quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

MÃE - CRIS GUERRA

 
Separando coisas guardadas por minha mulher, encontrei um livrinho pequeno, fininho com belas ilustrações, publicado pela Editora Miguilim, e delicado como parecer ser a autora do texto.
 
Cris Guerra é uma publicitária mineira, cronista, blogueira e escritora de sucesso. Mora atualmente em São Paulo e, desde 2022, prefere ser chamada de “Cris Pàz” (com “a” craseado), alteração que ela assim explica: “Cansei de ser chamada de guerreira”.
 
Pois bem, depois de gastar não mais que cinco minutos para ler o livreto encontrado  que me fez lembrar (e ter saudade) da mãe que meus filhos tiveram , decidi transcrevê-lo integralmente neste blog desconhecido e mais abandonado que ruína maia no meio da selva, . Entretanto, se ela vier a saber e se zangar por esta publicação-homenagem não autorizada, eu apagarei o post.
 
Até lá, espero que os leitores e leitoras que acessam o Blogson se deliciem com o texto – que tentei manter quase com a mesma diagramação do livro.
 
 
Dizem:
quando nasce um bebê, nasce também uma mãe.
 
É um polvo.
Um restaurante delivery. Uma máquina de chocolate prontinho. Uma mecânica de carrinhos e controle remoto. Uma médica de bonecas. Uma professora–terapeuta–cozinheira de carreira medíocre. Nasce uma fábrica de cafuné, um chafariz de soro biológico, um robô que desperta ao som de choro.
 
E principalmente: nasce a fada do beijo
 
Quando nasce um bebê, nasce também o medo da morte
– mães não se conformam em deixar o mundo sem encaminhar devidamente um filho.
 
Não pense você que ao se tornar mãe uma mulher abandona todas as mulheres que já foi um dia. Bobagem. Ganha mais mulheres em si mesma. Com seus desejos aumentam sua audácia, sua garra, seus poderes.
Se já era impossível, cuidado:
ela vira muitas.
 
Também não me venha imaginar mães como seres delicados e frágeis.
Mães são fogo. Ninguém segura. Se antes eram incapazes de matar um mosquito, adquirem uma fúria inédita. Montam guarda ao lado de suas crias, dispostas a enfrentar tudo o que zumbir perto delas.
pernilongos, lagartas, leões, gente.
 
Mães não têm tempo para o ensaio: estreiam a peça no susto.
 
Aprendem a pilotar o avião em pleno voo. E dão o exemplo, mesmo que nunca tenham sido exemplo.
 
Cobrem seus filhos com o cobertor que lhes falta. E, não raro, depois de fazerem o impossível, acreditam que poderiam ter feito melhor.
 
Nunca estarão prontas para a tarefa gigantesca que é criar um filho.
– alguém está?
 
Mente quem diz que mãe sente menos dor – pelo contrário! Ela apenas aprende a deixar sua dor para outra hora. Atira o seu choro no chão para ir acalentar o do filho.
 
Nas horas vagas, dorme. Abastece a casa. Trabalha. Encontra os amigos. Lê, ou adormece com um livro no rosto. E, quando tem tempo pra chorar – cadê?
passou.
 
A mãe então aproveita que a casa está calma e vai recolher os brinquedos da sala. Como esse menino cresceu, ela pensa, a caminho do quarto do filho. Termina o dia exausta, sentada no chão da sala, acompanhada de um sorriso besta.
 
Já os filhos, ah os filhos fazem a mãe voltar os olhos para coisas que não importavam antes. O índice de umidade do ar. Os ingredientes o suco de caixinha. O nível de sódio do macarrão sem glúten.
Onde fica Guiné–Bissau.
Os rumos da agricultura orgânica. As alternativas contra o aquecimento global. Política.
E até sua própria saúde.
 
Mães são mulheres ressuscitadas.
Filhos as rejuvenescem, tornando suas vidas mais perigosas
– e mais urgentes.
 
Qundo nasce um bebê nasce uma empreiteira. Capaz de cavar a estrada qundo não há caminho, só pra poder indicar:
 
Por ali, filho, naquela direção.
 
 

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

BLOCO DE GRANITO

 
Minha mulher tem uma prima que mora há muitos anos em Portugal, depois de vender tudo o que tinha aqui e mudar-se definitivamente para lá, levando marido e filha. Não sei a frequência com que vem ao Brasil, só sei que em uma dessas promoveu o encontro das primas, momento registrado em uma foto linda que me mandou há uns três dias. Não sei em que ano foi isso, mas deduzo ter sido antes da descoberta da doença terminal da minha Amada. E ela estava linda na foto!
 
Tenho tentado me manter na superfície, mesmo que nem saiba exatamente para quê. Mas rever suas imagens, seu permanente sorriso, sua beleza irretocável, isso me derruba, me afoga, como se fosse jogado na água com uma pedra amarrada em meus pés. Nesses momentos eu sinto o efeito da solidão, de estar só. Sinto por dentro um vazio tão cheio, uma falta tão pesada, que pesa como um bloco de granito que cai do caminhão que o transportava e fica ali, na beira da estrada, à espera de alguém que o remova.
 
Para agradecer a gentileza por ter-me enviado uma foto tão linda, pedi ao ChatGPT para fazer o desenho de duas fotos em que eu e ELA estávamos juntos, em preto e branco, mas exatamente iguais aos originais (uma foto era colorida). E enviei o resultado para a prima de Portugal. 20 dias depois desta última foto fui condenado a não tê-la nunca mais ao meu lado.



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

BOLA-GATO?

