quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

RESOLUÇÕES DE ANO VELHO

 
Este ano, por pretender ficar sozinho em casa no último dia de 2025, poderei satisfazer dois desejos antigos: assistir na TV Globo à retrospectiva dos fatos que marcaram o ano prestes a se encerrar e dormir durante a passagem de ano. Bom demais!
 
Mais cedo, poderei saber qual queniano ganhou a São Silvestre e poderei até mesmo fazer minhas resoluções de ano velho. Por exemplo, não precisarei comer doze uvas fazendo uma prece aos reis magos ou coisa parecida, nem comer lentilha após a mudança de calendário. Só isso aí já me dará a sensação de dever cumprido, de meta atingida, de desejo realizado, deixando-me mais preparado para os desafios do novo ano.
 
E poderei ver a imagem de quem morreu durante o ano que está terminando.  Talvez seja uma curiosidade meio mórbida, mas neste ano essa curiosidade aliou-se ao sentimento de perda da minha Liane. Por via das dúvidas, já fiz uma lista de quem eu conheço pelo menos o nome. Quanta gente boa! Olha só:

JANEIRO:

David Lynch

Cineasta

Jean-Marie Le Pen

Político

Léo Batista

Jornalista

Marianne Faithfull

Cantora ex-Mick Jagger

Marina Colasanti

Escritora

FEVEREIRO:

Cacá Diegues

Cineasta

Carlos Miranda

Ator Vigilante Rodoviário

Gene Hackman

Ator

Lílian Knapp

Cantora dupla Leno e Lilian

Newton Cardoso

Político

Roberta Flack

Cantora

MARÇO:

Affonso Romano de Sant'anna

Escritor

George Foreman

Boxeador

Richard Chamberlain

Ator

ABRIL:

Cristina Buarque

Cantora irmã do Chico

Edy Star

Cantor

Lúcia Alves

Atriz

Mario Vargas Llosa

Escritor

Papa Francisco

Líder religioso

Val Kilmer

Ator

MAIO:

Dorinha Durval

Atriz e assassina

José Mujica

Político ex-presidente Uruguai

Maria Lúcia Godoy

Cantora lírica

Nana Caymmi

Cantora

Sebastião Salgado

Fotógrafo

JUNHO:

Bira Presidente

Músico Fundo de Quintal

Brian Wilson

Músico Beach Boys

Francisco Cuoco

Ator

Frederick Forsyth

Escritor

Hélio Delmiro

Violonista

Lalo Schifrin

Compositor

Sly Stone

Músico Woodstock

JULHO:

Ozzy Osbourne

Cantor

Preta Gil

Cantora

Roberto Duailibi

Publicitário

AGOSTO:

Arlindo Cruz

Cantor

Íris Lettieri

Locutora

Jaguar

Cartunista

Jim Lovell

Astronauta

J. R. Guzzo

Jornalista

Luis Fernando Verissimo

Escritor

Terence Stamp

Ator

SETEMBRO:

Angela Ro Ro

Cantora

Berta Loran

Atriz

Célio Balona

Músico

Claudia Cardinale

Atriz

Giorgio Armani

Estilista

Hermeto Pascoal

Músico

Mino Carta

Jornalista

Robert Redford

Ator e cineasta

OUTUBRO:

Diane Keaton

Atriz

Jane Goodall

Primatologista

José de Paiva Netto

Líder religioso

NOVEMBRO

André Geraissati

 Instrumentista e compositor

Dick Cheney

Político

Jards Macalé

Músico

Jimmy Cliff

Músico

Lô Borges

Músico

Ornella Vanoni

Cantora

Stephen Kanitz

Economista

DEZEMBRO

Brigitte Bardot

Atriz

Bolão

O rei do spaguetti em BH

ELIANY APARECIDA

Amor da minha vida

Haroldo Costa

Ator e comentarista

Ieda Maria Vargas

Miss Universo 1963

Lindomar Castilho

Cantor

Teuda Bara

Atriz


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

NÃO QUERO FAZER FOFOCA, MAS...

