(Continuação do post anterior)
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
RELIGARE - REFLEXÕES SOBRE RELIGIOSIDADE, CRENÇA E FÉ
(Continuação do post anterior)
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
TUIUIÚ
O tuiuiú é considerado a ave-símbolo do Pantanal Matogrossense. Mesmo não sendo exatamente um passarinho – pois pode chegar a mais de 1,5 metros de altura, fiquei pensando que os ambientalistas poderiam propor a criação do “Dia do Tuiuiú”. Nesse caso, poderiam cantar esta musiquinha: “Happy Bird Day, Tuiu iú!”
Acho ficaria bom.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
CONVERSANDO SOBRE RELIGIÃO, RELIGIOSIDADE, CRENÇA E FÉ
A morte da minha mulher teve para mim o efeito de um ciclone, de um tsunami ou, no mínimo, de um capotamento de carro, pois minha vida foi revirada como se fosse uma roupa dentro de uma lavadora. Tudo mudou, nada ficou como antes.
domingo, 8 de fevereiro de 2026
DOIS MESES
Hoje se completam dois meses do dia em que te toquei pela última vez. Eu estava em choque, sem pressentir a saudade que sentiria depois, na nossa casa vazia, cheia de lembranças, enfeites, retratos e roupas que você usava para ficar ainda mais linda.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
ENFEITIÇADA, INCOMODADA E DESNORTEADA
A publicação de hoje serve
para suavizar um pouco a crueza de algumas postagens recentes. Por isso, para
não ficar falando abobrinhas, resolvi mudar a forma de apresentação de uma música lindíssima.
-
Trata-se de um vídeo musical, um clip não oficial da música Bewitched, Bothered
and Bewildered, produzido a partir da compilação de cenas extraídas
da série The
Crown, mostrando a Princesa Margaret em momentos distintos de sua vida.
Na série, foram usadas duas atrizes – uma interpretando a princesa mais jovem e
outra, já mais velha.
- Bewitched,
Bothered and Bewildered é uma das músicas mais lindas que já ouvi.
Foi composta em 1940 e, neste vídeo, é interpretada por Ella Fitzgerald. Como
não assisti a nenhum episódio da série, não sei se essa melodia faz parte ou
não de sua trilha sonora.
- O
lado bom para quem não entende nada de inglês é a existência de legendas no
vídeo, o que permite fazer analogias e ter ao menos uma pálida ideia (muito
pálida) do comportamento da Princesa Margaret.
- Em
algum momento, ela teria feito o seguinte comentário: “Era inevitável: quando
há duas irmãs e uma é a rainha, que deve ser a fonte de honra e de tudo que é
bom, a outra acaba ficando no foco da mais criativa malícia, a irmã diabólica”.
- A
irmã da Rainha Elizabeth teve uma vida social bastante agitada. Bebia muito,
fumava muito e se relacionou, ao longo do tempo, com dezenas de homens – entre
eles, talvez, Mick Jagger, dos Rolling Stones. Morreu aos 71 anos.
-
Agora, só não se deixa levar pela música sofisticada e pelas imagens quem
prefere um estilo musical mais rústico,
menos elaborado ou, digamos assim, mais “rural” ou “periférico”.
- Trata-se de um vídeo musical, um clip não oficial da música Bewitched, Bothered and Bewildered, produzido a partir da compilação de cenas extraídas da série The Crown, mostrando a Princesa Margaret em momentos distintos de sua vida. Na série, foram usadas duas atrizes – uma interpretando a princesa mais jovem e outra, já mais velha.
- Bewitched, Bothered and Bewildered é uma das músicas mais lindas que já ouvi. Foi composta em 1940 e, neste vídeo, é interpretada por Ella Fitzgerald. Como não assisti a nenhum episódio da série, não sei se essa melodia faz parte ou não de sua trilha sonora.
- O lado bom para quem não entende nada de inglês é a existência de legendas no vídeo, o que permite fazer analogias e ter ao menos uma pálida ideia (muito pálida) do comportamento da Princesa Margaret.
