Tive muitas dúvidas se deveria ou não
publicar um texto tão provocativo, mesmo que profundamente confessional e
sincero (apesar da tradicional avacalhação jotabélica). Minha sorte é não
conseguir alcançar o brilho intelectual dos comentários de Yuval Harari em seu
livro “Sapiens”. Além disso, não
pretendo convencer ninguém a mudar sua fé (nem sua descrença). Este texto
reflete apenas o estágio atual da minha espiritualidade. E posso dizer que
sinto saudade do tempo em que tinha fé.
Por isso, é importante deixar bastante claro
que não vejo as religiões ou seus ensinamentos como algo ruim. Pelo contrário!
O que realmente me incomoda é a defesa intransigente de certas interpretações
feitas por alguns seguidores ao longo do tempo, pois nem Jesus nem Buda nem
Maomé escreveram uma única palavra. Foram seus seguidores que “interpretaram” e
registraram suas mensagens, muitas vezes moldando-as de acordo com sua falta de
cultura, seus preconceitos pessoais e de acordo com o contexto de suas épocas.
É nesse processo de interpretação que, a meu
ver, surgem os desvios, as intolerâncias e os mal-entendidos. Já pensou se um
dos discípulos de Jesus fosse o Mala fala e outro fosse o padre Marcelo Rossi?
Como seriam os evangelhos escritos por eles? Captou a sutileza? Afinal, talvez
a essência dos grandes fundadores das religiões atuais seja, no fundo, muito
mais simples e compassiva do que o que acabou sendo registrado ao longo dos
séculos. E agora, deixando chorumelas, passemos ao texto principal.
Nasci em uma família católica à moda antiga,
com uma fé simples e sem questionamentos, de ir à missa e comungar todo
domingo, de fazer novenas, rezar terços, de acompanhar intermináveis
procissões. Nos dias de semana minha avó, minha mãe e eu (então com uns sete
anos) ajoelhávamos às 18 horas diante do rádio que transmitia a “Hora do Angelus”. Esse era o mundo em
que cresci.
O defeito (só pode ser defeito!) é que eu
comecei a refletir cedo demais sobre os textos bíblicos lidos durante a missa. Por
conta de minhas dúvidas, ao entrar na adolescência comecei a ler tudo sobre
religião, sobre religiões e cultos que encontrava pela frente. Fui a centro
espírita e terreiro de umbanda. Minha busca por Deus era constante. Mas creio
que meu gene da religiosidade sofreu alguma mutação, pois quanto mais suplicava
a Deus para aumentar minha fé, mais eu a via indo embora.
E a situação se agravou definitivamente
depois de ler o livro Sapiens.
Dizendo em uma linguagem nada bíblica, aí a coisa fodeu de vez. E eu, um
católico de missa dominical que até foi convidado a ser ministro da eucaristia,
acabei por me tornar um ateu-católico ou católico-ateu (olha o gene da
religiosidade atuando para não me afastar definitivamente da minha antiga fé!).
Essa mudança teve um defeito colateral, pois substituí a crença pela
superstição. Está bom até aqui? Continuemos.
Outro defeito grave, herético aos olhos de
muitos, foi passar a criticar e duvidar dos textos do Antigo Testamento. Ele
pode até ter sido inspirado por Deus, mas os livros que o compõem foram
escritos há milhares de anos por um bando de gente bronca, sem cultura,
inteligentes mas ignorantes, em um tempo em que uma simples doença de pele era
considerada “lepra”. E é aí que entra meu ranço com a ideia de “terra
prometida”.
Para começar, esse conceito foi introjetado
em um povo que viveu escravizado no Egito durante algum tempo. Naquela época
escravizar até mesmo uma população inteira era procedimento comum entre os vencedores
de guerras entre países ou povos. Mas algum “inteligente” provavelmente
entendeu que se houvesse uma intervenção divina ficaria mais fácil a população
escravizada se rebelar, fugir ou o cacete que fosse. E melhor ainda era ter um
deus exclusivo, poderoso, fodão, mais imponente que aqueles deuses idiotas com
cara de chacal, hipopótamo, crocodilo e outras esquisitices.