 

Não quero fazer fofoca, mas hoje é o último dia para dowload gratuito do "Ela!", e-book que publiquei em homenagem à memória de uma mulher linda que durante 55 anos de convivência tentou me transformar em uma pessoa melhor (creio não ter tido muito sucesso nisso). 

O link é este:

https://www.amazon.com.br/dp/B0GCJX64JR

NÃO SEI SE CONSEGUIREI PARAR POR AQUI

Esta publicação encerra a série de lamentos, tristeza e desespero que fui publicando de forma obsessiva no blog. Preciso, tentarei seguir em frente.
 
Já não tenho a mesma sofreguidão de registrar obsessivamente toda a minha dor e revolta por ter perdido a mulher da minha vida, embora não possa afirmar que esse impulso tenha desaparecido por completo. Como diz o clichê, só o tempo dirá  porque a dor e a saudade permanecem.
 



segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

MEU SOLITÁRIO CAMINHO

 
Hoje estou sozinho em minha casa. Soa estranho falar “minha casa”, pois é impossível  não sentir a presença quase palpável do meu Amor nesta casa, que é e sempre foi dela.
 
A Eliany nasceu dentro desta casa, com auxílio de parteira, e foi motivo máximo de alegria para ela poder comprá-la. Eu nunca me senti dono deste imóvel, pois, para mim, esta casa sempre foi dela. Cada uma das “quinhentas” reformas que decidiu fazer sempre contou com meu apoio, mesmo que esperneasse no início. Como quando resolveu fazer a reforma “definitiva” que tanto a encheu de orgulho e alegria. 
 
Cada detalhe, cada acabamento sempre surgiram em sua cabeça. Depois, a ação do tempo danificou pinturas, trincou paredes, estragou pisos e ela sempre sonhou em utilizar a sua parte na herança deixada por sua mãe para pintar nossa casa e mais alguma reforma maluca que conseguisse pagar. Infelizmente, não teve tempo para esperar a chegada desse dinheiro.
 
Por isso, em homenagem à sua inesquecível memória, deixei claro para meus filhos que esta casa continuará a ser da Eliany, sempre da Eliany, até eu morrer. Partilhas, doações, o que se quiser fazer sobre seu valor material não mudarão seu aspecto afetivo: esta casa é da Eliany.
 
Estava pensando nisso, quando resolvi assistir pela oitava ou décima vez o concerto realizado em 2002 em homenagem ao George Harrison. Que show!
 
Mas aí começou a bater uma melancolia surgida pelo fato de vários músicos que se apresentaram já terem morrido. E fiquei imaginando como deve ser triste o fim de vida desses grandes artistas ao lembrar do seu tempo de juventude e glória.
 
Sem perceber, talvez a melancolia que sentia estivesse também relacionada à lembrança de um tempo em que eu era feliz e nem me dava conta disso, sempre envolvido com a rotina do dia a dia.
 
Estava assim distraído quando o documentário chegou no ponto mais bonito e emocionante do show, encerrado com uma lindíssima música composta em 1924. Prestando atenção na letra que já conhecia, comecei a chorar, pois parecia ter sido escrita para mim e para ELA, minha doce Eliany. Aí resolvi transformar tudo isso em novo post, com a letra em inglês e a apresentação que me derrubou. Olhaí.

 

Lonely days are long

Dias solitários são longos

Twilight sings this song

O crepúsculo canta esta canção

Of the happiness that use to be

Sobre a felicidade que costumava existir

Soon my eyes will close

Logo meus olhos se fecharão

Soon I'll find repose

Logo encontrarei descanso

And in dreams you're always near to me

E nos sonhos você está sempre perto de mim

I'll see you in my dreams

Eu te verei em meus sonhos

hold you in my dreams

Te abraçarei em meus sonhos

Someone took you right out of my arms

Alguém te tirou dos meus braços

Still I feel the thrill of your charms

Ainda sinto o encanto do seu fascínio

Lips that once were mine

Lábios que um dia foram meus

Tender eyes that shine

Olhos ternos que brilham

They will light my lonely way tonight

Eles iluminarão meu solitário caminho esta noite

I'll see you in my dreams

Eu te verei em meus sonhos

 

https://www.youtube.com/watch?v=CTWI28r5-ag

domingo, 28 de dezembro de 2025

OS PRESENTES DELA

 
Creio que uma das coisas de que a Eliany mais gostava era dar presentes.
 