 
Depois de alfabetizado e já conhecedor de alguns palavrões, comecei a procurá-los às escondidas no “Dicionário Escolar da Língua Portuguesa”. Embora fossem palavras e expressões corriqueiras – cu, puta e seu respectivo filho, viado e outros de mesma elegância –, não encontrei nenhum, nem mesmo uma reles bunda. Parece que a incorporação de palavras chulas aos dicionários tipo Aurélio aconteceu de forma progressiva ao longo do século XX, como forma de se obter um registro completo da língua portuguesa falada no Brasil, o que acho sensacional. Obviamente, um “dicionário escolar” do início do século passado jamais exibiria em suas páginas essas putarias ditas nas ruas.
 
O tempo passou e um dia, assistindo no auditório de uma empresa onde trabalhei a uma conferência sobre comunicação, a palestrante começou a perguntar à plateia se sabiam o significado de várias palavras e expressões usadas “pelos filhos de vocês”, argumentando sobre a necessidade de comunicar-se com todo mundo, e que isso pressupunha saber como atingir seu “público”, independente da idade ou nível cultural, principalmente em se tratando de sexo e drogas.
 
Uma das expressões citadas por ela foi “bola-gato”. E destrinchou: bola-gato em inglês significa “ball-cat”, com sonoridade semelhante a “boquete”, sinônimo vulgar de felação (que muita gente pratica sem saber da existência dessa palavra). Falou também do manjado “meia-nove” e do “frango assado”, posição sexual que facilita muito a entrada do passarinho – mas que não deve ser confundido com “frango a passarinho”.
 
Estava pensando em escrever uma crônica contando esta história, mas não consegui me lembrar de mais nenhuma das outras palavras e expressões ouvidas na palestra. Apenas me lembro de uma jovem extremamente atraente sentada logo à minha frente, que demonstrou manifesto domínio do assunto ao “traduzir” os vários significados, em voz baixa e simultaneamente com a palestrante. A diferença era o tom de voz: alegre e animada dita ao microfone pela conferencista e suspirosa, sussurrante, dita quase miando, pela gata.
 
Depois disso a imprensa divulgou a expressão “golden shower”, que define uma prática sexual repulsiva e inacreditavelmente postada em suas redes sociais por um ex-chefe de Estado e atual presidiário. Dignidade zero, já viu, né? Mais recentemente ouvi falar de “beijo grego”, prática de gosto pra lá de duvidoso. Recentemente, em um canal de TV a cabo ouvi as expressões “sugar baby” e “sugar daddy”, expressões que não saberia dizer se têm uso corrente no Brasil. Depois disso, não descobri mais nenhuma.
 
Isso me fez perceber minha ignorância nesse tipo de linguagem, facilmente explicada pela minha idade provecta, pela minha natural pudicícia e elevados valores morais, claro. Por isso, caso os leitores ou leitoras queiram contribuir para abrilhantar este texto, podem informar as palavras e expressões de que conhecem o significado (apenas teórico, lógico), para que eu as inclua neste texto tão desconchavado, que tenta fazer bom uso da língua, desmistificando e aceitando sem drama uma eventual vulgaridade. Podem me ajudar?

sábado, 17 de janeiro de 2026

PREFERE SONHO OU REALIDADE?


Esta crônica foi escrita originalmente com palavras mais cruas, com linguagem mais explícita. Sugeriram que eu a tornasse "palatável" para leitoras de comportamento mais delicado e elegante. Até pedi ajuda ao moralista ChatGPT, mas a versão ficou muito suave, quase asséptica. Aí resolvi fazer uma suavizada jotabélica.
Ele precisava falar com alguém. Precisava de companhia. Ligou para uma antiga amiga.
 
- Oi, Ricardo, que surpresa! Como você está?
- Vivendo.
- Parece que não está bem…
- Que "nada" você tem para fazer hoje?
- Como assim?
- Reformulando: você tem alguma coisa para fazer hoje?
- Não. Só ver o BBB. Por quê?
- Queria te convidar para comer uma pizza. Estou precisando de companhia.
- Adorei! Amo pizza. Você me pega aqui?
- Eu te pego em qualquer lugar, do jeito que você quiser, meu sonho sempre foi te pegar.
- Engraçadinho!
- Oito horas?
- Oito.
 
Às oito em ponto ele a pegou na porta do prédio. Ela já o esperava na calçada. Estava envelhecida, mas continuava alimentando suas fantasias.
Depois dos beijinhos automáticos, ela perguntou como ele estava, enquanto escolhia o sabor da pizza.
 
- E então, como está convivendo com a solidão?
- Estranha. Casa vazia. Vida vazia.
- Você gostava bem dela, não?
- Sim e não. Talvez estivesse acostumado a uma rotina cheia de silêncios. Quando ela se separou eu me assustei, mas entendi. Já não transávamos havia três anos.
- Três anos? E como você administrava isso?
- Usava o método adolescente, no banheiro.
- Credo!
- Horrível está agora. Nunca tive tanta vontade de contato físico com uma mulher, com o corpo nu de uma mulher! Abraçar, beijar, cheirar, tocar, todas as possibilidades que um encontro íntimo propicia. E isso está me deixando maluco.
 
Ela desviou o olhar.
 
- E o que você pretende fazer? Pagar uma garota de programa?
- Está louca? Eu sempre valorizei a afinidade, a intimidade com a parceira.
- Onde você acha que vai encontrar isso hoje?
- Foi por isso que te convidei para comer pizza.
 