- Em algum momento, ela teria feito o seguinte comentário: “Era inevitável: quando há duas irmãs e uma é a rainha, que deve ser a fonte de honra e de tudo que é bom, a outra acaba ficando no foco da mais criativa malícia, a irmã diabólica”.
- A irmã da Rainha Elizabeth teve uma vida social bastante agitada. Bebia muito, fumava muito e se relacionou, ao longo do tempo, com dezenas de homens – entre eles, talvez, Mick Jagger, dos Rolling Stones. Morreu aos 71 anos.
- Agora, só não se deixa levar pela música sofisticada e pelas imagens quem prefere um estilo musical mais rústico, menos elaborado ou, digamos assim, mais “rural” ou “periférico”.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
"QUANDO EU ERA CRIANÇA"
Quando eu era criança pequena lá no bairro Carlos Prates não havia (ou não se conhecia) a diversidade de comportamentos e preferências expressa na sigla LGBTQIAPN+. Se você não sabe o que significa essa sopa de letras, vai saber agora:
L: Lésbicas; G: Gays; B: Bissexuais; T: Travestis, Transexuais e Transgêneros; Q: Queer (pessoas que não se encaixam na heterocisnormatividade); I: Intersexo (pessoas com características biológicas que não se encaixam na binariedade masculino/feminino); A: Assexuais; P: Pansexuais; N: Não-binários e (ufa!) “+”, que representa a pluralidade de outras identidades de gênero e orientações sexuais. O “ufa!” aí não é sigla, é só frescura.
Pois bem, quando eu ainda era criança só imaginava existir a sigla LG, ou seja, “L” para as lésbicas, conhecidas na época como “entendidas”, “machonas” ou sapatões e “G” para os gays – as bichas, bichas loucas, bichinhas ou viados, enfim. De um lado mulheres com comportamento masculinizado e do outro, homens delicadíssimos, voz afetada e gestual ondulante.
Sempre tive mais dificuldade para identificar as meninas “L”, o mesmo não acontecendo com os homens “G”, normalmente alegres e sempre insinuantes. Lembro-me de um que ao me ver já adolescente saindo da piscina com a água escorrendo mais concentrada nos pelos já existentes na barriga de tanquinho (eu já tive!), exclamou: “- Caminho da felicidade”.
Mas o tema de hoje não são reminiscências da infância e juventude. Tudo surgiu e foi motivado por um comentário feito pelo titular do blog “As Crônicas do Edu” a respeito de recente postagem que fiz com o título “Macho Dzeta” onde, sem me estender muito, confessei ser um heterossexual um pouquinho afeminado – traço de comportamento apreciado por algumas mulheres (não todas). Em outras palavras, um membro da fictícia “ABHA - Associação Brasileira de Heteros Afeminados”.
Meu amigo Eduardo, talvez sentindo-se incomodado com minhas “inconfidências”, lascou um comentário que me fez pensar neste texto, ampliando um pouco minha resposta original.
Falando sério, eu realmente falo "noossa" e "ui". O "ui" é real e o "noossa" é só de gozação, mas é difícil definir o limite entre um homem "sensível" e um afeminado, pois essa "fronteira" é elástica, fluida, da mesma forma que é difícil definir o que é um "macho". Cara, eu odeio esta palavra, tanto quanto "fêmea"! São duas palavras redutoras que servem apenas para coisificar alguém que tem muito mais para mostrar que apenas um comportamento estereotipado.
A realidade, aliás, vive desmentindo esses rótulos. Há gays com comportamento muito mais “macho”, dentro do imaginário tradicional, do que muitos heteros sensíveis ou vistos como afeminados. E está tudo bem. Porque orientação sexual não é manual de conduta, e masculinidade não vem com certificado de autenticidade.
Posso estar enganado, mas os homens que espancam ou matam suas companheiras estão abrigados no nicho "macho das antigas", usando um termo que acho engraçado. Obviamente – e ainda bem – são minoria. Mas fruto direto de uma ideia ultrapassada e tóxica do que significa “ser homem”.