Uma vez, quando os meninos ainda eram pequenos e o Natal era celebrado ruidosa e alegremente na casa da minha sogra, ela chegou ao paroxismo de comprar setenta presentes, gastando para isso todo o 13º salário e mais um pouco do salário normal do mês. E eu ganhava bem!
 
Mas o que ela mais gostava era de dar presentes diferenciados, únicos, para pessoas especiais. Nessa linha estão almofadas personalizadas com o rosto da pessoa presenteada, bandejas de mdf pintadas a mão e decoradas por ela, almofadinhas para alfinete, coisas desse tipo, artesanato feito com carinho e cuidado.
 
 
PIZZA DE MADEIRA
Um desses presentes eram discos de madeira para servir de enfeite ou “tábua de corte” – obtidos da serra de árvores, que ela lixava, envernizava e onde às vezes aplicava o retrato de quem receberia o presente, Para obtê-los em estado ainda bruto, íamos a São José da Lapa, cidade da região metropolitana de BH, onde morava o “Nem da Motoserra”, funcionário da prefeitura local e sempre procurado para fazer limpeza de lotes e remoção de árvores caídas. Com esses troncos fazia móveis rústicos e bancadas, além dessas “pizzas” de madeira.
 
 
O LADRILHO HIDRÁULICO
Durante uma mega reforma feita em nossa casa, algumas questões precisaram ser resolvidas. E a Eliany fez isso de forma brilhante. E essa é a história contada por ela em carta endereçada aos irmãos e filhos:
 
Meus queridos irmãos e filhos,
 
Quando o Gustavo e o Fabinho eram bem pequenos, o papai costumava vir sempre aqui para brincar com eles e conversar comigo.
Numas dessas vindas, ficou recortando alguns papéis, como era seu costume. Ele abriu dois recortes, dizendo que dariam lindos azulejos. Eu os guardei por mais de 30 anos.
Fiz um sótão na minha casa, aproveitei umas tábuas corridas que eram do antigo barracão e estavam guardadas há mais de 34 anos.
Como faltaram algumas tábuas, resolvi que o piso combinaria bem com ladrilhos hidráulicos.
Fui a uma fábrica e encantei-me com a variedade. Fiquei de voltar outro dia para encomendar a quantidade exata.
O dono da fábrica disse que poderia fazer o desenho que eu quisesse, só que teria que pagar o molde, que é um pouco caro. 
Durante a noite estava pensando nos ladrilhos e lembrei-me dos recortes do papai. Pensei, por que não homenageá-lo?
Já estávamos chamando o sótão de “Cantinho do Neca”, então...
Tirei vários xerox dos recortes e colori.
Usei a cor vermelha para simbolizar o amor e a azul para lembrar os lindos olhos do papai.
O Daniel fotografou, passou para o computador e fez a “arte final”.
Exatamente no dia 11 de março de 2010, dia do centenário do nascimento do papai, voltei à fábrica para encomendar o ladrilho pois queria homenageá-lo naquele dia específico.
O rapaz estava ocupado e fiquei conversando com a irmã dele, falando sobre o papai. O rádio estava ligado mas não havia prestado atenção nas músicas.
Ela se levantou e eu fiquei lembrando dele. De repente começou a tomar tocar a música do Ed Motta “Manuel foi pro céu...”
Fiquei muito emocionada, senti que ele estava feliz com a minha homenagem: a concretização do seu recorte.
A moça retornou e viu que eu estava bastante emocionada. Falei para ela sobre a música que estava tocando, disse-lhe que o nome do meu pai era Manuel.
Ela falou que ele deveria estar por perto e eu disse-lhe que tinha certeza, que ele estava ao meu lado.
Fiz o ladrilho. Ele ficou tão lindo, que resolvi dá-lo de recordação para cada um de vocês.
Desejo que essa lembrança signifique o carinho, a dedicação, o exemplo, o sacrifício, a risada, o sorriso, a religiosidade, a braveza, a gentileza, a humildade, o acolhimento e tudo, tudo que ele significava e significa para todos nós.
Com todo o meu carinho,
Eliany
Natal de 2010

