quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

RELIGARE - REFLEXÕES SOBRE RELIGIOSIDADE, CRENÇA E FÉ

 
(Continuação do post anterior)

Os sentimentos de perplexidade, decepção e raiva surgiram imediatamente ao ver a palavra “BLOQUEADO” à direita da imagem da capa original. Perguntei ao Fabiano Caldeira, meu consultor para assuntos relacionados aos e-books da Amazon e ele disse nunca ter visto nada daquilo.
 
E não havia como modificar nada. Talvez a solução fosse reiniciar o processo, ou melhor, “fazer de conta” que se tratava de outro livro – que, muito provavelmente, também seria bloqueado.
 
Muito irritado com a situação, comecei freneticamente a fazer alterações. Excluí três ou quatro textos, dois deles com longas transcrições de livros que li (e talvez esteja aí o motivo da recusa – direitos autorais não respeitados).
 
Mudei o texto de divulgação, utilizei apenas uma “palavra-chave” em lugar das sete da versão anterior, escolhi nova capa – bem melhor que a original e, só de raiva, estabeleci o preço de R$5,00 para a nova versão. Originalmente custaria apenas R$1,99. O novo livro foi aprovado e posto à venda. Aleluia!
 
Se alguém se interessar em saber como seria uma "bíblia jotabélica" (não herética!) ou outras viagens na maionese surgidas e "perpetradas" nos últimos dez anos, o período de download gratuito vai de 13/02/2026 a 17/02/2026, em pleno período carnavalesco. Mas, por coerência com a temática do novo e-book, é melhor que seja lido durante a quaresma. Olha o link aí.




A capa antiga (da versão não aprovada) era assim. Ao lado dela, o aviso da Amazon.










quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

TUIUIÚ

 


O tuiuiú é considerado a ave-símbolo do Pantanal Matogrossense. Mesmo não sendo exatamente um passarinho – pois pode chegar a mais de 1,5 metros de altura, fiquei pensando que os ambientalistas poderiam propor a criação do “Dia do Tuiuiú”. Nesse caso, poderiam cantar esta musiquinha: “Happy Bird Day, Tuiu iú!” 

Acho ficaria bom.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

CONVERSANDO SOBRE RELIGIÃO, RELIGIOSIDADE, CRENÇA E FÉ

 
A morte da minha mulher teve para mim o efeito de um ciclone, de um tsunami ou, no mínimo, de um capotamento de carro, pois minha vida foi revirada como se fosse uma roupa dentro de uma lavadora. Tudo mudou, nada ficou como antes.
 
Tenho tentado manter a casa minimamente organizada e limpa, mas às vezes a vontade é de ficar deitado em nossa cama – em minha cama, agora tão grande e tão vazia.
 
Conversando com um de nossos filhos, o mais irrequieto, sempre querendo que eu me desfaça de metade dos objetos que minha mulher acumulou ao longo de cinco décadas, comentei que nossa casa é, na verdade, da Eliany, deles, dos nossos filhos, e que eu sou apenas o síndico. Ele riu e disse que é então o zelador, sempre querendo arrumar isso e aquilo.
 
Essas mudanças aconteceram também no campo religioso. Eu já me sentia praticamente ateu quando a doença de minha mulher teve uma progressão acentuada, fazendo-me lembrar desta frase do Millôr Fernandes: “O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde”.
 
A partir daí, comecei a repensar as crenças que tive, a fé que fui perdendo e a esperar por um milagre que revertesse o quadro triste que começava a se desenhar com nitidez. Infelizmente, o milagre não aconteceu, trocado que foi por um vazio imenso e por uma saudade abissal.
 
Foi nesse cenário que surgiu a vontade de reler todas as postagens indexadas no marcador “Religare” do Blogson Crusoe. Sinceramente falando, gostei bastante de quase tudo o que li – apesar de perceber com clareza a curva descendente da minha fé desde o primeiro texto que falava de religião e religiosidade, de crença e de fé, escrito quando eu ainda nem sabia o significado da palavra “blog”.
 
Pensar em um novo e-book com esses textos foi uma reação quase imediata, estimulado pelas lembranças da minha Amada. Mas aconteceu o inesperado: o livro a quem dediquei tanto carinho foi recusado pela Amazon! 

Depois de seguir todos os passos para sua publicação, recebi um e-mail com este texto: Com base em nossa análise, não aceitaremos seu envio para publicação porque os livros podem resultar em uma experiência decepcionante para o cliente.

O que aconteceu depois fica para a próxima postagem.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

DOIS MESES

 
Hoje se completam dois meses do dia em que te toquei pela última vez. Eu estava em choque, sem pressentir a saudade que sentiria depois, na nossa casa vazia, cheia de lembranças, enfeites, retratos e roupas que você usava para ficar ainda mais linda.
 
É difícil imaginar a dor de saber que nunca mais celebraremos nosso aniversário de casamento, o Dia das Mães, que nunca mais comemoraremos o Dia Internacional da Mulher nem o seu aniversário. O Dia dos Namorados era uma data tão importante quanto o Natal. Como rir e cantar músicas antigas nas festas de família? Você não está mais aqui!
 
Fui criticado por um de nossos filhos por beijar seus lábios frios no caixão. Meu desejo era poder te abraçar pela última vez, só mais uma vez. Mas não pude. Precisei sair de casa para resolver questões ligadas ao seu sepultamento e, quando voltei, você já tinha sido levada embora. Para sempre.

Um de meus filhos me enviou a letra de uma música que está compondo, falando justamente dessas certezas definitivas, como nunca mais poder ser abraçado por você. Não consegui ler até o final, pois minha garganta começou a queimar e meus olhos a lacrimejar.
 
Quando, meu Amor, conseguirei conviver com a sua perda sem chorar? Queria tanto acreditar que nós nos reencontraremos um dia e que, nesse dia, eu possa te abraçar, te beijar e repetir milhares de vezes que eu te amo, que sempre te amei e que sempre te amarei! Será isso possível?