Incrédula, ela reaspondeu:
 
- Você enlouqueceu?
- Talvez. Mas sempre tive a sensação de que você gostava de me provocar  e seduzir com suas histórias sensuais e picantes.
- Nunca te contei histórias picantes!
- Contou de homens. De sexo. E aquilo incendiava minha imaginação. O auge foi quando me matou de desejo ao contar ter ido para o motel com um ex-colega de colégio, só para realizar uma fantasia dele. Que inveja do filhadaputa! E a minha fantasia sexual, como é que fica? Devia ter te contado, pois eu tenho frequentes sonhos eróticos com você. E são ótimos!
- Essa conversa está me deixando constrangida.
- Calma, coma sua pizza! Quer mais cerveja?
- Não, obrigada.
- Só mais uma lembrança: lembra de um natal passado na casa da sua mãe, em que você sentou ao meu lado? Como o sofá estava cheio de crianças barulhentas, você ficou tão próxima de mim que nossas coxas se encostaram. Você estava linda. Depois, as crianças saíram e ficamos só nós dois no sofá em uma sala vazia, a sua coxa deliciosa espremida na minha. Você não se arredou! Fiquei tão inseguro com a possibilidade de alguém nos ver assim que também me levantei, Mas fiquei com a sensação de que você tinha vontade de dar para mim. E você era a garota mais gostosa do bairro! Falando sério, você alguma vez teve vontade de dar para mim? Ainda está em tempo!
 
Ela ia responder quando alguém tocou seu ombro.
 
- Pai, acorda! A pizza chegou.
 
Estava em uma pizzaria e tinha cochilado. O filho o olhava com impaciência. Olhou sem vontade para a fatia de marguerita colocada em seu prato. Não queria comer pizza, o que queria mesmo era ter escutado a resposta.

 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

SOMEBODY TO LOVE – ANNE HATHAWAY

Este é um blog que perdeu a vergonha na cara, ou melhor, em que o blogueiro perdeu toda a compostura. Por isso, para alegrar ouvidos, corações e mentes, um vídeo – na verdade o trecho de um filme estrelado pela linda Anne Hathaway (que boca, meu Deus!), cantando a música “Somebody to Love”, do Queen (lindíssima).




quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

O ÚLTIMO PROJETO

Mesmo que possa estar equivocado, tenho sentido não ter mais muito tempo de vida. Por isso, talvez seja o momento de dar início a meu último projeto. Primeiro comprarei um caderno brochura pequeno, pautado e de capa mole, desses que o governo dava para os alunos do ensino fundamental. Munido de caneta esferográfica, começarei a escrever sobre minha vida, mas não uma biografia para auto-endeusamento. Ao contrário, escreverei tudo de ruim, ridículo, vergonhoso ou imoral que cometi ao longo da vida e que tentei esquecer e manter às escondidas até de mim mesmo, por ser muito doloroso ou condenável.
 
Começarei recordando as pequenas trapaças e os pequenos furtos cometidos na infância e adolescência. Passarei depois a anotar os pensamentos pecaminosos, libidinosos, inconfessáveis e doentios que tive durante toda a minha vida, fantasias sexuais com tias, primas, cunhadas e amigas, mulheres próximas demais, proibidas demais, que molharam meus sonhos ou me acompanharam no banho solitário debaixo do chuveiro.
 
Em seguida virão as pequenas e grandes mentiras, as fraquezas, as traições que cometi ou quando não fui capaz de reagir nas muitas vezes em que fui ultrajado. Sem querer esconder nada, confessarei como fui  pervertido, indecente ou desonesto.
 
Nada será omitido. Quero escrever em detalhes as vezes em que fui depravado e sórdido. Começarei a registrar os pesadelos que às vezes me atormentam desde a primeira infância, as lembranças que trazem arrependimento e vergonha por sempre ter-me comportado de forma tão covarde, abjeta e degradante, de ter-me humilhado de forma tão pusilânime, de ter sido tão medroso e mesquinho ao longo da vida. Porque por trás do meu comportamento sorridente e educado sempre houve alguém frágil e inseguro, mas também falso, odioso, sádico e cruel.
 
E, no entanto, ninguém nunca lerá uma linha sequer sobre isso, sobre minhas baixezas e falta de caráter. Quando eu terminar, o caderno será posto dentro de uma lata com álcool e queimado até virar cinza. Assim, serei sempre lembrado como alguém amistoso, gentil e cordial (mesmo que um pouco arredio)  pelas pessoas que pensavam me conhecer.

setembro/2025

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA

Tenho tentado publicar textos provocadores ou divertidos, para espantar a saudade que não acaba, mas hoje estou com síndrome de abstinência. Como estou sentindo sua falta, Lily!

Como já contei aqui no blog, nunca consegui memorizar o número do meu celular, problema resolvido com um pedaço de fita crepe colado nas costas do aparelho, onde anotei o diabo do número. Para aproveitar o aparelho e o número do celular que era dela (que eu memorizei), fiz uma limpa nas milhares de fotos e imagens que ia acumulando, um trabalho que resultou no descarte de quase 4.000 arquivos.
 
Ela tinha um comportamento de esponja e arquivava tudo o que recebia: imagens e gravuras encharcadas de carinho, mensagens fofinhas, fotos de filhos, netas, irmãos, primos e de todas as pessoas que conhecia. O que sei é que rever sua imagem sempre linda e sorridente me deixou de bode (usando uma gíria antiga), triste e com a sensação de que viver não vale mais a pena. Pior ainda foi descobrir um vídeo de 2022 que ela fez para duas netinhas por ocasião de seu aniversário de três anos, se não me engano. Vê-la e ouvir sua voz novamente teve o efeito de um soco na cara, me nocauteou. Ah, Lily!
 
