
Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.
 

Prefácio
Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.
 

Os Deslimites Da Palavra
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas
 

O Menino Que Carregava Água Na Peneira
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

 

PORTO SEGURO

  Dia desses ouvi alguém dizer que “ mulher deseja um homem que seja seu porto seguro ”, algo assim. Fiquei com aquilo na cabeça, tentando e...