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ENFEITIÇADA, INCOMODADA E DESNORTEADA

A publicação de hoje serve para suavizar um pouco a crueza de algumas postagens recentes. Por isso, para não ficar falando abobrinhas, resolvi mudar a forma de apresentação de uma música lindíssima.

- Trata-se de um vídeo musical, um clip não oficial da música Bewitched, Bothered and Bewildered, produzido a partir da compilação de cenas extraídas da série The Crown, mostrando a Princesa Margaret em momentos distintos de sua vida. Na série, foram usadas duas atrizes – uma interpretando a princesa mais jovem e outra, já mais velha.

- Bewitched, Bothered and Bewildered é uma das músicas mais lindas que já ouvi. Foi composta em 1940 e, neste vídeo, é interpretada por Ella Fitzgerald. Como não assisti a nenhum episódio da série, não sei se essa melodia faz parte ou não de sua trilha sonora.

- O lado bom para quem não entende nada de inglês é a existência de legendas no vídeo, o que permite fazer analogias e ter ao menos uma pálida ideia (muito pálida) do comportamento da Princesa Margaret.

- Em algum momento, ela teria feito o seguinte comentário: “Era inevitável: quando há duas irmãs e uma é a rainha, que deve ser a fonte de honra e de tudo que é bom, a outra acaba ficando no foco da mais criativa malícia, a irmã diabólica”.

- A irmã da Rainha Elizabeth teve uma vida social bastante agitada. Bebia muito, fumava muito e se relacionou, ao longo do tempo, com dezenas de homens – entre eles, talvez, Mick Jagger, dos Rolling Stones. Morreu aos 71 anos.

- Agora, só não se deixa levar pela música sofisticada e pelas imagens quem prefere um estilo musical mais rústico, menos elaborado ou, digamos assim, mais “rural” ou “periférico”.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

"QUANDO EU ERA CRIANÇA"

“Quando eu era criança pequena lá em Barbacena” era o bordão do personagem caipira Joselino Barbacena da “Escolinha do Professor Raimundo”, programa comandado pelo genial Chico Anysio. Curiosamente “esse bordão foi reconhecido, por lei, como frase cultural dessa cidade”. Fiz essa descoberta ao pensar em uma frase para começar este texto. Então, vamos lá.
 
Quando eu era criança pequena lá no bairro Carlos Prates não havia (ou não se conhecia) a diversidade de comportamentos e preferências expressa na sigla LGBTQIAPN+. Se você não sabe o que significa essa sopa de letras, vai saber agora:
 
L: Lésbicas; G: Gays; B: Bissexuais; T: Travestis, Transexuais e Transgêneros; Q: Queer (pessoas que não se encaixam na heterocisnormatividade); I: Intersexo (pessoas com características biológicas que não se encaixam na binariedade masculino/feminino); A: Assexuais; P: Pansexuais; N: Não-binários e (ufa!) “+”, que representa a pluralidade de outras identidades de gênero e orientações sexuais. O “ufa!” aí não é sigla, é só frescura.
 
Pois bem, quando eu ainda era criança só imaginava existir a sigla LG, ou seja, “L” para as lésbicas, conhecidas na época como “entendidas”, “machonas” ou sapatões e “G” para os gays – as bichas, bichas loucas, bichinhas ou viados, enfim. De um lado mulheres com comportamento masculinizado e do outro, homens delicadíssimos, voz afetada e gestual ondulante.
 
Sempre tive mais dificuldade para identificar as meninas “L”, o mesmo não acontecendo com os homens “G”, normalmente alegres e sempre insinuantes. Lembro-me de um que ao me ver já adolescente saindo da piscina com a água escorrendo mais concentrada nos pelos já existentes na barriga de tanquinho (eu já tive!), exclamou: “- Caminho da felicidade”.
 
Mas o tema de hoje não são reminiscências da infância e juventude. Tudo surgiu e foi motivado por um comentário feito pelo titular do blog “As Crônicas do Edu” a respeito de recente postagem que fiz com o título “Macho Dzeta” onde, sem me estender muito, confessei ser um heterossexual um pouquinho afeminado – traço de comportamento apreciado por algumas mulheres (não todas). Em outras palavras, um membro da fictícia “ABHA - Associação Brasileira de Heteros Afeminados”.
 
Meu amigo Eduardo, talvez sentindo-se incomodado com minhas “inconfidências”, lascou um comentário que me fez pensar neste texto, ampliando um pouco minha resposta original.
 
Falando sério, eu realmente falo "noossa" e "ui". O "ui" é real e o "noossa" é só de gozação, mas é difícil definir o limite entre um homem "sensível" e um afeminado, pois essa "fronteira" é elástica, fluida, da mesma forma que é difícil definir o que é um "macho". Cara, eu odeio esta palavra, tanto quanto "fêmea"! São duas palavras redutoras que servem apenas para coisificar alguém que tem muito mais para mostrar que apenas um comportamento estereotipado.
 
A realidade, aliás, vive desmentindo esses rótulos. Há gays com comportamento muito mais “macho”, dentro do imaginário tradicional, do que muitos heteros sensíveis ou vistos como afeminados. E está tudo bem. Porque orientação sexual não é manual de conduta, e masculinidade não vem com certificado de autenticidade.
 
Posso estar enganado, mas os homens que espancam ou matam suas companheiras estão abrigados no nicho "macho das antigas", usando um termo que acho engraçado. Obviamente – e ainda bem – são minoria. Mas fruto direto de uma ideia ultrapassada e tóxica do que significa “ser homem”.
 
No fim das contas, talvez o problema possa não ser o “ui”, o “noossa”, a sensibilidade ou a firmeza. Os costumes mudam, as pessoas podem também mudar, suavizando arestas antigas e revendo costumes enraizados, aceitando com mais naturalidade a multiplicidade de comportamentos e escolhas. Que acham disso? (cartas para a redação) 


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

UM MUNICÍPIO INVISÍVEL


Já manifestei aqui no blog minha preocupação com os miseráveis que dormem debaixo das marquises de prédios, tendo muitas vezes apenas um papelão como defesa contra a friagem do solo. Para mim, pouco importa o que levou esses infelizes a chegar a esse nível de absoluta miséria e desamparo. Só sei que fico penalizado por cada um que vejo deitado nas calçadas. E esse número tem aumentado.

