terça-feira, 13 de janeiro de 2026

SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA

Tenho tentado publicar textos provocadores ou divertidos, para espantar a saudade que não acaba, mas hoje estou com síndrome de abstinência. Como estou sentindo sua falta, Lily!

Como já contei aqui no blog, nunca consegui memorizar o número do meu celular, problema resolvido com um pedaço de fita crepe colado nas costas do aparelho, onde anotei o diabo do número. Para aproveitar o aparelho e o número do celular que era dela (que eu memorizei), fiz uma limpa nas milhares de fotos e imagens que ia acumulando, um trabalho que resultou no descarte de quase 4.000 arquivos.
 
Ela tinha um comportamento de esponja e arquivava tudo o que recebia: imagens e gravuras encharcadas de carinho, mensagens fofinhas, fotos de filhos, netas, irmãos, primos e de todas as pessoas que conhecia. O que sei é que rever sua imagem sempre linda e sorridente me deixou de bode (usando uma gíria antiga), triste e com a sensação de que viver não vale mais a pena. Pior ainda foi descobrir um vídeo de 2022 que ela fez para duas netinhas por ocasião de seu aniversário de três anos, se não me engano. Vê-la e ouvir sua voz novamente teve o efeito de um soco na cara, me nocauteou. Ah, Lily!
 
Se eu puxar a genética da família de minha mãe corro o risco de precisar suportar viver até os noventa anos ou pouco menos. Olha que chatice isso significa sem ela ao meu lado! Como cantaram os Titãs, “não vou me adaptar”.
 
Estava nessa tristeza quando a consciência foi invadida por um pensamento bizarro e inesperado: talvez seja melhor nunca ter relacionamentos de longa duração, talvez o melhor seja promover a separação ainda em vida (claro, né?), para que a dor provocada possa ser amortecida pela visão mesmo que fugaz do outro ou outra, pela notícia de que ela/ele está bem.
 
Talvez, quem sabe, até role uma pegada para matar a saudade, mas nunca, jamais, que a separação seja irreversível, provocada pela morte de um dos dois, pois isso dói demais. Claro que estou falando de um casal que se ama, bem o oposto dos feminicidas que matam por se acreditarem proprietários daquele corpo, daquela alma, daquela mente.
 
Então, esta é a teoria miojo de hoje: Você ama sua mulher, seu marido? Separe-se dele enquanto é tempo, para não sofrer a dor que sinto nem uma saudade que não se acaba.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

NO CONSULTÓRIO

 
Dois casos reais que meu filho ouviu de um antigo professor – tão bizarros que achei que não deviam ser esquecidos.
 
 
APRENDIZ
Era a última consulta agendada e o médico chama o paciente. Entra um homem se contorcendo todo, acompanhado de uma mulher. Segue o diálogo:
 
- O que o senhor está sentindo? Está com alguma dor?
- Não doutor, eu estou ensaiando para receber espírito no centro perto da minha casa.
 
Depois de examinado, o paciente recebeu a receita de um analgésico, talvez para aliviar a dor muscular causada pela contorsões provocadas.
 
 
PAGOU A CONSULTA?
O paciente entra no consultório. Após os cumprimentos de praxe, o médico pergunta:
 
- Em que posso ajudar o senhor?
- Eu não vim aqui para me consultar, eu vim para divulgar a palavra de Deus.
 
Depois da surpresa, a reação do médico foi hilária:
 
- Passou a carteirinha na recepção?
- Passei.
- Ok, você tem direito a quinze minutos. Fique à vontade
 
E enquanto o “pregador” pregava, o médico ficou jogando “paciência” no celular.

 

domingo, 11 de janeiro de 2026

SIM - "ELA"

 
Há alguns anos, remexendo em uma caixa cheia de papeis antigos, minha mulher encontrou uma folha de caderno com algumas anotações rascunhadas. Nela, um poema escrito no início da década de 1970. Sem nenhum entusiasmo, entregou-me a folha e disse para rasgar e jogar fora depois que lesse – se eu quisesse ler. Não rasguei nem joguei fora, sentei-me em frente ao velho desktop e copiei os versos tratados com tanto desinteresse, já pensando em publicá-los no Blogson, pois gostei demais de sua aparente simplicidade (além disso, creio que o “ele” era eu). Como não havia um título, escolhi o que me pareceu mais coerente. E ela continuou com a identidade preservada. O tempo passou, eu a perdi e este post, originalmente publicado em 27/07/2022, ficou esquecido, guardado no blog como "Rascunho". Não ficará mais, será um testemunho de sentimentos que a fizeram repensar nosso relacionamento ainda no início do namoro. Como era linda!
 
