quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA
Tenho tentado publicar textos provocadores ou
divertidos, para espantar a saudade que não acaba, mas hoje estou com síndrome
de abstinência. Como estou sentindo sua falta, Lily!
Como já contei aqui no blog, nunca consegui memorizar o número do meu celular, problema resolvido com um pedaço de fita crepe colado nas costas do aparelho, onde anotei o diabo do número. Para aproveitar o aparelho e o número do celular que era dela (que eu memorizei), fiz uma limpa nas milhares de fotos e imagens que ia
acumulando, um trabalho que resultou no descarte de quase 4.000 arquivos.
Ela tinha um comportamento de esponja e arquivava tudo o que recebia: imagens e gravuras encharcadas de carinho, mensagens fofinhas, fotos de filhos, netas, irmãos, primos e de todas as pessoas que conhecia. O que sei é que rever sua imagem sempre linda e sorridente me deixou de bode (usando uma gíria antiga), triste e com a sensação de que viver não vale mais a pena. Pior ainda foi descobrir um vídeo de 2022 que ela fez para duas netinhas por ocasião de seu aniversário de três anos, se não me engano. Vê-la e ouvir sua voz novamente teve o efeito de um soco na cara, me nocauteou. Ah, Lily!
Ela tinha um comportamento de esponja e arquivava tudo o que recebia: imagens e gravuras encharcadas de carinho, mensagens fofinhas, fotos de filhos, netas, irmãos, primos e de todas as pessoas que conhecia. O que sei é que rever sua imagem sempre linda e sorridente me deixou de bode (usando uma gíria antiga), triste e com a sensação de que viver não vale mais a pena. Pior ainda foi descobrir um vídeo de 2022 que ela fez para duas netinhas por ocasião de seu aniversário de três anos, se não me engano. Vê-la e ouvir sua voz novamente teve o efeito de um soco na cara, me nocauteou. Ah, Lily!
Se eu puxar a genética da família de minha mãe corro o risco de precisar suportar viver até os noventa anos ou pouco menos. Olha que chatice isso significa sem ela ao meu lado! Como cantaram os Titãs, “não vou me adaptar”.
Estava nessa tristeza quando a consciência foi invadida por um pensamento bizarro e inesperado: talvez seja melhor nunca ter relacionamentos de longa duração, talvez o melhor seja promover a separação ainda em vida (claro, né?), para que a dor provocada possa ser amortecida pela visão mesmo que fugaz do outro ou outra, pela notícia de que ela/ele está bem.
Talvez, quem sabe, até role uma pegada para matar a saudade, mas nunca, jamais, que a separação seja irreversível, provocada pela morte de um dos dois, pois isso dói demais. Claro que estou falando de um casal que se ama, bem o oposto dos feminicidas que matam por se acreditarem proprietários daquele corpo, daquela alma, daquela mente.
Então, esta é a teoria miojo de hoje: Você ama sua mulher, seu marido? Separe-se dele enquanto é tempo, para não sofrer a dor que sinto nem uma saudade que não se acaba.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
NO CONSULTÓRIO
Era a última consulta agendada e o médico chama o paciente. Entra um homem se contorcendo todo, acompanhado de uma mulher. Segue o diálogo:
- Não doutor, eu estou ensaiando para receber espírito no centro perto da minha casa.
O paciente entra no consultório. Após os cumprimentos de praxe, o médico pergunta:
- Eu não vim aqui para me consultar, eu vim para divulgar a palavra de Deus.
- Passei.
- Ok, você tem direito a quinze minutos. Fique à vontade
domingo, 11 de janeiro de 2026
SIM - "ELA"
Há alguns anos, remexendo em uma caixa cheia de papeis antigos, minha mulher encontrou uma folha de caderno com algumas anotações rascunhadas. Nela, um poema escrito no início da década de 1970. Sem nenhum entusiasmo, entregou-me a folha e disse para rasgar e jogar fora depois que lesse – se eu quisesse ler. Não rasguei nem joguei fora, sentei-me em frente ao velho desktop e copiei os versos tratados com tanto desinteresse, já pensando em publicá-los no Blogson, pois gostei demais de sua aparente simplicidade (além disso, creio que o “ele” era eu). Como não havia um título, escolhi o que me pareceu mais coerente. E ela continuou com a identidade preservada. O tempo passou, eu a perdi e este post, originalmente publicado em 27/07/2022, ficou esquecido, guardado no blog como "Rascunho". Não ficará mais, será um testemunho de sentimentos que a fizeram repensar nosso relacionamento ainda no início do namoro. Como era linda!
Sim, amar exige cuidados
Sim, amar é um dilema
Será que vale a pena?
Sim, se ele não é seu amigo
Sim, amar é perigoso
Se ele é enganoso
Ele acha isso besteira
Fingimento é um castigo
Você não sabe se isso é aquilo
Você é tão maneira
Se ele não está com nada
Você tem que estar centrada
sábado, 10 de janeiro de 2026
TRÍGAMO
Aviso às leitoras e leitores deste blog desconjuntado: este texto é humor confessional. Não é manual de conduta, nem pedido de absolvição.
– Luisa Brunet.