Se eu puxar a genética da família de minha mãe corro o risco de precisar suportar viver até os noventa anos ou pouco menos. Olha que chatice isso significa sem ela ao meu lado! Como cantaram os Titãs, “não vou me adaptar”.
 
Estava nessa tristeza quando a consciência foi invadida por um pensamento bizarro e inesperado: talvez seja melhor nunca ter relacionamentos de longa duração, talvez o melhor seja promover a separação ainda em vida (claro, né?), para que a dor provocada possa ser amortecida pela visão mesmo que fugaz do outro ou outra, pela notícia de que ela/ele está bem.
 
Talvez, quem sabe, até role uma pegada para matar a saudade, mas nunca, jamais, que a separação seja irreversível, provocada pela morte de um dos dois, pois isso dói demais. Claro que estou falando de um casal que se ama, bem o oposto dos feminicidas que matam por se acreditarem proprietários daquele corpo, daquela alma, daquela mente.
 
Então, esta é a teoria miojo de hoje: Você ama sua mulher, seu marido? Separe-se dele enquanto é tempo, para não sofrer a dor que sinto nem uma saudade que não se acaba.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

NO CONSULTÓRIO

 
Dois casos reais que meu filho ouviu de um antigo professor – tão bizarros que achei que não deviam ser esquecidos.
 
 
APRENDIZ
Era a última consulta agendada e o médico chama o paciente. Entra um homem se contorcendo todo, acompanhado de uma mulher. Segue o diálogo:
 
- O que o senhor está sentindo? Está com alguma dor?
- Não doutor, eu estou ensaiando para receber espírito no centro perto da minha casa.
 
Depois de examinado, o paciente recebeu a receita de um analgésico, talvez para aliviar a dor muscular causada pela contorsões provocadas.
 
 
PAGOU A CONSULTA?
O paciente entra no consultório. Após os cumprimentos de praxe, o médico pergunta:
 
- Em que posso ajudar o senhor?
- Eu não vim aqui para me consultar, eu vim para divulgar a palavra de Deus.
 
Depois da surpresa, a reação do médico foi hilária:
 
- Passou a carteirinha na recepção?
- Passei.
- Ok, você tem direito a quinze minutos. Fique à vontade
 
E enquanto o “pregador” pregava, o médico ficou jogando “paciência” no celular.

 

domingo, 11 de janeiro de 2026

SIM - "ELA"

 
Há alguns anos, remexendo em uma caixa cheia de papeis antigos, minha mulher encontrou uma folha de caderno com algumas anotações rascunhadas. Nela, um poema escrito no início da década de 1970. Sem nenhum entusiasmo, entregou-me a folha e disse para rasgar e jogar fora depois que lesse – se eu quisesse ler. Não rasguei nem joguei fora, sentei-me em frente ao velho desktop e copiei os versos tratados com tanto desinteresse, já pensando em publicá-los no Blogson, pois gostei demais de sua aparente simplicidade (além disso, creio que o “ele” era eu). Como não havia um título, escolhi o que me pareceu mais coerente. E ela continuou com a identidade preservada. O tempo passou, eu a perdi e este post, originalmente publicado em 27/07/2022, ficou esquecido, guardado no blog como "Rascunho". Não ficará mais, será um testemunho de sentimentos que a fizeram repensar nosso relacionamento ainda no início do namoro. Como era linda!
 
 
Sim, amar é complicado
Sim, amar exige cuidados
Sim, amar é um dilema
Será que vale a pena?
 
Sim, amar é um perigo
Sim, se ele não é seu amigo
Sim, amar é perigoso
Se ele é enganoso
 
Você se dá, se entrega inteira
Ele acha isso besteira
Fingimento é um castigo
Você não sabe se isso é aquilo
 
Chega de besteira
Você é tão maneira
Se ele não está com nada
Você tem que estar centrada

 

 

sábado, 10 de janeiro de 2026

TRÍGAMO

 
Aviso às leitoras e leitores deste blog desconjuntado: este texto é humor confessional. Não é manual de conduta, nem pedido de absolvição.
 
Quem leu as postagens publicadas no mês passado, onde registrei toda a dor da perda da mulher da minha vida, poderá se assustar e ficar chocado, decepcionado, constrangido ou irritado ao ler este texto. Provavelmente mais ainda ficará se for moralista, carola, conservador ou pudico. Talvez até pense que eu menti ao expor a dor que sentia e ainda sinto por não ter mais ao meu lado a minha amada Lily. Mas espero que não seja tão preconceituoso, pois vou falar do que sempre senti e pensei.
 
Um dia, Leila Diniz – atriz já falecida e talvez a primeira musa da Banda de Ipanema – disse achar normal amar profundamente uma pessoa e ir para a cama com outra. Um comportamento pouco usual, provavelmente condenado pela maioria das pessoas, mesmo que desejado e fantasiado por muitos. Eu mesmo já tive esse desejo, por mais condenável que possa parecer.
 
A razão de dizer isso agora é ter perdido a mulher que amei a vida toda – fato que lembra o rompimento de uma barragem: nada permanece como era antes. Desde sua morte surgiu um desejo insuspeitado e avassalador de poder abraçar, acariciar e beijar um corpo feminino, de querer ter contato com a pele nua de uma mulher. Nunca pensei tanto em sexo como agora!
 
Talvez um dos motivos de todo esse tesão possa ser o fato de nunca mais, desde o descobrimento da doença, em março de 2023, ter tido relações sexuais com ela (nem com ninguém, pois sempre fui fisicamente fiel).
 