 
Sim, amar é complicado
Sim, amar exige cuidados
Sim, amar é um dilema
Será que vale a pena?
 
Sim, amar é um perigo
Sim, se ele não é seu amigo
Sim, amar é perigoso
Se ele é enganoso
 
Você se dá, se entrega inteira
Ele acha isso besteira
Fingimento é um castigo
Você não sabe se isso é aquilo
 
Chega de besteira
Você é tão maneira
Se ele não está com nada
Você tem que estar centrada

 

 

sábado, 10 de janeiro de 2026

TRÍGAMO

 
Aviso às leitoras e leitores deste blog desconjuntado: este texto é humor confessional. Não é manual de conduta, nem pedido de absolvição.
 
Quem leu as postagens publicadas no mês passado, onde registrei toda a dor da perda da mulher da minha vida, poderá se assustar e ficar chocado, decepcionado, constrangido ou irritado ao ler este texto. Provavelmente mais ainda ficará se for moralista, carola, conservador ou pudico. Talvez até pense que eu menti ao expor a dor que sentia e ainda sinto por não ter mais ao meu lado a minha amada Lily. Mas espero que não seja tão preconceituoso, pois vou falar do que sempre senti e pensei.
 
Um dia, Leila Diniz – atriz já falecida e talvez a primeira musa da Banda de Ipanema – disse achar normal amar profundamente uma pessoa e ir para a cama com outra. Um comportamento pouco usual, provavelmente condenado pela maioria das pessoas, mesmo que desejado e fantasiado por muitos. Eu mesmo já tive esse desejo, por mais condenável que possa parecer.
 
A razão de dizer isso agora é ter perdido a mulher que amei a vida toda – fato que lembra o rompimento de uma barragem: nada permanece como era antes. Desde sua morte surgiu um desejo insuspeitado e avassalador de poder abraçar, acariciar e beijar um corpo feminino, de querer ter contato com a pele nua de uma mulher. Nunca pensei tanto em sexo como agora!
 
Talvez um dos motivos de todo esse tesão possa ser o fato de nunca mais, desde o descobrimento da doença, em março de 2023, ter tido relações sexuais com ela (nem com ninguém, pois sempre fui fisicamente fiel).
 
E o desejo de falar sobre isso agora tem também um efeito libertador: o de me mostrar como sempre fui, criado em uma família em que a maioria dos homens traía suas esposas. Eu nunca traí a minha – pelo menos, não fisicamente. Tudo aconteceu mais no terreno da fantasia sexual, no desejo reprimido (talvez mais por medo de ser descoberto). Um desejo platônico, eu diria. Mas nem por isso menos intenso ou perturbador.
 
Há um programa exibido em um canal de TV a cabo que mostra o dia a dia de uma família mórmon, formada por um homem e quatro esposas. Caraca! Como ele consegue dar conta de tudo? Como consegue atender a todas? Fico até imaginando o cronograma: segunda e terça-feira, esposas 1 e 2; quarta-feira, dia de dormir até mais tarde, de recompor as energias; quinta e sexta, esposas 3 e 4; sábado, dia de descanso, com muita gemada, catuaba e ovo de codorna; domingo, dia de assistir aos jogos de basquete ou futebol americano. E, à noite, talvez um filminho pornô para acabar com a monotonia. É, porque o cara tem de ter uma disposição de touro reprodutor e apetite sexual de coelho!
 
Por eu ser um cara bem menos que mediano, jamais teria energia suficiente para não decepcionar nem deixar na mão (sem insinuações maldosas, por favor) quatro parceiras. Apesar disso, eu sempre desejei ser bígamo, ou melhor, trígamo, pois meu sonho sempre foi me relacionar – ou ser casado – com três mulheres. Mas não de forma genérica, não fantasiosa. Cada uma das três existe ou existiu, tem CEP, GPS e fez ou faz parte da minha vida. Verdade!
 