– Ah, é? Quer dizer então que você acha a Luisa Brunet linda? Bom saber!
- Olha aí sua lindeza. Não sei o que você viu nela! Mulher horrorosa!
- Luisa Brunet?
- “Sou, mas quem não é?”
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
BALÃO DE GÁS
Vivi 55 anos da minha vida ao lado da mulher
que amava (e sempre amarei). Isso significa que passei toda a minha vida adulta
ao lado dela, tempo em que fomos nos moldando e nos adaptando um ao outro, de
tal forma que não consigo imaginar como eu seria hoje se nunca a tivesse conhecido. Provavelmente teria me casado com uma antiga namorada, talvez já
estivesse divorciado, morando em outro estado ou país, tivesse ficado rico
ou pobre de marré de si. Talvez alcoólatra, maconheiro ou monge
budista, sei lá o quê!
Só sei uma coisa, perder a mulher da minha
vida embaçou meu dia-a-dia e tirou minha vontade de viver, de continuar
vivendo – apesar dos filhos, filhas e netas. Hoje eu acordo com uma
enorme sensação de vazio, sem vontade ou ânimo para nada. Apesar disso,
levanto-me e faço o que preciso fazer, mas tudo ficou irreal, irrelevante, sem
sentido. Hoje eu me sinto tão inútil quanto um balão de gás que se esvaziou.
Leio as notícias nos portais que sempre
acessei, irrito-me com os acontecimentos ou declarações de gente idiota, mas
digo “foda-se!” mentalmente,
pois nada mais tem importância para mim. Ou melhor, a escala de valores mudou.
O que era relevante deixou de ser.
Saudade: tenho controlado sem maior esforço,
consigo rir, falar asneiras e até me divertir. À noite, com os olhos já
fechando de sono, beijo o terço que ela estava usando mais recentemente,
digo “Boa noite, Amor!”, deito e
durmo com a maior facilidade, quase instantaneamente. É uma sensação estranha
de estar com alguém que não está mais aqui.
Agora estou envolvido na tarefa de desapegar
e doar a imensa quantidade de objetos, livros, calçados, bolsas, roupas, vasilhas
e até papéis e caixas de presente que ela insistia em guardar para futura
reutilização. O resultado imediato desse mergulho foi encontrar uma pequena
caixa da Mesbla, nunca
utilizada. Para mim, um fissurado pela preservação da memória, essa embalagem
antiga já seria o presente. Para quem não sabe, Mesbla é o nome de uma grande rede de lojas de departamentos, que faliu em 1999.
Tentando organizar a suruba, fiz uma relação
das doações pretendidas de forma quase didática, onde listei sapatos de salto
alto e salto baixo, sandálias, chinelos e rasteirinhas, bolsas, cintos, blusas de
frio e casacos, calças de malha e de tecido, bermudas, camisas e camisetas,
camisolas e pijamas, saias, vestidos curtos e longos, roupas de uso doméstico,
roupas para costurar, apertar ou modificar.
Vieram depois as joias e bijuterias diversas:
colares, lenços, produtos variados para maquiagem, escovas elétricas, bolas de
plástico para piscina infantil, peças de artesanato em mdf, uma máquina de
tricô Lanofix e suas linhas, copos de vidro para milk-shake e banana split,
embalagens para presente, tecidos diversos para costura, sacolas e papéis para
reciclagem, livros, pratos, copos, panelas de aço inox, xícaras de café,
pacotes de chá de vários sabores. etc. etc. etc.
Pela quantidade e diversidade dos ítens, pensei até em
fazer um brechó ou bazar na garagem, mas fui dissuadido disso pelos filhos, preocupados
com um portão convidativamente aberto, permitindo a entrada de desconhecidos em
nossa casa. Apesar disso, muita coisa já foi doada.
Mas difícil mesmo é separar as roupas que ela
usou. Comecei por esvaziar três das dezesseis gavetas do armário de onde minhas
roupas foram expulsas para dar lugar às dela. Acumuladora em nível médio,
recusava-se a se desfazer de roupas esquecidas há séculos nos cabides e
gavetas, ou daquelas que não serviam mais ou, até mesmo, que estavam fora de moda.
A dificuldade maior não é esvaziar as gavetas, mas rever e manusear roupas que
ela usou nos últimos tempos. Lembrar-me dela, tão linda, usando uma dessas faz
minha garganta se fechar e os olhos arderem.
Não tenho a intenção de apagar sua memória
entranhada nessas roupas e objetos, apenas de dar nova destinação ao que não
será mais usado. Depois de tudo separado e doado, os armários utilizados por
ela ficarão vazios – mas nada comparado ao vazio que sinto por dentro.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
TRIGÉSIMO DIA
Hoje completa-se o trigésimo dia do falecimento da minha amada Eliany. Consegui falar com o Padre Leonardo, o mesmo que, há cinquenta anos, abençoou o nosso casamento. Muito idoso agora, caminhando com a ajuda de um andador, ainda assim se dispôs a celebrar a missa de 30º dia na Capela dos Crúzios, na Rua Eurita. Contou-me que o espaço é pequeno, acolhendo apenas um grupo de vinte pessoas.
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