E o desejo de falar sobre isso agora tem também um efeito libertador: o de me mostrar como sempre fui, criado em uma família em que a maioria dos homens traía suas esposas. Eu nunca traí a minha – pelo menos, não fisicamente. Tudo aconteceu mais no terreno da fantasia sexual, no desejo reprimido (talvez mais por medo de ser descoberto). Um desejo platônico, eu diria. Mas nem por isso menos intenso ou perturbador.
 
Há um programa exibido em um canal de TV a cabo que mostra o dia a dia de uma família mórmon, formada por um homem e quatro esposas. Caraca! Como ele consegue dar conta de tudo? Como consegue atender a todas? Fico até imaginando o cronograma: segunda e terça-feira, esposas 1 e 2; quarta-feira, dia de dormir até mais tarde, de recompor as energias; quinta e sexta, esposas 3 e 4; sábado, dia de descanso, com muita gemada, catuaba e ovo de codorna; domingo, dia de assistir aos jogos de basquete ou futebol americano. E, à noite, talvez um filminho pornô para acabar com a monotonia. É, porque o cara tem de ter uma disposição de touro reprodutor e apetite sexual de coelho!
 
Por eu ser um cara bem menos que mediano, jamais teria energia suficiente para não decepcionar nem deixar na mão (sem insinuações maldosas, por favor) quatro parceiras. Apesar disso, eu sempre desejei ser bígamo, ou melhor, trígamo, pois meu sonho sempre foi me relacionar – ou ser casado – com três mulheres. Mas não de forma genérica, não fantasiosa. Cada uma das três existe ou existiu, tem CEP, GPS e fez ou faz parte da minha vida. Verdade!
 
Um dia, durante uma conversa em alguma festa, surgiu um assunto meio indigesto. Uma jovem extremamente atraente e gostosa perguntou qual mulher famosa eu achava mais linda. Inocentemente, respondi:
– Luisa Brunet.
 
E minha mulher, a mais ciumenta que já existiu, trucou na hora:
– Ah, é? Quer dizer então que você acha a Luisa Brunet linda? Bom saber!
 
Nunca mais pude admirar despreocupadamente a beleza e a gostosura dessa modelo, pois bastava ela aparecer em alguma revista ou programa de televisão para ouvir:
- Olha aí sua lindeza. Não sei o que você viu nela! Mulher horrorosa!
 
Tempos depois, em outra festa e aproveitando que minha mulher não estava por perto, a mesma jovem perguntou maliciosamente quais eram minhas fantasias sexuais, já provocando:
- Luisa Brunet?
 
Minha resposta foi que minhas fantasias sexuais eram pessoas reais de BH. Mal sabia a bisbilhoteira ser ela própria uma das minhas mais duradouras fantasias sexuais – com quem sonhei várias vezes, inclusive com direito a sonhos molhados. Mas nunca me atrevi a tentar um contato de terceiro grau com ela.
 
Pode parecer calhorda e muito machista o que vou dizer, mas meu sonho – mesmo sem ter “competência para me estabelecer” – seria ter três mulheres, numa trigamia afetiva: o amor da minha vida seria a principal, destinada a ser amada todos os dias e para sempre; a segunda seria uma antiga namorada, apenas para ficarmos de mãos dadas, namorando e falando besteirinhas; a terceira seria justamente a gostosa perguntadeira, só para fazermos o sexo mais selvagem possível. Ê, vidão!
 
Se você, cara leitora, está escandalizada por eu ter despido a minha fantasia de gentilhomem (mesmo mantendo a roupa de baixo), relaxe, pois, como dizia o Tavares, personagem canalha criado pelo Chico Anísio:
- “Sou, mas quem não é?”
 
Esta declaração – tão machista nos dias certinhos de hoje – é a prova de que podemos controlar o corpo, mas o cérebro é incontrolável, soberano em suas fantasias e desejos. E só pude fazê-la agora, sem correr o risco de magoar a minha para sempre amada ou de ter meu saco pendurado em um prego. Hoje, apesar de velhusca e bem arruinada, eu ainda encararia a gostosa de outros tempos. Sabe como é, fantasia sexual não tem data de validade!

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

BALÃO DE GÁS

Vivi 55 anos da minha vida ao lado da mulher que amava (e sempre amarei). Isso significa que passei toda a minha vida adulta ao lado dela, tempo em que fomos nos moldando e nos adaptando um ao outro, de tal forma que não consigo imaginar como eu seria hoje se nunca a tivesse conhecido. Provavelmente teria me casado com uma antiga namorada, talvez já estivesse divorciado, morando em outro estado ou país, tivesse ficado rico ou pobre de marré de si. Talvez alcoólatra, maconheiro ou monge budista, sei lá o quê!
 
Só sei uma coisa, perder a mulher da minha vida embaçou meu dia-a-dia e tirou minha vontade de viver, de continuar vivendo – apesar dos filhos, filhas e netas. Hoje eu acordo com uma enorme sensação de vazio, sem vontade ou ânimo para nada. Apesar disso, levanto-me e faço o que preciso fazer, mas tudo ficou irreal, irrelevante, sem sentido. Hoje eu me sinto tão inútil quanto um balão de gás que se esvaziou.
 
Leio as notícias nos portais que sempre acessei, irrito-me com os acontecimentos ou declarações de gente idiota, mas digo “foda-se!” mentalmente, pois nada mais tem importância para mim. Ou melhor, a escala de valores mudou. O que era relevante deixou de ser.
 
Saudade: tenho controlado sem maior esforço, consigo rir, falar asneiras e até me divertir. À noite, com os olhos já fechando de sono, beijo o terço que ela estava usando mais recentemente, digo “Boa noite, Amor!”, deito e durmo com a maior facilidade, quase instantaneamente. É uma sensação estranha de estar com alguém que não está mais aqui.
 