Todos os dias, pela dificuldade que tenho para andar a pé (artrose nos joelhos) vou de carro para comprar o pão nosso de cada dia. E saio bem cedo de casa, por volta das seis da manhã. Na volta, sou obrigado a passar pela praça principal do bairro, bem em frente ao icônico Bar do Bolão. Hoje, debaixo da marquise desse bar, quatro pessoas estavam deitadas, ainda dormindo. E é isso que me deixa desolado. São tantos os que se (des)abrigam nas calçadas e praças que, sinceramente, não consigo pensar que alguém tenha uma solução real para o problema. Por isso, resolvi apelar para a ironia.
 
Minas Gerais tem 853 municípios. Em Belo Horizonte, (sobre)vivem 15.474 pessoas em situação de rua – um contingente maior do que a população de 618 municípios do estado.
 
Diante dessa situação absurda, talvez seja uma boa criar o 854º município  o da população em situação de rua. Com direito a prefeito e verbas federais! Ou não?

domingo, 1 de fevereiro de 2026

GASTANDO O LATIM – MILLÔR FERNANDES

 
O Millôr era muito foda!
 
Bem, fiquei calado mais ou menos duzentos anos, na esperança de que algum latinista, algum erudito, aparecesse para corrigir Inácio de Alvarenga. Como todo mundo sabe, está na História, está nos “Autos” da Inconfidência, reuniram-se, em casa de Tomás Gonzaga, além do próprio, o dr. Cláudio Manuel da Costa, Inácio de Alvarenga e o padre Corrêa de Toledo (1).
 
Nessa reunião, o grupo discutiu a já muito discutida questão da Bandeira da Nova República. Cláudio Manuel da Costa, que já tinha feito uma proposta de bandeira, insistiu nela: a figura de um gênio quebrando seus grilhões com a inscrição: “Libertas Aequo Spiritus” (2). Alvarenga lembrou então que essa proposta já tinha sido feita numa reunião em casa de Francisco de Paula, mas que nem mudando a legenda para Aut Libertas Aut Nihil o pessoal tinha topado. Naquela mesma reunião o alferes Tiradentes tinha feito outra proposta: uma bandeira com um triângulo representando a Santíssima Trindade. Ele próprio, Alvarenga, sugerira que se juntasse ao triângulo o verso de Virgílio: Libertas Quae Sera Tamen e a proposta tinha sido aprovada. Nesta reunião aconteceu o mesmo — todos acharam a ideia muito bonita. E a bandeira da insurreição ficou sendo, definitivamente, essa.
 
Pois desculpem, amigos, a ideia não é boa e o latim é péssimo. Eu, que sempre achei a frase Liberdade Ainda que Tardia uma proposta completamente furada (3), resolvi, um dia, com minha total descrença na História e nos Historiadores, ir diretamente à fonte da frase: Virgílio. E, como não podia deixar de acontecer, a frase estava errada. Inácio de Alvarenga citou de memória, ninguém foi à fonte (nem na hora, nem até hoje, duzentos anos depois) e o erro se perpetuou.
 
A frase de Virgílio é Libertas: quae sera. Essa frase, sim, dá em português Liberdade, ainda que tardia. Como está na Bandeira (Libertas quae sera tamen) é um saudável bestialógico: Liberdade ainda que tardia todavia.
 
Bem, mas como não sou latinista (4), é melhor reproduzir o próprio original (5) pro pessoal aí não começar com discussões inúteis (6). Como sabem os que já leram as “Éclogas” (7) de Publius Vergilius Maro, mais conhecido como Virgílio, logo no início da primeira écloga, dois personagens se encontram, Melibaeus e Tityrus, este indo a Roma comprar sua liberdade. O diálogo:
 
Melibaeus — Et quae fuit tibi tanta causa vivendi Romam? (E qual foi, para ti, a causa tão premente de vir a Roma?)
Tityrus — Libertas: quae sera, tamen respexit inertem; postquam candidior barbacadebat tondenti; etc. (Liberdade: embora tardia, todavia (tamen) ainda me alcança em minha inatividade, quando a barba já me cai embranquecida.)
 
Como veem os leitores, o tamen nada tem com a primeira parte da frase, escolhida por Alvarenga. O que me permite repetir, mais uma vez: “A História é uma istória!” (8)
 
Notas:
1) Este repórter também estava presente mas, devido à sua extraordinária discrição, a História não reparou nele.
2) “Deus do céu, que horror!” murmurou este repórter, do seu carro.
3) Qualquer grupo revolucionário quando propõe liberdade é pra já, pô, e não ainda que tardia. Você pode aceitar uma liberdade ainda que tardia, como o personagem de Virgílio, mas jamais propô-la como bandeira de luta. Liberdade ainda que tardia já será, assim, uma antecipação de Minas está onde sempre esteve?
4) Aliás, não sou nada.
5) Cito da excelente Interlinear Translation, de Hart & Osborn, David McKay Company, Inc. Nova York.
6) Existem outras?
7) Ao todo 37 pessoas, no Brasil inteiro, sendo que 19 em São Luís do Maranhão.
8) Relutei muito tempo em aceitar a palavra estória como conto, diferenciada de História, narrativa de fatos importantes da vida da humanidade. Essa palavra foi criada pelo Diário Carioca, no tempo em que este era dirigido pelo jornalista Pompeu de Sousa, agora em Brasília. Acho, aliás não tenho certeza, que foi o próprio Pompeu de Sousa quem inventou a palavra. Todavia não vejo por que, se a palavra é totalmente inventada, não se escreve istória, como se pronuncia. Se, porém, a palavra pretende, ainda, alguma etimologia, esta vem, naturalmente, de História, e, portanto, também nesse caso, dá istória.
 
                              Veja, 17 de janeiro de 1979

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

NÃO QUE EU QUEIRA ME GAMBÁ, MAS...