imagem da carta escrita por ela

imagem dos ladrilhos já aplicados no piso




sábado, 27 de dezembro de 2025

PANDA ROLETA PANDEPI

 
Eliany, minha adorada Eliane, sempre gostou de comemorar aniversários especiais de sua mãe e irmãs, momentos em que saía coletando mensagens de amigos e parentes, que depois reunia em um caderno de capa dura e letras douradas, confeccionado especialmente para a ocasião. Fotos, textos, mensagens, lembranças, tudo era reunido nesse caderno e entregue no dia da festa para a felizarda que o mereceu.
 
Assim foi no aniversário de 50 anos de uma das irmãs. O título impresso na capa foi “A Festa de Bebeth”, uma brincadeira com o título do filme A Festa de Babette”. Além desse presente diferenciado, escreveu 20 páginas a mão, em papel ofício, relembrando flashs da vida da aniversariante, mesmo que muitas vezes só as pessoas muito próximas conseguissem entender de que se tratava. Esse texto fez tanto sucesso ao ser lido no dia da festa que resolvi preservá-lo em arquivo Word. A digitação rendeu seis páginas em arial 12.
 
Sempre quis publicá-lo no blog, mas nunca pedi sua autorização para torná-lo público. Agora, em homenagem à mulher com memória de elefante que o escreveu, linda, espirituosa, generosa, adorável como foi, resolvi publicá-lo. Este é o presente de Natal que deixo para quem acessa o blog. Espero que gostem.
 
 
 
“Feliz daquele que atravessa a vida inteira tendo mil razões para viver”
 
Não podemos fazer voltar o tempo, mas é através de lembranças, fotos, filmes e relatos de parentes e pessoas amigas que o passado se torna presente.
 
A idealização dessa obra tem a pretensão de unir o passado ao presente, permitindo que as pessoas amigas registrem suas lembranças, casos, brincadeiras e acontecimentos que, muitas vezes, ficam escondidos no fundo da nossa memória.
 
Parabéns, com todo carinho,
28 de janeiro de 2002
 
 
Bebeth,
Começar tudo de novo, do zero, para ver se a gente dessa vez dá certo. Muitos de nós sonhamos com uma segunda chance, poder voltar atrás, consertar muitas coisas, mudar outras, fazer outras tantas que nos arrependemos de não tê-las feito.
Ah! Poder voltar no tempo, corrigir nossas gafes, revisar nossas vidas, nossos erros...
Mas só nos resta lamentar as escolhas erradas e agradecer a Deus pelos acertos.
Cinquenta anos! Vem-me à lembrança a nossa infância e juventude. Pessoas que foram tão importantes e marcantes em nossas vidas e muitas que já não estão mais neste mundo.
Quantos parentes e amigos foram se perdendo no afã do dia a dia, e que adoraríamos encontrá-los!
Que saudade danada dos jogos e brincadeiras de infância! – finca, bolinhas de gude, soltar papagaio com manivela, brincar de casinha, pular maré com casca de banana, papão, meadinha, bem-te-altas, varetas, pular corda, jogar bola na parede recitando: “Primeiro, seu lugar, sem rir, sem falar...”, três marias jogadas com as 5 almofadinhas recheadas com areia, chicotinho queimado, “Mamãezinha, posso ir? Quantos passos?”, jogar burro em pé, fedô, escopa. E o pegador? Panda roleta pandepi... Pudi?
 