Agora estou envolvido na tarefa de desapegar e doar a imensa quantidade de objetos, livros, calçados, bolsas, roupas, vasilhas e até papéis e caixas de presente que ela insistia em guardar para futura reutilização. O resultado imediato desse mergulho foi encontrar uma pequena caixa da Mesbla, nunca utilizada. Para mim, um fissurado pela preservação da memória, essa embalagem antiga já seria o presente. Para quem não sabe, Mesbla é o nome de uma grande rede de lojas de departamentos, que faliu em 1999. 
 
Tentando organizar a suruba, fiz uma relação das doações pretendidas de forma quase didática, onde listei sapatos de salto alto e salto baixo, sandálias, chinelos e rasteirinhas, bolsas, cintos, blusas de frio e casacos, calças de malha e de tecido, bermudas, camisas e camisetas, camisolas e pijamas, saias, vestidos curtos e longos, roupas de uso doméstico, roupas para costurar, apertar ou modificar.
 
Vieram depois as joias e bijuterias diversas: colares, lenços, produtos variados para maquiagem, escovas elétricas, bolas de plástico para piscina infantil, peças de artesanato em mdf, uma máquina de tricô Lanofix e suas linhas, copos de vidro para milk-shake e banana split, embalagens para presente, tecidos diversos para costura, sacolas e papéis para reciclagem, livros, pratos, copos, panelas de aço inox, xícaras de café, pacotes de chá de vários sabores. etc. etc. etc.
 
Pela quantidade e diversidade dos ítens, pensei até em fazer um brechó ou bazar na garagem, mas fui dissuadido disso pelos filhos, preocupados com um portão convidativamente aberto, permitindo a entrada de desconhecidos em nossa casa. Apesar disso, muita coisa já foi doada.
 
Mas difícil mesmo é separar as roupas que ela usou. Comecei por esvaziar três das dezesseis gavetas do armário de onde minhas roupas foram expulsas para dar lugar às dela. Acumuladora em nível médio, recusava-se a se desfazer de roupas esquecidas há séculos nos cabides e gavetas, ou daquelas que não serviam mais ou, até mesmo, que estavam fora de moda. A dificuldade maior não é esvaziar as gavetas, mas rever e manusear roupas que ela usou nos últimos tempos. Lembrar-me dela, tão linda, usando uma dessas faz minha garganta se fechar e os olhos arderem.
 
Não tenho a intenção de apagar sua memória entranhada nessas roupas e objetos, apenas de dar nova destinação ao que não será mais usado. Depois de tudo separado e doado, os armários utilizados por ela ficarão vazios – mas nada comparado ao vazio que sinto por dentro.
 
 
 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

TRIGÉSIMO DIA

 
Hoje completa-se o trigésimo dia do falecimento da minha amada Eliany. Consegui falar com o Padre Leonardo, o mesmo que, há cinquenta anos, abençoou o nosso casamento. Muito idoso agora, caminhando com a ajuda de um andador, ainda assim se dispôs a celebrar a missa de 30º dia na Capela dos Crúzios, na Rua Eurita. Contou-me que o espaço é pequeno, acolhendo apenas um grupo de vinte pessoas.
 
Disse também que eu poderia escolher outra igreja, pois abriria uma exceção para mim. Apenas não a de Santa Tereza, “porque aquele padre é louco”.
 
Ri do comentário – que endosso – e expliquei que, para mim, o simbolismo de sua presença em dois dos momentos mais importantes da minha vida bastava. Seria o suficiente.
 
Escolhi, então, as pessoas mais ligadas à minha mulher e fiz a cada uma um convite pessoal. Para não causar estranheza entre amigos e parentes que não estarão presentes, marquei também uma missa para amanhã, na Igreja de Santa Tereza, provavelmente celebrada pelo “padre louco”.
 
E eu, um “católico-ateu” ou “ateu-católico”, estarei nas duas, recebendo os cumprimentos de quem vier.
 
Olha o Padre Leonardo aí. E nós.



 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A GRANA EU NÃO DISPENSO!

 
Como sabem as pessoas que acessam este blog, minha mulher morreu em consequência de um câncer no fígado, descoberto quando já tinha surgido uma metástase no quadril. Naquele momento nós não sabíamos que isso representava sua sentença de morte, estatisticamente esperada para daí a 21 meses. Faleceu 33 meses depois.
 
Essa perda mexeu muito com minha cabeça – e continua a mexer, condenado que estou a dormir em uma casa vazia, em uma cama vazia. Mas a vida precisa continuar, as contas precisam ser pagas, os aniversários de filhos e netas precisam ser comemorados. E a cabeça voltou a pensar e formular teorias malucas, sem nenhum respaldo científico. E é da mais recente que vou falar.
 
Um médico amigo de meu filho disse que “tecnicamente câncer não mata ninguém. A bagunça que ele faz é que mata” Pensando nisso e depois de ler sobre como ocorre o surgimento e a multiplicação descontrolada de células cancerosas – que saem desativando o que deveria estar ativo e ativando o que não deveria ser, capazes inclusive de estimular a formação de novos vasos sanguíneos para se nutrir, drenando energia do corpo, fiquei matutando na possibilidade da evolução das espécies ter acontecido graças a mutações semelhantes, mas “do bem”.
 