 
Não que eu queira me gambá (repetir no texto o título da postagem aumenta um pouquinho o publicado, mas torna a piada - já ruim - ainda pior), mas descobri que sou NOLT. E não precisa ficar com essa cara de quem não está entendendo nada, pois já vou explicar (transcrever, na verdade):

NOLT, sigla para New Older Living Trend (Nova Tendência de Vida Mais Velha), define pessoas com 60 anos ou mais que rejeitam rótulos tradicionais de envelhecimento, como “idoso”, buscando um estilo de vida ativo, produtivo e conectado. O movimento foca em protagonismo, aprendizado contínuo, cuidados com a saúde mental e física e tecnologia, desafiando o etarismo.

Quem diria, não é mesmo? Jotabê, o NOLT do Blogson Crusoe, cuíca da blogosfera!

O único defeito dessa classificação reside no fato de que, física e socialmente falando, sou o anti-NOLT. Tirando a saúde mental, ainda razoavelmente boa, o resto deixa muito a desejar. Meus joelhos têm cantado tanto que estou até tentando imaginar um nome para essa dupla, algo como Esaó e Jacu, Galeto e Sobrecoxa, Granizo e Garnizé, algo nesse estilo.

Para piorar, não estou estudando nada, não tenho grana para viajar nem penso em nova carreira — seja ela uma meia maratona ou uma fileira de brilho.

Relacionamentos, por exemplo: estive fazendo mentalmente uma lista de possíveis parceiras para ensaboar debaixo do chuveiro ou dormir de conchinha. Fazer “nhá nhá” então, como dizia um antigo amigo, está fora de cogitação. E o resultado foi uma lástima.

E nem digo da dificuldade para chamar o gênio da lâmpada. O problema maior é o fato de as opções serem extremamente limitadas: seja pela aparência de sítio arqueológico de algumas, seja pelo fato de outras serem casadas, seja porque as demais são feias bagarai. E quando não são, já têm "dono" ou outras predileções. Garotas de programa, nem pensar. Sugar babies, também não. Porque pior do que o cara se achar a última cereja do bolo é ser visto como tiozão do churrasco — ou melhor, vôzão do churrasco.

Mesmo assim, apesar de tudo - porque não sinto culpa de nada -, tratem-me agora como NOLT. Xô, velhice!!!!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

JURA QUE ISSO É PSICOGRAFIA?

 
- Você acredita em espiritismo?
- Por que está perguntando?
- Curiosidade...
- Olha aqui, palhaço, já vou avisando: no Brasil preconceito religioso é crime, falou?
- Eu não tenho preconceito contra religiões! Só desconfio de certezas absolutas, inclusive das minhas.
- Cuidado com as idiotices que gosta de falar!
- Afinal, você acredita ou não acredita?
- Eu sou ateu, um cara que crê na descrença.
- Olha o filósofo!
- Vamos mudar de assunto?
- Só se for para falar de psicografia.
- Lá vem você!
- Meu vizinho ganhou de um amigo um livro psicografado por esse amigo. Mas ele só entende de futebol e cerveja, não necessariamente nessa ordem.
- E daí?
- Daí que ele me emprestou o livro, pedindo para eu dar minha opinião.
- Terceirizou a leitura, né?
- Pois é. Comecei a ler, mas achei os textos muito banais, piegas, excessivamente “edificantes”. Mesmo sem conhecer porra nenhuma do autor psicografado – exceto a fama de poeta maldito – não consegui deixar de pensar no que disse um crítico literário quando lhe perguntaram sobre livros psicografados. A resposta dele foi fulminante: disse não entender nada do mundo dos espíritos, mas que a morte fazia muito mal para o estilo dos autores psicografados.
- Já imagino que sua avaliação não será muito animadora para quem te emprestou o livro.
- Pois é. Se o psicografador publicasse o livro assumindo claramente a autoria, não haveria problema algum. Bom ou ruim, seria ele ali, em cada texto, não um autor falecido.
- Você acha que ele inventou tudo?
- Não, de jeito nenhum, só acho que ele acreditou receber do Além algo que, no fim das contas, vinha da própria cabeça.
- Pela primeira vez na vida você está dizendo coisa com coisa. Impressionante!
- Mas eu ainda nem acabei o raciocínio! Imagine textos como os que são publicados no Blogson Crusoe. Aquilo é tão ruim que poderia muito bem ser apresentado como psicografia ditada a um senhor idoso por um espírito com zero vocação literária.
- Eu sabia que vinha provocação por a! E quem seria esse espírito tão pouco inspirado?
- Ué, só pode ser Jotabê, que assina todos os textos. Sei lá, vai que ele já morreu e esqueceram de lhe avisar.
- Valei-me Santo Allan Kardec!

 

ATIVIDADES SEXUAIS

 

A apresentadora de um programa feminino pergunta a uma jovem senhora da plateia:


– A senhora pode contar aos nossos telespectadores quais são as atividades de uma típica dona de casa deste bairro?

– Ah, sim… De manhã, levo os meninos ao colégio. Depois, na volta do colégio, tenho três horas de atividades sexuais… Então, o meu marido e filhos chegam para o almoço, almoçam; ele volta para o trabalho e as crianças vão fazer os deveres… Aí, tenho mais algumas horas de atividades sexuais até à noite, quando jantamos e vamos todos para a cama!

– Desculpe, mas a senhora pode nos explicar em que consistem essas atividades sexuais?

– Ah, lógico, explico sim! Atividade sexual é fazer tudo o que é fodido: varrer, lavar o chão, lavar a roupa, arear as panelas, lavar e tratar do cão, arrumar, costurar, passar as roupas, limpar o pó, lavar os vidros…

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

MACHO DZETA

 
Li uma reportagem que me deixou super animado, pois descobri que meu perfil delicado está muito valorizado no mercado. Não que eu esteja à venda nem que alguém queira me comprar, mas agora eu sou um homem viúvo que, mesmo guardando um luto real, não posso dizer que fico indiferente à minha desconhecida capacidade de agradar uma gata do sexo oposto (claro, né? gata, sexo feminino; gato, sexo masculino).
 