A liberdade de poder brincar na rua sem temer nada a não ser as ciganas. O guarda noturno com seu apito e uniforme azul, nos permitia dormir em segurança, livres dos ladrões de galinha.
Pessoas pululam em minha mente: professor Mota louco com as pedras jogadas no poste, o Mirote e a Maria com suas panelas brilhantes, a D. Ruth e seu tricô, o Sr. Geraldo com seu canivete e o fumo de rolo, o Marcos e o Quincas que deveria casar comigo e receber em troca um fogão de querosene e o barracão, eu morria de ódio e ele também.
As portas das casas não fechavam, os vizinhos eram amigos e solidários, lembra?
A discreta Magali e o correto Otaviano. A prestativa D. Zélia. O Sr. Neném com seu estúdio de fotografias, D. Mocinha, Sônia, Zenilda, Rubinho, Zely, Silméia.
A Marly e a Lucy, o Arlindo (Lindão), o Sr. Geraldo e sua mobília de boneca.
O Carlinhos estourando a mão com foguetes. Tantas lembranças...
A queda do Edson no barril de cal, tendo que ficar de molho na banheira cheia de leite, com medo de abrir os olhos, pois à sua volta todos diziam que ele estava cego. Só no dia seguinte, ao acordar, viu que enxergava e muito bem.
O Taco querendo pular debaixo do bonde só para não dar pontos na cabeça. A mamãe com seus beliscões e tamancadas, o olhar congelante do papai.
A congestão da Nice, ela sempre engolia chicletes, tampinhas de remédio e corria a chorar.
A disputa dos meninos da rua para tê-la jogando em seu time.
A Erê correndo pela rua com suas calças de bolinhas, shorts de bolinhas, blusas de bolinhas, pijamas de bolinhas, vestidinhos de bolinhas, pois você comprou uma infinidade de tecido com o mesmo padrão com dinheiro que o Tio Tunico deu pra ela; parecia uma Brotoeja.
O Du vestido de menininha, com uma fralda na cabeça, a gente achava que convencíamos a Sônia e a Zenilda, que ele era nossa prima.
O Élcio com suas eternas brigas de rua, o Joãozinho e seu carrinho de Yakult.
O meu excesso de capricho, com as roupas arrumadas, religiosamente em ordem de cor, tamanho, etc. e se uma das irmãs tocassem era logo descoberta.
A Tia Jandira, o Tio Marcelo que pingava wisky no nosso guaraná – ficava horrível – a Lizete e seus bebês gigantes, que torturavam nossos bracinhos.
As mangas, os jambos, os jatobás do campinho, as jabuticabas do tio Tunico, as fofoqueiras Ruth e Isabel, a ternura de D. Rita e da Joana Célia. Já
A D. Efigênia e suas benzeções. A Imaculada e a Didi queimando nossas orelhas com ferro de cachear cabelos. Como eram gostosos os almoços de domingo que elas preparavam: maionese com kitute e arroz de forno.
D. Elvira e a sua filharada, tendo de quebra o Wilson Falador, a Beta com sua doçura, a mimada Sandra, a Ieda e seu eterno namorado Marcinho.
A Albertina e suas macumbas.
A D. Eudóxia com seus barracões e insuportáveis netos – Oldack e Liu.
A fineza da Deca, a doçura da Maria Luiza, o choro da Luiza assistindo Love Story.
O doutor Gouveia, a D Ilda, a D. Rosina com seus sapatinhos altos, o Zé Japonês...
A Gracinha da D. Neide, D. Gilca, Martinha e o Márcio.
D. Guiomar gritando Tiiiita, D. Celina e suas intermináveis aulas de canto: óóóóóó, óóóóóó...
Os discos do Oscarzinho, D. Maria, a Dindinha com seus bordados, a Odete que bebia álcool, os passeios na moto com barquinho.
Que delícia os tronquinhos e as balas pingo do bar do Sr. Manoel, comprados com as moedas doadas pela vovó Carmelita.
Ah! Que amor de vovó, tão meiga, sempre carinhosa. O vovô Joãozinho e sua úlcera.
O dia dos pais na Serra da Piedade, o ônibus só de Cardosos.
O medo e o respeito pelos tios paternos, o eterno beija-mãos e o pedido: Bença!
O Juquinha buscando o almoço, os bilhetinhos pro papai, na marmita.