Procurando confirmação para mais esta teoria miojo (aquela que fica pronta em três minutos mas o resultado é sempre uma merda), apresentei meu raciocínio ao ChatGPT (meu consultor para assuntos aleatórios e inúteis):
 
Pensei em uma teoria louca: a evolução das espécies pode ter acontecido de forma rápida, usando os mesmos mecanismos de multiplicação das células cancerosas. Que acha disto?
 
E ele respondeu:
 
Ideia nada boba — e não é tão “louca” quanto você imagina. Ela toca em pontos reais da biologia, mas mistura mecanismos que hoje entendemos como relacionados, porém não equivalentes.
 
A biologia já abandonou há bastante tempo a noção de que a evolução acontece sempre de forma lenta e gradual. Hoje se aceita que longos períodos de estabilidade podem ser interrompidos por surtos relativamente rápidos de mudança — o chamado equilíbrio pontuado. A velocidade, portanto, não é o problema da teoria.
 
O paralelo com o câncer também não é gratuito. Células cancerosas se multiplicam rapidamente, acumulam mutações em alta velocidade, ignoram mecanismos normais de controle e competem entre si, de modo que as mais eficientes acabam dominando. Dentro de um tumor, existe algo muito parecido com seleção natural: uma forma de evolução acelerada, só que em escala celular. Não por acaso, existe até um campo de estudo chamado evolução somática, que analisa populações de células evoluindo dentro de um organismo. Mutação aleatória, seleção das mais adaptadas e expansão rápida são princípios que valem tanto para células quanto para espécies.
 
Onde a analogia começa a falhar é no resultado final. O câncer não produz nada viável a longo prazo. Ele destrói o organismo que o sustenta. As mutações que o favorecem não são herdadas por uma população, não passam pelo crivo do ambiente e não constroem sistemas integrados. A evolução das espécies, ao contrário, depende de cooperação, herança, estabilidade e integração funcional. Não basta multiplicar rápido; é preciso funcionar como um todo.
 
Ainda assim, existem na própria história da vida processos que lembram essa fase inicial caótica: explosões adaptativas, como a explosão cambriana, e grandes duplicações gênicas, em que o material genético cresce rapidamente antes de ser “organizado” pela seleção natural. A evolução real parece ter sido bem mais bagunçada, excessiva e experimental do que os livros didáticos costumam sugerir.
 
A reformulação mais aceitável da ideia seria algo como isto: a evolução pode ter ocorrido, em certos momentos, em surtos rápidos de proliferação e mutação intensa, semelhantes aos mecanismos vistos no câncer, mas que só se tornaram evolução de fato quando foram estabilizados, refinados e contidos pela seleção natural. O câncer seria, então, um exemplo extremo e local desse motor evolutivo básico — poderoso, rápido e cego — funcionando sem freio.
 
Conclusão: Sua intuição é boa, pois você percebeu que multiplicação + mutação + seleção são universais; você identificou que processos acelerados existem na natureza. O erro seria esquecer que, para continuar existindo, a vida precisou aprender exatamente aquilo que o câncer não aprende: parar.
 
Depois de toda essa erudição, só posso dizer que não estranharia se me indicassem para algum Prêmio Nobel. Ao contrário do beligerante Donald Trump, que ficou magoadinho por não receber o Prêmio Nobel da Paz de 2025, eu humildemente recusaria essa honraria. Agora, a grana do prêmio eu não dispenso!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

HOMEM COM AGÁ

 
Em uma cidadezinha do interior do Nordeste há duas coisas extremamente valorizadas e potencialmente polêmicas: as disputas apaixonadas da política local e a capacidade de um homem gerar um descendente do sexo masculino, prova inconteste de sua masculinidade.
 
Pois aconteceu de um sujeito não conseguir gerar o tão desejado filho varão, depois de quatro tentativas frustradas. Ao saber que a esposa estava grávida novamente, a primeira providência foi fazer um exame de ultrassom, quando se constatou que teria mais uma filha. Aquilo já passava do limite do tolerável!
 
Com a ajuda de um obstetra muito discreto e muito amigo, conseguiu localizar uma mulher que estava na mesma fase gestacional que a esposa. Além disso, ela tinha características físicas semelhantes às da companheira e estava grávida de um bebê do sexo masculino.
 
Pouco se importando com a canalhice arquitetada, pagou pelo todos os exames pré-natais e a realização do parto da desconhecida. A cesárea da esposa foi realizada no mesmo dia. E assim, graças ao silêncio
 do médico e à anuência da esposa, virou pai de um casal de gêmeos.
 
Mas dizem que não há bem que sempre dure. E foi a política local a responsável por fazer com que a farsa fosse conhecida e divulgada, boca a boca, por toda a cidadezinha, pois o orgulhoso papai de gêmeos e o médico tornaram-se inimigos políticos quando o pimpolho já era adolescente.
 
Como quem não quer nada, o médico apenas sugeriu que talvez fosse interessante que o jovem fizesse um teste de DNA. Ao descobrir ser fruto de uma farsa montada sem lei e sem ética, encheu o “pai” de porrada. Mas a história não acaba aqui.
 
Serenados os ânimos, curadas as feridas físicas e da alma, tempos depois, graças a uma mensagem equivocadamente enviada no grupo da família, descobriu-se que quem tanto tentara provar sua masculinidade, mantinha um caso homoafetivo com um rapaz a quem desejava beijar e "apertar a bunda". 

Tecnicamente, pode-se dizer que o papai machão sempre desejou ter um homem em sua vida, não é mesmo?

domingo, 4 de janeiro de 2026

TAKE THE “A' TRAIN” – THE DELTA RHYTHM BOYS

 
Algumas músicas me fascinam tanto que eu acabo por procurar novos arranjos, novas versões, novos intérpretes. Take the “A” Train é uma dessas. Foi composta por Billy Strayhorn, parceiro e arranjador do Duke Ellington, que a gravou em 1941.
 