Como os tempos mudaram! Quando comecei a namorar aquela que seria a paixão de toda a minha vida, um de seus irmãos disse que eu era “viado”. Nem liguei para isso, pois sempre fiz críticas ao seu comportamento rude de brutamontes sexual.
 
Uma das certezas que sempre me acompanharam foi saber que não sou um “macho alfa”. Nem beta. O máximo que eu poderia ser é “macho dzeta” – ou Zéta (repetir piadas ruins é sinal claro de falta de assunto).
 
Porque eu tenho a cara do heterossexual definido na reportagem. Aliás, fiquei tão empolgado, que até me esqueci de dizer o título: “Homens afeminados são desejados por mulheres cansadas de 'hétero top'”.
 
Gentem, esse cara sou eu! Eu gesticulo ao falar, faço xixi sentado, choro (como tenho chorado!), uso expressões do tipo “Adooro!”, “Nooossa!” ou exclamações do tipo “Ui!”. Como disse um filho, se eu tivesse demorado mais dois minutos para nascer, eu seria gay.
 
Segundo a reportagem, “Basta um homem heterossexual ter atitudes como essas para ser considerado afeminado”. E completa dizendo que “Geralmente usado de forma pejorativa, o termo virou virtude para muitas mulheres que, hoje em dia, preferem se relacionar com "homens açucarados", cansadas dos ‘hétero tops’”.
 
Mas preciso fazer uma correção: a palavra “hetero” não é proparoxítona como muita gente pensa. O correto não é dizer “hétero” com “e” acentuado, mas “hetero”, paroxítona da melhor qualidade.
 
Então, já deixo um aviso para as gostosas que acessam este blog e se sentem atraídas por homens afeminados: sou doce, sensível, culto, espirituoso, romântico – e hetero. Mas ainda de luto.
 

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

TÚNEL DO TEMPO

 
Outro dia minha irmã me entregou um envelope amarelecido e manchado pela ação do tempo, que estava guardado dentro de um livro de orações da minha mãe. Segundo ela, ao procurar uma certidão antiga, encontrou esse envelope. Dentro, uma carta endereçada a mim, escrita por meu tio e padrinho em “papel de carta”, com uma letra miúda, quase feminina.
 
É uma carta estranha, escrita para me ajudar a vencer a insegurança da adolescência. Sinceramente, não me lembro de jamais ter recebido essa carta nem consigo imaginar por que foi guardada por minha mãe. Teria sido escrita por ela como se fosse meu tio e desistido de me enviar?
 
Talvez essa carta tenha sido motivada por sinais que eu já dava naquela época. Aos dezesseis anos, eu carregava uma mistura intensa de medo, culpa e curiosidade. Talvez eu tivesse morrido de vergonha ao lê-la, pois vivia com a sensação de estar sempre fazendo algo errado, mesmo quando ninguém dizia nada.
 
Afinal, para quem pediu perdão a Deus pelo gozo da primeira masturbação, para quem furou a porta do banheiro para ver a tia solteira tomar banho e imaginou aprender a beijar lendo as revistas Seleções do Reader’s Digest deixadas justamente por esse tio, não seria nada demais receber conselhos para me ajudar a viver e a vencer o medo paralisante que sentia.
 
O pequeno furo na porta do banheiro, feito e refeito algumas vezes, denunciava um desejo que eu não sabia controlar. Ninguém nunca mencionou o assunto, mas o pequeno furo estava lá, visível. Minha mãe certamente o viu. O silêncio, nesse caso, parece ter sido a forma escolhida para ela lidar com aquilo.
 
Talvez por isso a carta. Não como repreensão direta, mas como desvio: falar de timidez, de medo, de insegurança, quando o problema parecia maior e mais difuso. Aos dezesseis anos eu já carregava uma neurose daquelas boas, algo que, mesmo para os padrões confusos da adolescência, não parecia exatamente normal.
 
Teria sido essa a motivação? A incapacidade de ter uma conversa franca e direta comigo? Nunca saberei a verdade. Mesmo assim, resolvi digitar o conteúdo dessa provável “fake letter”, corrigindo os erros de português, para talvez publicar no blog. Meu tio e padrinho morreu em 1988 e minha mãe em 2009. 
 
 
Uberaba, 07 de junho de 1966
Zezinho,
Estou te escrevendo porque gosto de você e porque sou seu padrinho. Sempre falei que você parece comigo quando eu era novo, quieto demais, cheio de medo das coisas. Mesmo morando fora e trabalhando em outra cidade, a gente nunca deixa de pensar na família.
Quando saí de casa pra estudar odontologia em Uberaba, achei que ia ficar mais tranquilo, mais solto pra conversar com as moças. Eu sempre fui muito sério, diferente dos meus irmãos, mais quieto, sempre com medo de errar, de passar vergonha. Comecei a trabalhar cedo, mas tinha dificuldade para arranjar namorada.
Demorei pra beijar uma menina, pra namorar, e quando namorei não durou muito. Eu não sabia o que dizer, ficava nervoso demais. Esse medo acabava me atrapalhando mais do que ajudando. Eu queria acertar tanto que não fazia nada direito. Ainda bem que conheci a Teresinha.
Com o tempo entendi que ninguém nasce sabendo. Todo mundo passa vergonha alguma vez. Ouvir um não dói, mas passa. Ficar sem tentar é pior. Medo todo mundo tem, mas não pode deixar ele mandar na gente.
Você sempre foi mais tímido, mas está fazendo dezesseis anos hoje, não tenha vergonha de não saber. Pergunte, tente, arrisque. Se der errado, faz parte da vida. O importante é não ficar parado.
Venha me visitar um dia, assim eu aproveito e dou uma olhada nos seus dentes. E parabéns pelo aniversário.
Cici.

 

 

domingo, 25 de janeiro de 2026

"PELA ESTRADA AFORA EU VOU"...