No fim das contas, talvez o problema possa não ser o “ui”, o “noossa”, a sensibilidade ou a firmeza. Os costumes mudam, as pessoas podem também mudar, suavizando arestas antigas e revendo costumes enraizados, aceitando com mais naturalidade a multiplicidade de comportamentos e escolhas. Que acham disso? (cartas para a redação)
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
UM MUNICÍPIO INVISÍVEL
Minas Gerais tem 853 municípios. Em Belo Horizonte, (sobre)vivem 15.474 pessoas em situação de rua – um contingente maior do que a população de 618 municípios do estado.
Diante dessa situação absurda, talvez seja uma boa criar o 854º município – o da população em situação de rua. Com direito a prefeito e verbas federais! Ou não?
domingo, 1 de fevereiro de 2026
GASTANDO O LATIM – MILLÔR FERNANDES
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
NÃO QUE EU QUEIRA ME GAMBÁ, MAS...
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
JURA QUE ISSO É PSICOGRAFIA?
- Você acredita em espiritismo?
- Por que está perguntando?
- Curiosidade...
- Olha aqui, palhaço, já vou avisando: no Brasil preconceito religioso é crime, falou?
- Eu não tenho preconceito contra religiões! Só desconfio de certezas absolutas, inclusive das minhas.
- Cuidado com as idiotices que gosta de falar!
- Afinal, você acredita ou não acredita?
- Eu sou ateu, um cara que crê na descrença.
- Olha o filósofo!
- Vamos mudar de assunto?
- Só se for para falar de psicografia.
- Lá vem você!
- Meu vizinho ganhou de um amigo um livro psicografado por esse amigo. Mas ele só entende de futebol e cerveja, não necessariamente nessa ordem.
- E daí?
- Daí que ele me emprestou o livro, pedindo para eu dar minha opinião.
- Terceirizou a leitura, né?
- Pois é. Comecei a ler, mas achei os textos muito banais, piegas, excessivamente “edificantes”. Mesmo sem conhecer porra nenhuma do autor psicografado – exceto a fama de poeta maldito – não consegui deixar de pensar no que disse um crítico literário quando lhe perguntaram sobre livros psicografados. A resposta dele foi fulminante: disse não entender nada do mundo dos espíritos, mas que a morte fazia muito mal para o estilo dos autores psicografados.
- Já imagino que sua avaliação não será muito animadora para quem te emprestou o livro.
- Pois é. Se o psicografador publicasse o livro assumindo claramente a autoria, não haveria problema algum. Bom ou ruim, seria ele ali, em cada texto, não um autor falecido.
- Você acha que ele inventou tudo?
- Não, de jeito nenhum, só acho que ele acreditou receber do Além algo que, no fim das contas, vinha da própria cabeça.
- Pela primeira vez na vida você está dizendo coisa com coisa. Impressionante!
- Mas eu ainda nem acabei o raciocínio! Imagine textos como os que são publicados no Blogson Crusoe. Aquilo é tão ruim que poderia muito bem ser apresentado como psicografia ditada a um senhor idoso por um espírito com zero vocação literária.
- Eu sabia que vinha provocação por a! E quem seria esse espírito tão pouco inspirado?
- Ué, só pode ser Jotabê, que assina todos os textos. Sei lá, vai que ele já morreu e esqueceram de lhe avisar.
- Valei-me Santo Allan Kardec!
ATIVIDADES SEXUAIS
A apresentadora de um programa feminino pergunta
a uma jovem senhora da plateia:
– A senhora pode contar aos nossos telespectadores quais são as atividades de
uma típica dona de casa deste bairro?
– Ah, sim… De manhã, levo os meninos ao
colégio. Depois, na volta do colégio, tenho três horas de atividades sexuais…
Então, o meu marido e filhos chegam para o almoço, almoçam; ele volta para o
trabalho e as crianças vão fazer os deveres… Aí, tenho mais algumas horas de atividades
sexuais até à noite, quando jantamos e vamos todos para a cama!