Os almoços domingueiros na casa da vovó ou na casa da tia Lilita, onde tínhamos de lavar aquela panelada, morrendo de medo do tio Francisco querer cortar nossos cabelos.
O papai subindo a rua assobiando e com as mãos para trás. A sua batida com a aliança, na porta, avisando de sua chegada.
O perfume do pão com molho do José Bonifácio, comprado com a nota azul e amarelo de Cr$2,00.
O sanduíche da Praça Sete que o papai comprava na volta da casa da vovó.
As brigas da meninada, a espera no portão, pela volta do papai do trabalho, às 16 horas, de banho tomado e cabelo penteado.
A feira domingueira, a Quitanda do Antônio, a da D. Maria rouca.
Os padres com suas batinas e seus santinhos, as confissões de sábado, a missa dos jovens, as procissões de madrugada, o papai nos buscando para percorremos as ruas enfeitadas, vestidas com nossos lindos casaquinhos de lã.
As matinês de domingo e os picolés de groselha. O picolé de Toddy da Universal, as compras de mantimentos no armazém da Floresta, no Armazém do Sr. Joaquim ou no Fuad.
Os cortes de cabelo na Lia. Os domingos no Sesc.
Ai, que saudade dolorida: a Hora do Brasil, as novelas do rádio embalavam as brincadeiras do papai - Escravo de Jó, “olha o buraquinho que eu tenho no rosto...”, as mãozinhas e as maçãs do rosto arranhadas pelo roçar carinhoso da barba por fazer do papai.
A amizade da Fátima, da Eliane, da Kryôla e suas irmãs, da Soninha, da Meire, das discretas Ida e Ilma.
O carnaval na pracinha ou no clube dos 50, a lança-perfume, as máscaras de plástico transparente e veludinho na borda. As fantasias de gatinho das moças, as de diabo, palhaço...
As Horas Dançantes, a turma da padaria, as festas e a piscina do Oasis.
A obrigação de rezar o terço todo dia, acompanhando a Nossa Senhora visitando as casas e segurando para não rir do: “Sogai por nós”.
Que vontade de comer os bolinhos de gude da mamãe, tão gostosos!
O café com leite com a pitadinha de sal, o pão de 2 kg da Padaria do Sr. Afonso.
A alegria de correr pra rua no dia de Natal para mostrar os brinquedos. A castanha portuguesa, o vinho com água e açúcar.
A folia do nosso quarto, onde era um entra e sai constante, de pessoas de idade variada – Deborah, Claudinha, pinçando as sobrancelhas, Claudão, Rose, Ivana, Márcia e Bel com suas cantorias, a Ângela Peituda, o Márcio...
A Zezé tomando as pingas do papai...
O pombal, o galinheiro, os coelhos, o porquinho da índia, o Bob...
O 1º de Maio na Central, o 12 de outubro com os três apitando, o pipocar dos foguetes ao meio-dia e a rádio Aparecida transmitindo a benção. A Hora do Angelus.
A mamãe cantando 13 de Maio, Mãezinha do Céu e contando histórias bíblicas, nos enchendo de encantamento e fé. O temor do “Olho de Deus”.
As histórias da assombração, o defunto que puxaria nossa perna.
Uma simples toalha de banho jogada nos ombros nos transformava em aeromoças, desbravadoras dos céus.
Os banhos na banheira, cujos pés nos assombravam, o cheirinho do Lysoforme, o sabonete “Vale quanto pesa”.
A farmácia do Sr. Dimas, o açougue do Luciano, a loja do Sr. Virgílio...
Os quadros de santos da mamãe: N. Sra. da Conceição rodeada de anjinhos, N. Sra. do Perpétuo Socorro, Santa Ceia, o protetor Anjo da Guarda.
E o medo que a mamãe tinha de tempestade, ela percorria a casa toda queimando palha-benta e entoando a Ave-Maria, Os espelhos tampados, as tesouras escondidas, a proibição de pronunciar RAIO, pois poderia atraí-lo.
Os dias chuvosos presas dentro de casa, a água da chuva colhida nos barris. Quando estiava corríamos para jogar finca, bolinha de gude na terra molhada e úmida. A Sandra nos matava de inveja com suas galochinhas brancas.