 
Depois de ficar sabendo que o deputado Nikolas Ferreira resolveu fazer uma caminhada até Brasília em defesa da liberdade (do Bolsonaro) e da justiça (o que ele entende por isso), uma espécie de “coluna Prestes” da Direita, fiquei pensando o que move alguém a fazer uma idiotice dessas. Depois, com mais calma, entendi que idiotas somos nós que damos atenção a essa jogada de marketing. Como sou confessadamente um ignorantão em matéria de política e, para ser sincero, já estar de saco dessas birrinhas envolvendo bolsonaristas e lulistas, pedi ao ChatGPT, meu consultor para assuntos aleatórios, uma análise histórica da situação.
 
Para isso, fiz à IA esta pergunta: Por que a Direita brasileira odeia o Lula e seu governo? Ele está ou não fazendo um bom governo?”
 
O resultado foi um “cartapácio” de sete páginas, grande demais para ser publicado no blog de amenidades que é o Blogson.
 
No final, o GPT propôs:
Se quiser, posso:
enxugar ainda mais para um artigo acadêmico,
adaptar para linguagem jornalística, ou
incluir referências teóricas (Arendt, Levitsky & Ziblatt, Todorov, etc.).
 
Pedi para enxugar aquele palavrório todo e saiu um texto mais sucinto, com nova proposta no final:
 
Se quiser, posso:
encurtar para artigo de jornal impresso,
adaptar para coluna de opinião, ou
deixar mais ácido / mais neutro, dependendo do veículo.
 
Achei de bom tamanho o resultado e é este que transcrevo a seguir:
 
Quando a política vira guerra moral
O debate político brasileiro vive hoje menos de projetos e mais de identidades. A disputa deixou de ser apenas sobre políticas públicas e passou a operar como confronto moral, no qual o adversário é tratado não como opositor legítimo, mas como ameaça existencial. Nesse ambiente, a história, a cultura e até o Judiciário entram em cena como armas simbólicas, usadas para reforçar posições já cristalizadas.
A memória histórica continua presente no debate público, mas raramente aparece como instrumento de reflexão. Ela é acionada de forma seletiva, conforme a conveniência política do momento. Episódios do passado funcionam como atalhos morais: servem para acusar, rotular e deslegitimar, não para explicar. O resultado é um empobrecimento do debate e o aprofundamento da polarização.
Esse mecanismo se expressa com força no campo cultural. Filmes e obras que abordam temas sensíveis da história recente provocam reações políticas imediatas. Reconhecimentos internacionais são interpretados, por setores da direita, como ataques ideológicos ao país ou tentativas de impor uma leitura única da história. Para outros, representam gestos legítimos de memória e crítica. A cultura, assim, deixa de ser espaço de reflexão e passa a integrar o conflito político cotidiano.
A mesma lógica organiza o antipetismo, eixo central da direita brasileira contemporânea. O ódio ao presidente Lula vai além de avaliações sobre economia ou políticas sociais. Lula se tornou um símbolo: do PT, do sindicalismo, do protagonismo do Estado e da ascensão dos mais pobres. Para diferentes grupos da direita — liberais, conservadores morais, evangélicos e bolsonaristas — rejeitá-lo funciona como identidade política compartilhada.
Esse antipetismo dispensa programa e substitui propostas por rejeição. A corrupção, embora real nos governos petistas, é lembrada de forma seletiva, enquanto práticas semelhantes em campos aliados são relativizadas. Ao mesmo tempo, Lula governa de forma pragmática, sem rupturas institucionais, o que frustra narrativas alarmistas e intensifica o ressentimento. O conflito, portanto, não é apenas sobre desempenho, mas sobre o que Lula representa.
Mesmo com um governo institucionalmente estável, economicamente moderado e socialmente previsível, a hostilidade persiste. O governo Lula III recompõe relações entre os Poderes, reduz conflitos institucionais e retoma políticas sociais, mas não dissolve a polarização porque ela se alimenta de identidades, não de resultados.
É nesse cenário que lideranças como o deputado federal Nikolas Ferreira ganham projeção. O parlamentar mais votado da última eleição, evangélico e identificado com a direita, mobiliza apoio por meio de discursos morais e simbólicos. A proposta de uma caminhada de Minas Gerais até Brasília, apresentada como defesa da “justiça” e da “liberdade”, inclusive em favor de envolvidos em atos golpistas, ilustra como disputas políticas e jurídicas são deslocadas para um terreno moral absoluto, onde o adversário passa a ser visto como inimigo.
O risco desse processo é a normalização da lógica de confronto permanente. Quando a política se transforma em guerra moral, o espaço para negociação, compromisso e pluralismo se estreita. Tudo vira prova de caráter, e qualquer divergência é tratada como ameaça.
Talvez o principal desafio do Brasil hoje não seja escolher entre direita ou esquerda, mas entre radicalização e institucionalidade. Enquanto o debate público continuar organizado em torno do ódio, da deslegitimação e da moralização absoluta, o país seguirá preso a um conflito que se retroalimenta — e que impede a construção de projetos políticos capazes de dialogar com a complexidade do presente.
 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

MÃE - CRIS GUERRA

 
Separando coisas guardadas por minha mulher, encontrei um livrinho pequeno, fininho com belas ilustrações, publicado pela Editora Miguilim, e delicado como parecer ser a autora do texto.
 
Cris Guerra é uma publicitária mineira, cronista, blogueira e escritora de sucesso. Mora atualmente em São Paulo e, desde 2022, prefere ser chamada de “Cris Pàz” (com “a” craseado), alteração que ela assim explica: “Cansei de ser chamada de guerreira”.
 
Pois bem, depois de gastar não mais que cinco minutos para ler o livreto encontrado  que me fez lembrar (e ter saudade) da mãe que meus filhos tiveram , decidi transcrevê-lo integralmente neste blog desconhecido e mais abandonado que ruína maia no meio da selva, . Entretanto, se ela vier a saber e se zangar por esta publicação-homenagem não autorizada, eu apagarei o post.
 