Um dia, durante uma conversa em alguma festa, surgiu um assunto meio indigesto. Uma jovem extremamente atraente e gostosa perguntou qual mulher famosa eu achava mais linda. Inocentemente, respondi:
– Luisa Brunet.
 
E minha mulher, a mais ciumenta que já existiu, trucou na hora:
– Ah, é? Quer dizer então que você acha a Luisa Brunet linda? Bom saber!
 
Nunca mais pude admirar despreocupadamente a beleza e a gostosura dessa modelo, pois bastava ela aparecer em alguma revista ou programa de televisão para ouvir:
- Olha aí sua lindeza. Não sei o que você viu nela! Mulher horrorosa!
 
Tempos depois, em outra festa e aproveitando que minha mulher não estava por perto, a mesma jovem perguntou maliciosamente quais eram minhas fantasias sexuais, já provocando:
- Luisa Brunet?
 
Minha resposta foi que minhas fantasias sexuais eram pessoas reais de BH. Mal sabia a bisbilhoteira ser ela própria uma das minhas mais duradouras fantasias sexuais – com quem sonhei várias vezes, inclusive com direito a sonhos molhados. Mas nunca me atrevi a tentar um contato de terceiro grau com ela.
 
Pode parecer calhorda e muito machista o que vou dizer, mas meu sonho – mesmo sem ter “competência para me estabelecer” – seria ter três mulheres, numa trigamia afetiva: o amor da minha vida seria a principal, destinada a ser amada todos os dias e para sempre; a segunda seria uma antiga namorada, apenas para ficarmos de mãos dadas, namorando e falando besteirinhas; a terceira seria justamente a gostosa perguntadeira, só para fazermos o sexo mais selvagem possível. Ê, vidão!
 
Se você, cara leitora, está escandalizada por eu ter despido a minha fantasia de gentilhomem (mesmo mantendo a roupa de baixo), relaxe, pois, como dizia o Tavares, personagem canalha criado pelo Chico Anísio:
- “Sou, mas quem não é?”
 
Esta declaração – tão machista nos dias certinhos de hoje – é a prova de que podemos controlar o corpo, mas o cérebro é incontrolável, soberano em suas fantasias e desejos. E só pude fazê-la agora, sem correr o risco de magoar a minha para sempre amada ou de ter meu saco pendurado em um prego. Hoje, apesar de velhusca e bem arruinada, eu ainda encararia a gostosa de outros tempos. Sabe como é, fantasia sexual não tem data de validade!

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

BALÃO DE GÁS

Vivi 55 anos da minha vida ao lado da mulher que amava (e sempre amarei). Isso significa que passei toda a minha vida adulta ao lado dela, tempo em que fomos nos moldando e nos adaptando um ao outro, de tal forma que não consigo imaginar como eu seria hoje se nunca a tivesse conhecido. Provavelmente teria me casado com uma antiga namorada, talvez já estivesse divorciado, morando em outro estado ou país, tivesse ficado rico ou pobre de marré de si. Talvez alcoólatra, maconheiro ou monge budista, sei lá o quê!
 
Só sei uma coisa, perder a mulher da minha vida embaçou meu dia-a-dia e tirou minha vontade de viver, de continuar vivendo – apesar dos filhos, filhas e netas. Hoje eu acordo com uma enorme sensação de vazio, sem vontade ou ânimo para nada. Apesar disso, levanto-me e faço o que preciso fazer, mas tudo ficou irreal, irrelevante, sem sentido. Hoje eu me sinto tão inútil quanto um balão de gás que se esvaziou.
 
Leio as notícias nos portais que sempre acessei, irrito-me com os acontecimentos ou declarações de gente idiota, mas digo “foda-se!” mentalmente, pois nada mais tem importância para mim. Ou melhor, a escala de valores mudou. O que era relevante deixou de ser.
 
Saudade: tenho controlado sem maior esforço, consigo rir, falar asneiras e até me divertir. À noite, com os olhos já fechando de sono, beijo o terço que ela estava usando mais recentemente, digo “Boa noite, Amor!”, deito e durmo com a maior facilidade, quase instantaneamente. É uma sensação estranha de estar com alguém que não está mais aqui.
 