E aí surgiu a “terra prometida”. Falando “sério”,
o Deus do AT era muito mão de vaca, pois em vez de prometer uma terra com exuberantes
florestas de cedros e praias paradisíacas (estou pensando no Líbano, mas se
existiu um Noé, porque não uma frota de Noés para levar a moçada?), o Cara oferece um pedaço de deserto!.
Mais barato, mas muito inferior. E, pior, já tinha sido objeto de usucapião por
outras tribos! Isso só podia dar merda, e deu, claro, fazendo surgir um cu de
gato que nunca termina.
Outra coisa que me incomoda muito era a
crença daqueles caipiras de que Deus era exclusividade sua. São Paulo foi o primeiro
a entender as vantagens da globalização.
Não fosse ele, até hoje estariam sendo ignorados os bilhões de pessoas, de
vários continentes e grupos étnicos que partilham da fé, da crença em Deus. Mas
será mesmo que Ele existe?
Bom, para tranquilizar os leitores que ainda
estão acordados, eu creio que sim, que é uma possibilidade simpática. Mas não
aquele deus vingativo, passional, cruel e rancoroso do AT, não aquele feito (ou
imaginado) à minha imagem e
semelhança. Fica difícil aceitar isso, pois Ele poderia, por exemplo, ter a
imagem e semelhança dos Neandertais. Ou vice versa.
Outra coisa que sempre critiquei sem
verbalizar meu pensamento é a ideia do “pecado original”. Como assim? Quer
dizer que a humanidade foi automaticamente condenada só por Adão e Eva terem
desobedecido a Deus e comido o “fruto
da árvore da ciência do bem e do mal”? (Gen 2, 17)?
Eu vejo a coisa da seguinte forma: como sou
darwinista de coração, para mim Adão e Eva são apenas figuras alegóricas que
não existiram tal como descrito na Bíblia. E se eles não existiram, certamente
não comeram a “maçã envenenada”. E se não comeram, não há pecado original,
nunca houve! Fico pensando em minhas netinhas condenadas já no nascimento por
uma coisa que não cometeram. Puta sacanagem e covardia!
Agora, vamos examinar esta questão de outro
ângulo. Suponhamos que o Deus do AT ficou mesmo muito puto por
aquele “criado à sua imagem e semelhança” Tê-lo desobedecido. Mas pense
comigo: qual pai normal pensaria em impedir e negar a seu filho oportunidade
tão fundamental de adquirir conhecimento ao comer o “fruto da ciência do bem e do mal”? O
correto não deveria ser o inverso disso?
Eu sou um pai meia boca, relapso, mas tentei
dar a meus filhos tudo o que pude – não só bens materiais, mas conhecimento
formal de qualidade e, principalmente, Amor. Mas o Deus do AT não quis saber.
Além de expulsar “de casa” aquele casal de crianças, ainda resolveu punir toda
sua descendência com o “pecado original”. Para mim, esse comportamento
espantoso é, na verdade, sinônimo de “rancor original”.
Para piorar ainda mais Sua imagem, mandou Seu
filho unigênito descer à Terra para, com seu absurdo sofrimento, redimir a
pisada no tomate feita por Adão e Eva milênios antes. Qual pai normal faria
isso?
Bom, para terminar esta gororoba herética e
debochada e tranquilizar os que creem em Deus, preciso dizer que não acredito
no deus raivoso e vingativo do AT. Também não acredito em “terra prometida” nem
em “pecado original”. Prefiro acreditar no Deus-amor, no Deus-Bondade, no
Deus-perdão trazido por Jesus. E mesmo que seja hoje um ateu-católico, não vejo
nenhum problema em aceitar ser J. Cristo o Filho de Deus, injustamente
perseguido, torturado e crucificado por um bando de ignorantes
fundamentalistas. Que têm seguidores ainda hoje, até mesmo em outras religiões.
Fui.