Até lá, espero que os leitores e leitoras que acessam o Blogson se deliciem com o texto – que tentei manter quase com a mesma diagramação do livro.
 
 
Dizem:
quando nasce um bebê, nasce também uma mãe.
 
É um polvo.
Um restaurante delivery. Uma máquina de chocolate prontinho. Uma mecânica de carrinhos e controle remoto. Uma médica de bonecas. Uma professora–terapeuta–cozinheira de carreira medíocre. Nasce uma fábrica de cafuné, um chafariz de soro biológico, um robô que desperta ao som de choro.
 
E principalmente: nasce a fada do beijo
 
Quando nasce um bebê, nasce também o medo da morte
– mães não se conformam em deixar o mundo sem encaminhar devidamente um filho.
 
Não pense você que ao se tornar mãe uma mulher abandona todas as mulheres que já foi um dia. Bobagem. Ganha mais mulheres em si mesma. Com seus desejos aumentam sua audácia, sua garra, seus poderes.
Se já era impossível, cuidado:
ela vira muitas.
 
Também não me venha imaginar mães como seres delicados e frágeis.
Mães são fogo. Ninguém segura. Se antes eram incapazes de matar um mosquito, adquirem uma fúria inédita. Montam guarda ao lado de suas crias, dispostas a enfrentar tudo o que zumbir perto delas.
pernilongos, lagartas, leões, gente.
 
Mães não têm tempo para o ensaio: estreiam a peça no susto.
 
Aprendem a pilotar o avião em pleno voo. E dão o exemplo, mesmo que nunca tenham sido exemplo.
 
Cobrem seus filhos com o cobertor que lhes falta. E, não raro, depois de fazerem o impossível, acreditam que poderiam ter feito melhor.
 
Nunca estarão prontas para a tarefa gigantesca que é criar um filho.
– alguém está?
 
Mente quem diz que mãe sente menos dor – pelo contrário! Ela apenas aprende a deixar sua dor para outra hora. Atira o seu choro no chão para ir acalentar o do filho.
 
Nas horas vagas, dorme. Abastece a casa. Trabalha. Encontra os amigos. Lê, ou adormece com um livro no rosto. E, quando tem tempo pra chorar – cadê?
passou.
 
A mãe então aproveita que a casa está calma e vai recolher os brinquedos da sala. Como esse menino cresceu, ela pensa, a caminho do quarto do filho. Termina o dia exausta, sentada no chão da sala, acompanhada de um sorriso besta.
 
Já os filhos, ah os filhos fazem a mãe voltar os olhos para coisas que não importavam antes. O índice de umidade do ar. Os ingredientes o suco de caixinha. O nível de sódio do macarrão sem glúten.
Onde fica Guiné–Bissau.
Os rumos da agricultura orgânica. As alternativas contra o aquecimento global. Política.
E até sua própria saúde.
 
Mães são mulheres ressuscitadas.
Filhos as rejuvenescem, tornando suas vidas mais perigosas
– e mais urgentes.
 
Qundo nasce um bebê nasce uma empreiteira. Capaz de cavar a estrada qundo não há caminho, só pra poder indicar:
 
Por ali, filho, naquela direção.
 
 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

BLOCO DE GRANITO

 
Minha mulher tem uma prima que mora há muitos anos em Portugal, depois de vender tudo o que tinha aqui e mudar-se definitivamente para lá, levando marido e filha. Não sei a frequência com que vem ao Brasil, só sei que em uma dessas promoveu o encontro das primas, momento registrado em uma foto linda que me mandou há uns três dias. Não sei em que ano foi isso, mas deduzo ter sido antes da descoberta da doença terminal da minha Amada. E ela estava linda na foto!
 
Tenho tentado me manter na superfície, mesmo que nem saiba exatamente para quê. Mas rever suas imagens, seu permanente sorriso, sua beleza irretocável, isso me derruba, me afoga, como se fosse jogado na água com uma pedra amarrada em meus pés. Nesses momentos eu sinto o efeito da solidão, de estar só. Sinto por dentro um vazio tão cheio, uma falta tão pesada, que pesa como um bloco de granito que cai do caminhão que o transportava e fica ali, na beira da estrada, à espera de alguém que o remova.
 
Para agradecer a gentileza por ter-me enviado uma foto tão linda, pedi ao ChatGPT para fazer o desenho de duas fotos em que eu e ELA estávamos juntos, em preto e branco, mas exatamente iguais aos originais (uma foto era colorida). E enviei o resultado para a prima de Portugal. 20 dias depois desta última foto fui condenado a não tê-la nunca mais ao meu lado.



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

BOLA-GATO?

 
Depois de alfabetizado e já conhecedor de alguns palavrões, comecei a procurá-los às escondidas no “Dicionário Escolar da Língua Portuguesa”. Embora fossem palavras e expressões corriqueiras – cu, puta e seu respectivo filho, viado e outros de mesma elegância –, não encontrei nenhum, nem mesmo uma reles bunda. Parece que a incorporação de palavras chulas aos dicionários tipo Aurélio aconteceu de forma progressiva ao longo do século XX, como forma de se obter um registro completo da língua portuguesa falada no Brasil, o que acho sensacional. Obviamente, um “dicionário escolar” do início do século passado jamais exibiria em suas páginas essas putarias ditas nas ruas.
 
O tempo passou e um dia, assistindo no auditório de uma empresa onde trabalhei a uma conferência sobre comunicação, a palestrante começou a perguntar à plateia se sabiam o significado de várias palavras e expressões usadas “pelos filhos de vocês”, argumentando sobre a necessidade de comunicar-se com todo mundo, e que isso pressupunha saber como atingir seu “público”, independente da idade ou nível cultural, principalmente em se tratando de sexo e drogas.
 
Uma das expressões citadas por ela foi “bola-gato”. E destrinchou: bola-gato em inglês significa “ball-cat”, com sonoridade semelhante a “boquete”, sinônimo vulgar de felação (que muita gente pratica sem saber da existência dessa palavra). Falou também do manjado “meia-nove” e do “frango assado”, posição sexual que facilita muito a entrada do passarinho – mas que não deve ser confundido com “frango a passarinho”.
 