Agora estou envolvido na tarefa de desapegar e doar a imensa quantidade de objetos, livros, calçados, bolsas, roupas, vasilhas e até papéis e caixas de presente que ela insistia em guardar para futura reutilização. O resultado imediato desse mergulho foi encontrar uma pequena caixa da Mesbla, nunca utilizada. Para mim, um fissurado pela preservação da memória, essa embalagem antiga já seria o presente. Para quem não sabe, Mesbla é o nome de uma grande rede de lojas de departamentos, que faliu em 1999. 
 
Tentando organizar a suruba, fiz uma relação das doações pretendidas de forma quase didática, onde listei sapatos de salto alto e salto baixo, sandálias, chinelos e rasteirinhas, bolsas, cintos, blusas de frio e casacos, calças de malha e de tecido, bermudas, camisas e camisetas, camisolas e pijamas, saias, vestidos curtos e longos, roupas de uso doméstico, roupas para costurar, apertar ou modificar.
 
Vieram depois as joias e bijuterias diversas: colares, lenços, produtos variados para maquiagem, escovas elétricas, bolas de plástico para piscina infantil, peças de artesanato em mdf, uma máquina de tricô Lanofix e suas linhas, copos de vidro para milk-shake e banana split, embalagens para presente, tecidos diversos para costura, sacolas e papéis para reciclagem, livros, pratos, copos, panelas de aço inox, xícaras de café, pacotes de chá de vários sabores. etc. etc. etc.
 
Pela quantidade e diversidade dos ítens, pensei até em fazer um brechó ou bazar na garagem, mas fui dissuadido disso pelos filhos, preocupados com um portão convidativamente aberto, permitindo a entrada de desconhecidos em nossa casa. Apesar disso, muita coisa já foi doada.
 
Mas difícil mesmo é separar as roupas que ela usou. Comecei por esvaziar três das dezesseis gavetas do armário de onde minhas roupas foram expulsas para dar lugar às dela. Acumuladora em nível médio, recusava-se a se desfazer de roupas esquecidas há séculos nos cabides e gavetas, ou daquelas que não serviam mais ou, até mesmo, que estavam fora de moda. A dificuldade maior não é esvaziar as gavetas, mas rever e manusear roupas que ela usou nos últimos tempos. Lembrar-me dela, tão linda, usando uma dessas faz minha garganta se fechar e os olhos arderem.
 
Não tenho a intenção de apagar sua memória entranhada nessas roupas e objetos, apenas de dar nova destinação ao que não será mais usado. Depois de tudo separado e doado, os armários utilizados por ela ficarão vazios – mas nada comparado ao vazio que sinto por dentro.
 
 
 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

TRIGÉSIMO DIA

 
Hoje completa-se o trigésimo dia do falecimento da minha amada Eliany. Consegui falar com o Padre Leonardo, o mesmo que, há cinquenta anos, abençoou o nosso casamento. Muito idoso agora, caminhando com a ajuda de um andador, ainda assim se dispôs a celebrar a missa de 30º dia na Capela dos Crúzios, na Rua Eurita. Contou-me que o espaço é pequeno, acolhendo apenas um grupo de vinte pessoas.
 
Disse também que eu poderia escolher outra igreja, pois abriria uma exceção para mim. Apenas não a de Santa Tereza, “porque aquele padre é louco”.
 
Ri do comentário – que endosso – e expliquei que, para mim, o simbolismo de sua presença em dois dos momentos mais importantes da minha vida bastava. Seria o suficiente.
 
Escolhi, então, as pessoas mais ligadas à minha mulher e fiz a cada uma um convite pessoal. Para não causar estranheza entre amigos e parentes que não estarão presentes, marquei também uma missa para amanhã, na Igreja de Santa Tereza, provavelmente celebrada pelo “padre louco”.
 
E eu, um “católico-ateu” ou “ateu-católico”, estarei nas duas, recebendo os cumprimentos de quem vier.
 
Olha o Padre Leonardo aí. E nós.



 

QUERIA TANTO TE VER!

Tudo o que eu queria dizer já foi dito. Tudo o que pensei escrever está escrito. E mesmo que pareça ter trocado O dito pelo não dito, nada t...