– Desculpe, mas a senhora pode nos explicar
em que consistem essas atividades sexuais?
– Ah, lógico, explico sim! Atividade sexual é
fazer tudo o que é fodido: varrer, lavar o chão, lavar a roupa, arear as
panelas, lavar e tratar do cão, arrumar, costurar, passar as roupas, limpar o
pó, lavar os vidros…
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
MACHO DZETA
Li uma reportagem que me deixou super animado, pois descobri que meu perfil delicado está muito valorizado no mercado. Não que eu esteja à venda nem que alguém queira me comprar, mas agora eu sou um homem viúvo que, mesmo guardando um luto real, não posso dizer que fico indiferente à minha desconhecida capacidade de agradar uma gata do sexo oposto (claro, né? gata, sexo feminino; gato, sexo masculino).
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
TÚNEL DO TEMPO
Outro dia minha irmã me entregou um envelope amarelecido e manchado pela ação do tempo, que estava guardado dentro de um livro de orações da minha mãe. Segundo ela, ao procurar uma certidão antiga, encontrou esse envelope. Dentro, uma carta endereçada a mim, escrita por meu tio e padrinho em “papel de carta”, com uma letra miúda, quase feminina.
É uma carta estranha, escrita para me ajudar a vencer a insegurança da adolescência. Sinceramente, não me lembro de jamais ter recebido essa carta nem consigo imaginar por que foi guardada por minha mãe. Teria sido escrita por ela como se fosse meu tio e desistido de me enviar?
Talvez essa carta tenha sido motivada por sinais que eu já dava naquela época. Aos dezesseis anos, eu carregava uma mistura intensa de medo, culpa e curiosidade. Talvez eu tivesse morrido de vergonha ao lê-la, pois vivia com a sensação de estar sempre fazendo algo errado, mesmo quando ninguém dizia nada.
Afinal, para quem pediu perdão a Deus pelo gozo da primeira masturbação, para quem furou a porta do banheiro para ver a tia solteira tomar banho e imaginou aprender a beijar lendo as revistas Seleções do Reader’s Digest deixadas justamente por esse tio, não seria nada demais receber conselhos para me ajudar a viver e a vencer o medo paralisante que sentia.
O pequeno furo na porta do banheiro, feito e refeito algumas vezes, denunciava um desejo que eu não sabia controlar. Ninguém nunca mencionou o assunto, mas o pequeno furo estava lá, visível. Minha mãe certamente o viu. O silêncio, nesse caso, parece ter sido a forma escolhida para ela lidar com aquilo.
Talvez por isso a carta. Não como repreensão direta, mas como desvio: falar de timidez, de medo, de insegurança, quando o problema parecia maior e mais difuso. Aos dezesseis anos eu já carregava uma neurose daquelas boas, algo que, mesmo para os padrões confusos da adolescência, não parecia exatamente normal.
Teria sido essa a motivação? A incapacidade de ter uma conversa franca e direta comigo? Nunca saberei a verdade. Mesmo assim, resolvi digitar o conteúdo dessa provável “fake letter”, corrigindo os erros de português, para talvez publicar no blog. Meu tio e padrinho morreu em 1988 e minha mãe em 2009.
Zezinho,
Estou te escrevendo porque gosto de você e porque sou seu padrinho. Sempre falei que você parece comigo quando eu era novo, quieto demais, cheio de medo das coisas. Mesmo morando fora e trabalhando em outra cidade, a gente nunca deixa de pensar na família.
Quando saí de casa pra estudar odontologia em Uberaba, achei que ia ficar mais tranquilo, mais solto pra conversar com as moças. Eu sempre fui muito sério, diferente dos meus irmãos, mais quieto, sempre com medo de errar, de passar vergonha. Comecei a trabalhar cedo, mas tinha dificuldade para arranjar namorada.
Demorei pra beijar uma menina, pra namorar, e quando namorei não durou muito. Eu não sabia o que dizer, ficava nervoso demais. Esse medo acabava me atrapalhando mais do que ajudando. Eu queria acertar tanto que não fazia nada direito. Ainda bem que conheci a Teresinha.