Estava pensando em escrever uma crônica contando esta história, mas não consegui me lembrar de mais nenhuma das outras palavras e expressões ouvidas na palestra. Apenas me lembro de uma jovem extremamente atraente sentada logo à minha frente, que demonstrou manifesto domínio do assunto ao “traduzir” os vários significados, em voz baixa e simultaneamente com a palestrante. A diferença era o tom de voz: alegre e animada dita ao microfone pela conferencista e suspirosa, sussurrante, dita quase miando, pela gata.
 
Depois disso a imprensa divulgou a expressão “golden shower”, que define uma prática sexual repulsiva e inacreditavelmente postada em suas redes sociais por um ex-chefe de Estado e atual presidiário. Dignidade zero, já viu, né? Mais recentemente ouvi falar de “beijo grego”, prática de gosto pra lá de duvidoso. Recentemente, em um canal de TV a cabo ouvi as expressões “sugar baby” e “sugar daddy”, expressões que não saberia dizer se têm uso corrente no Brasil. Depois disso, não descobri mais nenhuma.
 
Isso me fez perceber minha ignorância nesse tipo de linguagem, facilmente explicada pela minha idade provecta, pela minha natural pudicícia e elevados valores morais, claro. Por isso, caso os leitores ou leitoras queiram contribuir para abrilhantar este texto, podem informar as palavras e expressões de que conhecem o significado (apenas teórico, lógico), para que eu as inclua neste texto tão desconchavado, que tenta fazer bom uso da língua, desmistificando e aceitando sem drama uma eventual vulgaridade. Podem me ajudar?

sábado, 17 de janeiro de 2026

PREFERE SONHO OU REALIDADE?


Esta crônica foi escrita originalmente com palavras mais cruas, com linguagem mais explícita. Sugeriram que eu a tornasse "palatável" para leitoras de comportamento mais delicado e elegante. Até pedi ajuda ao moralista ChatGPT, mas a versão ficou muito suave, quase asséptica. Aí resolvi fazer uma suavizada jotabélica.
Ele precisava falar com alguém. Precisava de companhia. Ligou para uma antiga amiga.
 
- Oi, Ricardo, que surpresa! Como você está?
- Vivendo.
- Parece que não está bem…
- Que "nada" você tem para fazer hoje?
- Como assim?
- Reformulando: você tem alguma coisa para fazer hoje?
- Não. Só ver o BBB. Por quê?
- Queria te convidar para comer uma pizza. Estou precisando de companhia.
- Adorei! Amo pizza. Você me pega aqui?
- Eu te pego em qualquer lugar, do jeito que você quiser, meu sonho sempre foi te pegar.
- Engraçadinho!
- Oito horas?
- Oito.
 
Às oito em ponto ele a pegou na porta do prédio. Ela já o esperava na calçada. Estava envelhecida, mas continuava alimentando suas fantasias.
Depois dos beijinhos automáticos, ela perguntou como ele estava, enquanto escolhia o sabor da pizza.
 
- E então, como está convivendo com a solidão?
- Estranha. Casa vazia. Vida vazia.
- Você gostava bem dela, não?
- Sim e não. Talvez estivesse acostumado a uma rotina cheia de silêncios. Quando ela se separou eu me assustei, mas entendi. Já não transávamos havia três anos.
- Três anos? E como você administrava isso?
- Usava o método adolescente, no banheiro.
- Credo!
- Horrível está agora. Nunca tive tanta vontade de contato físico com uma mulher, com o corpo nu de uma mulher! Abraçar, beijar, cheirar, tocar, todas as possibilidades que um encontro íntimo propicia. E isso está me deixando maluco.
 
Ela desviou o olhar.
 
- E o que você pretende fazer? Pagar uma garota de programa?
- Está louca? Eu sempre valorizei a afinidade, a intimidade com a parceira.
- Onde você acha que vai encontrar isso hoje?
- Foi por isso que te convidei para comer pizza.
 
Incrédula, ela reaspondeu:
 
- Você enlouqueceu?
- Talvez. Mas sempre tive a sensação de que você gostava de me provocar  e seduzir com suas histórias sensuais e picantes.
- Nunca te contei histórias picantes!
- Contou de homens. De sexo. E aquilo incendiava minha imaginação. O auge foi quando me matou de desejo ao contar ter ido para o motel com um ex-colega de colégio, só para realizar uma fantasia dele. Que inveja do filhadaputa! E a minha fantasia sexual, como é que fica? Devia ter te contado, pois eu tenho frequentes sonhos eróticos com você. E são ótimos!
- Essa conversa está me deixando constrangida.
- Calma, coma sua pizza! Quer mais cerveja?
- Não, obrigada.
- Só mais uma lembrança: lembra de um natal passado na casa da sua mãe, em que você sentou ao meu lado? Como o sofá estava cheio de crianças barulhentas, você ficou tão próxima de mim que nossas coxas se encostaram. Você estava linda. Depois, as crianças saíram e ficamos só nós dois no sofá em uma sala vazia, a sua coxa deliciosa espremida na minha. Você não se arredou! Fiquei tão inseguro com a possibilidade de alguém nos ver assim que também me levantei, Mas fiquei com a sensação de que você tinha vontade de dar para mim. E você era a garota mais gostosa do bairro! Falando sério, você alguma vez teve vontade de dar para mim? Ainda está em tempo!
 
Ela ia responder quando alguém tocou seu ombro.
 
- Pai, acorda! A pizza chegou.
 
Estava em uma pizzaria e tinha cochilado. O filho o olhava com impaciência. Olhou sem vontade para a fatia de marguerita colocada em seu prato. Não queria comer pizza, o que queria mesmo era ter escutado a resposta.

 

RELIGARE - REFLEXÕES SOBRE RELIGIOSIDADE, CRENÇA E FÉ

  (Continuação do post anterior) Os sentimentos de perplexidade, decepção e raiva surgiram imediatamente ao ver a palavra “BLOQUEADO” à dire...