O bambolê, o chiclé de bolas.
As serenatas espiadas por detrás das venezianas das janelas.
As brincadeiras de sentar nas cadeiras, tampadas com pano, para ver quem caía ao sentar na que não continha assento.
O leite comprado na vaquinha ou em garrafinhas de vidro que tinham uma tampinha de alumínio e eram guardadas para serem transformadas em panelas.
Os bibelôs e paninhos de crochê da mamãe, os bouquets de gipsis comprados semanalmente para adornar as jarras com passarinhos encrustados.
O óleo de peroba lustrava os móveis e o escovão dava brilho no assoalho, que canseira!
As brincadeiras dentro da cristaleira da mamãe, as louças quebradas, as fotos do álbum rasgadas, rabiscadas pelos menorzinhos.
A brincadeira de quatro cantos no alpendre. As bonequinhas de papel dobrado, formando fileirinha, as bonecas de papel de bala, os bichinhos feitos com batata ou jiló e palitos.
O leite de rosas da mamãe, o seu casaco verde furta-cor.
Sempre usado quando ela esperava a “cegonha”. A parteira D. Palmira que sempre que aparecia em nossa casa, um novo bebê também chegava, mas a gente nunca estava em casa, por que?
No dia seguinte a vovó enviava uma lista com nomes começados com E.
E os joguinhos de cozinha de plástico, que eu confeccionava com preguinhas mimosas e moranguinhos de espuma.
Sentiu o cheirinho da Cola-Tudo?
As bonecas “preguiçosa”, aprendidas com tia Tereza, eram lindas!
Os móveis de casamento da Lizete ficaram guardados num quarto que estava vazio e o papai limpava frequentemente por causa de baratas. Lembra que uma noite os meninos ficaram jogando linha preta embolada na Renilde e que de madrugada a família foi acordada com os berros dela dizendo que tinha uma barata no seu olho e não os abria de jeito nenhum.
A vergonha que a mamãe tinha de ir ao Hospital Infantil, pois todo dia tinha que levar um para costurar a cabeça, o joelho, o braço...
A Celuta que quebrou o dente da Renilde no poste, quando brincavam Cabra-Cega. A Petrina que andava ajoelhada, o Pedrinho abobado, a D. Chiquita fedendo a fogão de lenha, a Conceição...
A Vanilda que roubava nossas calcinhas.
O pão com salame que o Zé baiano cortava bem fininho.
A fogosa Helena que dava em cima da rapaziada.
A cama do papai e da mamãe com o colchão forrado de couro, tinha as travessas seguras por placas de ferro, pois a meninada da rua ficava pulando, lutando boxe, o dia todo.
O jogo de pingue-pongue na mesa da sala e mais tarde no quintal, em mesa oficial.
A Lizete estourando pipocas na língua das fofoqueiras: - Estoura pipoca na língua da Clarinha...
A cruzadinha, a Legião de Maria, os piqueniques com os padres...
Os pijaminhas de flanela, o crochê, o tricô, os pontos de bordados que só tinham interesse quando começados.
Ah! Quantos vestidinhos lindos tivemos, confeccionados pelas mãos habilidosas da mamãe, de quem herdei o gosto pela costura.
E o Cadinho, irmão do Lilico, que roubava a caderneta da padaria para comprar guloseimas para os seus namoradinhos.
As lindas bonecas de porcelana, ganhas no Natal e destruídas pelo Edson no dia seguinte, só para tirar a mola de choro.
Todo sábado o papai engraxava os sapatos da família e soldava alças nas latas, transformando-as em canecas.
O gostinho da água da bilha, o fogão de lenha, as canecas de esmalte, o bule verde.
A pasta escolar era dividida entre quem estudava de manhã e quem estudava à tarde.
E os sapatos com sola de pneu para durar mais, as biqueirinhas de metal. E os lindos sapatinhos com coleirinha e fechados por botãozinho de bolinha?
As alpargatas, os chinelinhos de corda, os tamanquinhos comprados no Sr. Joaquim.