Com o tempo entendi que ninguém nasce sabendo. Todo mundo passa vergonha alguma vez. Ouvir um não dói, mas passa. Ficar sem tentar é pior. Medo todo mundo tem, mas não pode deixar ele mandar na gente.
Você sempre foi mais tímido, mas está fazendo dezesseis anos hoje, não tenha vergonha de não saber. Pergunte, tente, arrisque. Se der errado, faz parte da vida. O importante é não ficar parado.
Venha me visitar um dia, assim eu aproveito e dou uma olhada nos seus dentes. E parabéns pelo aniversário.
Cici.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
domingo, 25 de janeiro de 2026
"PELA ESTRADA AFORA EU VOU"...
Depois de ficar sabendo que o deputado Nikolas Ferreira resolveu fazer uma caminhada até Brasília em defesa da liberdade (do Bolsonaro) e da justiça (o que ele entende por isso), uma espécie de “coluna Prestes” da Direita, fiquei pensando o que move alguém a fazer uma idiotice dessas. Depois, com mais calma, entendi que idiotas somos nós que damos atenção a essa jogada de marketing. Como sou confessadamente um ignorantão em matéria de política e, para ser sincero, já estar de saco dessas birrinhas envolvendo bolsonaristas e lulistas, pedi ao ChatGPT, meu consultor para assuntos aleatórios, uma análise histórica da situação.
Se quiser, posso:
enxugar ainda mais para um artigo acadêmico,
encurtar para artigo de jornal impresso,
O debate político brasileiro vive hoje menos de projetos e mais de identidades. A disputa deixou de ser apenas sobre políticas públicas e passou a operar como confronto moral, no qual o adversário é tratado não como opositor legítimo, mas como ameaça existencial. Nesse ambiente, a história, a cultura e até o Judiciário entram em cena como armas simbólicas, usadas para reforçar posições já cristalizadas.
A memória histórica continua presente no debate público, mas raramente aparece como instrumento de reflexão. Ela é acionada de forma seletiva, conforme a conveniência política do momento. Episódios do passado funcionam como atalhos morais: servem para acusar, rotular e deslegitimar, não para explicar. O resultado é um empobrecimento do debate e o aprofundamento da polarização.
Esse mecanismo se expressa com força no campo cultural. Filmes e obras que abordam temas sensíveis da história recente provocam reações políticas imediatas. Reconhecimentos internacionais são interpretados, por setores da direita, como ataques ideológicos ao país ou tentativas de impor uma leitura única da história. Para outros, representam gestos legítimos de memória e crítica. A cultura, assim, deixa de ser espaço de reflexão e passa a integrar o conflito político cotidiano.
A mesma lógica organiza o antipetismo, eixo central da direita brasileira contemporânea. O ódio ao presidente Lula vai além de avaliações sobre economia ou políticas sociais. Lula se tornou um símbolo: do PT, do sindicalismo, do protagonismo do Estado e da ascensão dos mais pobres. Para diferentes grupos da direita — liberais, conservadores morais, evangélicos e bolsonaristas — rejeitá-lo funciona como identidade política compartilhada.
Esse antipetismo dispensa programa e substitui propostas por rejeição. A corrupção, embora real nos governos petistas, é lembrada de forma seletiva, enquanto práticas semelhantes em campos aliados são relativizadas. Ao mesmo tempo, Lula governa de forma pragmática, sem rupturas institucionais, o que frustra narrativas alarmistas e intensifica o ressentimento. O conflito, portanto, não é apenas sobre desempenho, mas sobre o que Lula representa.
Mesmo com um governo institucionalmente estável, economicamente moderado e socialmente previsível, a hostilidade persiste. O governo Lula III recompõe relações entre os Poderes, reduz conflitos institucionais e retoma políticas sociais, mas não dissolve a polarização porque ela se alimenta de identidades, não de resultados.