O título da música remete à orientação de como o compositor chegaria à casa do “Duque” (ou vice versa):  Pegue o trem (ou metrô) na plataforma A”.
Como diria o Jeca Gay, personagem hilário criado pelo multitalentoso Moacir Franco: “se é verdade, é sim sinhô, quem me contou foi um pescador”.
 
Pois bem, achei mais uma versão da música com letra provavelmente criada pelos integrantes do ótimo grupo vocal “The Delta Rhythm Boys” – extinto em 1987, depois de 50 anos em atividade. E o melhor é vê-los em um filme preto e branco, provavelmente da década de 1940. Espero que se divirtam (depois de tanta dor e tanto lamento transformados em posts)




).

sábado, 3 de janeiro de 2026

REVEILLON

 
Deram-me a ler outro dia
um livro sobre como morrer.
Pensaram talvez ser cuidado, empatia,
por me verem tanto sofrer.
Mas ninguém perguntou se eu queria,
se era isso que eu tinha de ler.
 
Não consegui perceber
e, confesso, jamais consegui entender
como era ingenuamente feliz.
Acreditava bastar só um clique
para pôr fim a meus chiliques
e a tudo que não compreendia.
 
Como era tolo, infantil,
como eu era imaturo!
Não conhecia perdas reais,
Não sabia o que era perder,
o significado real de perder
o maior bem da minha vida.
 
Hoje não penso em morrer,
mas sei que enquanto viver
lamentarei ter sofrido
por motivos banais e vivido
como se fosse o mais oprimido,
como se não fosse eu o bandido.
 
Não sabia o quanto gostava,
não sabia o real valor
de quem sempre esteve comigo,
de quem não tornarei mais a ver.
Agora eu sei que esta dor
é uma dor que não sairá mais,
 
Nunca mais.
 
(escrito na madrugada do dia 01/01/2026)

 

 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

CHEERS!!!!

 
Há 4.000 anos os sumérios já desejavam “pão e cerveja” como augúrio de saúde e sucesso. Isso sempre me deixou pensativo, pois a cerveja parece ter sido desde sempre uma fonte confiável de hidratação e de alegria, especialmente em épocas em que a água não era tratada e, provavelmente, nunca filtrada.
 
Eu não gosto do sabor da cerveja e foi este um dos principais motivos para parar de beber bebidas alcóolicas desde 2014. Ultimamente, talvez motivado pela perda do meu Amor, tenho pensado em fazer as pazes com a breja, só com a cerveja, pois minha amada Eliany gostava muito de uma cervejinha em lata. Claro que “cervejinha” é um eufemismo para a quantidade de latas que entornava em reuniões sociais na companhia das irmãs e amigas.
 
Nunca deu vexame, nunca perdeu o juízo, apenas gostava muito de um latão gelado de cerveja de boa qualidade. “Um”, também, é eufemismo. Quatro ou cinco seria a quantidade correta consumida em festas de família e encontro com as amigas. E eu, só no refri ou suquinho de frutas.

Mas, como disse, tenho pensado em acabar com a abstinência total de bebida alcoólica. Talvez, para homenagear a minha deusa, volte a beber um copo de cerveja – que sempre desceu super bem, mas ficando só nisso, pois o segundo copo sempre teve gosto de cerveja – e eu detesto o gosto da cerveja!
 
Entretanto, depois de ler uma reportagem sobre o uso da cerveja como vacina, talvez eu tolere o segundo copo, mas apenas como medicamento necessário e preventivo. Segundo essa reportagem “um cientista americano criou uma cerveja que funciona como vacina e causa controvérsia internacional”.
 
“Um cientista dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), dos Estados Unidos, criou em sua própria cozinha uma cerveja que atua como vacina oral contra um poliomavírus potencialmente perigoso. O virologista Chris Buck, que descobriu quatro dos 13 poliomavírus humanos conhecidos, decidiu ultrapassar as barreiras impostas pela burocracia regulatória e testar em si mesmo a viabilidade de uma vacina comestível.
A bebida contém leveduras geneticamente modificadas para produzir partículas semelhantes às do poliomavírus BK, associadas a cânceres e complicações graves em pessoas imunossuprimidas, como pacientes de transplante. Ao ingerir a cerveja, Buck afirma, em entrevista ao ScienceNews, ter produzido anticorpos contra diferentes subtipos do vírus, sem efeitos adversos relatados”.
 
Tudo estaria bem se ele não tivesse tornado públicas suas experiências. Bastou tomarem conhecimento dessas insuspeitadas qualidades para os caretíssimos Comitês de ética dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA desautorizarem a autoexperimentação no âmbito institucional. E ainda questionaram a publicação dos manuscritos em servidores científicos tradicionais!
 
Hoje em dia, há cervejas artesanais com gosto de tudo, até mesmo de cerveja, e ninguém reclama disso. Há até uma cerveja com forte conotação erótica, feita com jaboticaba. E tem conotação sexual porque, como todos sabem, a jabuticaba já nasce agarradinha no pau.
 
Maaass, voltando à vacina, ou melhor, à cerveja, tenho absoluta certeza de que essa bebida ajudaria a acabar com os movimentos anti-vacina no mundo todo. E todo mundo ficaria alegrinho e sorridente com uma lata, caneco ou tonel dessa santa bebida em uma das mãos, dizendo com a voz já meio enrolada:
- Saúde! Estou vazinado! E muito felizzzz!!

LINDO!

 Achei lindo este poema encontrado no Facebook.