O cine grátis da Pracinha e da casa do Zé japonês.
A D. Ritoca só nos deixava assistir o Jornal Esso na sua casa, depois tocava a meninada.
Os blocos caricatos, os desfiles na Afonso Pena.
As saias plissadas os conjuntos Ban-lon, as blusas de cashemere da Argentina, as calças jeans importadas Lee e Lewis.
As preces para Santa Rita feitas pela Tilinha, alma boa que nos levava para assistir filmes, nos cinemas em que seu irmão era porteiro.
E o papai com túnica branca e capuz participando do descimento da cruz, na 6ª feira da paixão.
O Sr. Colô e a sua filharada.
A invencibilidade do papai na queda de braço.
A D. Dalva sempre prestativa com seu telefone, o Zé Wilmer que desmaiava à toa.
O bêbado Afonso cantando: “Lili vem cá, você é meu amor...”
E a trilha sonora:
- Quem quiser comprar eu vendo...
- Não põe a mão no buraco de tatu...
- Aurisverdes manhã purpurinas...
- Cantando encontrei, cantando...
- Cinquenta e dois, cinquenta e dois...
As peças teatrais no Teatro Ideal.
As minhas intermináveis dores de ouvido e garganta.
Acordar ouvindo o canto dos pássaros do papai.
A sua dor de cabeça noturna e nos casamentos era só você entrar no carro de praça (táxi) que passava mal.
Adorava os papéis de embrulho que a mamãe recortava, habilidosamente, para enfeitar as prateleiras.
Toda tarde mamãe nos obrigava deitar e nos embalava com cantigas criadas por ela:
“Nossa Senhora da Conceição...
Dai saúde ao Eustaquinho...”
e falava o nome de todos os filhos, o mesmo acontecia com:
“Eu tenho tantos filhinhos...
Que são muito bonitinhos
O primeiro é o Eustaquinho...”
E a tristeza que dava quando cantava:
“Eu vou morrer
Os bichinhos vão me comer...”
Brincar de passar-anel, beijo-abraço-passeio...
O açúcar, os ovos pedidos emprestados aos vizinhos.
Era só nascer um bebê na rua, que você arrumava barraca na casa; dava banho nos bebês, mamadeiras, papinhas; que o diga a Lourdes a quem você ajudou a criar a Kátia e Cássia.
Como esquecer o barulho que ecoava na rua:
- Tarárárá, ah! o bicôto.
- Ôôôôôô, aleluia! (Aaaamendoim)
A matraca do biju, do algodão doce.
As anáguas engomadas, as meinhas brancas, os laços de fita no cabelo, os terninhos azul-marinho do Taco e do Edson, os topetinhos...
A choradeira do Du, Élcio e João ao cortar cabelo no Cabeludo, o corte Príncipe Danilo ou Meia-Cabeleira.
Os velórios nas casas de vizinhos e parentes.
A cartilha da Lili os livros As mais Histórias e Admissão no Ginásio.
Os lápis bicolores que o papai trazia e os apontava bem fininho.
Suas vindas diárias à minha casa, para dar banho no Gustavo e levá-lo para casa da Kryola.
E os exercícios de casa, ou melhor: Para Casa, teria que escrever no alto da página: “Deus me vê”.
Beth, ao escrever essa mensagem eu revivi momentos tão felizes que não seria insensato dizer: Eu era feliz e não sabia! Chorei ao relembrar pessoas tão queridas que já se foram, principalmente o papai.
O tempo passou, muitos amigos chegaram, outros partiram, muitas viagens, mudanças, mas permanece o carinho e a admiração que eu tenho por você; admiração por sua cultura e generosidade
É muito gratificante ter você como irmã e parceira dessa caminhada.
Partilhamos momentos difíceis, tristes, mas também muita alegria.
Agradeço a Deus por ter nos dado essa família, com pais tão generosos, religiosos, amigos e honestos.
Pertencemos a uma família com algumas desavenças, mas com muita união e solidariedade entre seus membros.
Receba todo o meu carinho e afeto.
Parabéns
Eliany
 
 

TAKE THE “A' TRAIN” – THE DELTA RHYTHM BOYS

  Algumas músicas me fascinam tanto que eu acabo por procurar novos arranjos, novas versões, novos intérpretes. Take the “A” Train é uma de...