É nesse cenário que lideranças como o deputado federal Nikolas Ferreira ganham projeção. O parlamentar mais votado da última eleição, evangélico e identificado com a direita, mobiliza apoio por meio de discursos morais e simbólicos. A proposta de uma caminhada de Minas Gerais até Brasília, apresentada como defesa da “justiça” e da “liberdade”, inclusive em favor de envolvidos em atos golpistas, ilustra como disputas políticas e jurídicas são deslocadas para um terreno moral absoluto, onde o adversário passa a ser visto como inimigo.
O risco desse processo é a normalização da lógica de confronto permanente. Quando a política se transforma em guerra moral, o espaço para negociação, compromisso e pluralismo se estreita. Tudo vira prova de caráter, e qualquer divergência é tratada como ameaça.
Talvez o principal desafio do Brasil hoje não seja escolher entre direita ou esquerda, mas entre radicalização e institucionalidade. Enquanto o debate público continuar organizado em torno do ódio, da deslegitimação e da moralização absoluta, o país seguirá preso a um conflito que se retroalimenta — e que impede a construção de projetos políticos capazes de dialogar com a complexidade do presente.
sábado, 24 de janeiro de 2026
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
MÃE - CRIS GUERRA
Separando coisas guardadas por minha mulher, encontrei um livrinho pequeno, fininho com belas ilustrações, publicado pela Editora Miguilim, e delicado como parecer ser a autora do texto.
quando nasce um bebê, nasce também uma mãe.
Um restaurante delivery. Uma máquina de chocolate prontinho. Uma mecânica de carrinhos e controle remoto. Uma médica de bonecas. Uma professora–terapeuta–cozinheira de carreira medíocre. Nasce uma fábrica de cafuné, um chafariz de soro biológico, um robô que desperta ao som de choro.
– mães não se conformam em deixar o mundo sem encaminhar devidamente um filho.
Se já era impossível, cuidado:
ela vira muitas.
Mães são fogo. Ninguém segura. Se antes eram incapazes de matar um mosquito, adquirem uma fúria inédita. Montam guarda ao lado de suas crias, dispostas a enfrentar tudo o que zumbir perto delas.
pernilongos, lagartas, leões, gente.
– alguém está?
passou.
Onde fica Guiné–Bissau.
Os rumos da agricultura orgânica. As alternativas contra o aquecimento global. Política.
E até sua própria saúde.
Filhos as rejuvenescem, tornando suas vidas mais perigosas
– e mais urgentes.
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
BLOCO DE GRANITO
Minha mulher tem uma prima que mora há muitos anos em Portugal, depois de vender tudo o que tinha aqui e mudar-se definitivamente para lá, levando marido e filha. Não sei a frequência com que vem ao Brasil, só sei que em uma dessas promoveu o encontro das primas, momento registrado em uma foto linda que me mandou há uns três dias. Não sei em que ano foi isso, mas deduzo ter sido antes da descoberta da doença terminal da minha Amada. E ela estava linda na foto!
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
BOLA-GATO?
Depois de alfabetizado e já conhecedor de alguns palavrões, comecei a procurá-los às escondidas no “Dicionário Escolar da Língua Portuguesa”. Embora fossem palavras e expressões corriqueiras – cu, puta e seu respectivo filho, viado e outros de mesma elegância –, não encontrei nenhum, nem mesmo uma reles bunda. Parece que a incorporação de palavras chulas aos dicionários tipo Aurélio aconteceu de forma progressiva ao longo do século XX, como forma de se obter um registro completo da língua portuguesa falada no Brasil, o que acho sensacional. Obviamente, um “dicionário escolar” do início do século passado jamais exibiria em suas páginas essas putarias ditas nas ruas.
domingo, 18 de janeiro de 2026
sábado, 17 de janeiro de 2026
PREFERE SONHO OU REALIDADE?
Esta crônica foi escrita originalmente com palavras mais cruas, com linguagem mais explícita. Sugeriram que eu a tornasse "palatável" para leitoras de comportamento mais delicado e elegante. Até pedi ajuda ao moralista ChatGPT, mas a versão ficou muito suave, quase asséptica. Aí resolvi fazer uma suavizada jotabélica.
Ele precisava falar com alguém. Precisava de
companhia. Ligou para uma antiga amiga.
- Oi,
Ricardo, que surpresa! Como você está?
-
Vivendo.
-
Parece que não está bem…
- Que "nada" você tem para fazer hoje?
- Como
assim?
-
Reformulando: você tem alguma coisa para fazer hoje?
- Não. Só ver o BBB. Por quê?
-
Queria te convidar para comer uma pizza. Estou precisando de companhia.
-
Adorei! Amo pizza. Você me pega aqui?
- Eu te
pego em qualquer lugar, do jeito que você quiser, meu sonho sempre foi te pegar.
-
Engraçadinho!
- Oito
horas?
- Oito.
Às oito em ponto ele a pegou na porta do
prédio. Ela já o esperava na calçada. Estava envelhecida, mas continuava
alimentando suas fantasias.
Depois dos beijinhos automáticos, ela
perguntou como ele estava, enquanto escolhia o sabor da pizza.
- E
então, como está convivendo com a solidão?
-
Estranha. Casa vazia. Vida vazia.
- Você
gostava bem dela, não?
- Sim e
não. Talvez estivesse acostumado a uma rotina cheia de silêncios. Quando ela se
separou eu me assustei, mas entendi. Já não transávamos havia três anos.
- Três
anos? E como você administrava isso?
- Usava
o método adolescente, no banheiro.
- Credo!
-
Horrível está agora. Nunca tive tanta vontade de contato físico com uma mulher, com o corpo nu de uma mulher! Abraçar, beijar, cheirar, tocar, todas as possibilidades que um encontro íntimo propicia. E isso está me deixando maluco.
Ela desviou o olhar.
- E o
que você pretende fazer? Pagar uma garota de programa?
- Está louca? Eu sempre valorizei a afinidade, a intimidade com a parceira.
- Onde
você acha que vai encontrar isso hoje?
- Foi
por isso que te convidei para comer pizza.
Incrédula, ela reaspondeu:
- Você
enlouqueceu?
-
Talvez. Mas sempre tive a sensação de que você gostava de me provocar e seduzir com suas
histórias sensuais e picantes.
- Nunca
te contei histórias picantes!
-
Contou de homens. De sexo. E aquilo incendiava minha imaginação. O auge foi
quando me matou de desejo ao contar ter ido para o motel com um ex-colega de
colégio, só para realizar uma fantasia dele. Que inveja do filhadaputa! E a
minha fantasia sexual, como é que fica? Devia ter te contado, pois eu tenho frequentes sonhos eróticos com você. E são ótimos!
- Essa
conversa está me deixando constrangida.
- Calma, coma sua pizza! Quer mais cerveja?
- Não, obrigada.
- Só
mais uma lembrança: lembra de um natal passado na casa da sua mãe, em que você
sentou ao meu lado? Como o sofá estava cheio de crianças barulhentas, você
ficou tão próxima de mim que nossas coxas se encostaram. Você estava linda. Depois, as crianças
saíram e ficamos só nós dois no sofá em uma sala vazia, a sua coxa deliciosa espremida na minha. Você não se arredou! Fiquei tão inseguro com a possibilidade de alguém nos ver assim que também me levantei, Mas fiquei com a sensação de que
você tinha vontade de dar para mim. E você era a garota mais gostosa do bairro!
Falando sério, você alguma vez teve vontade de dar para mim? Ainda está em tempo!
Ela ia responder quando alguém tocou seu
ombro.
- Pai,
acorda! A pizza chegou.
Estava em uma pizzaria e tinha cochilado. O
filho o olhava com impaciência. Olhou sem vontade para a fatia de marguerita colocada em seu prato. Não queria comer pizza, o que queria mesmo era ter escutado a resposta.
RELIGARE - REFLEXÕES SOBRE RELIGIOSIDADE, CRENÇA E FÉ
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