segunda-feira, 7 de setembro de 2026

DE ONDE EU VIM?

 

Desde quando fiquei sabendo que o exame de DNA poderia trazer informações sobre a minha ancestralidade, eu tive vontade de fazer. Mas o dia a dia tem a mania de ser avaro com frescuras desse tipo, melhor gastar o dinheiro com coisas úteis – e assim a vida vai passando, sabotando, enterrando pequenos prazeres. 

Mas uma mudança radical em minha vida fez com que eu tentasse priorizar a minha felicidade, o meu bem-estar. Comecei a fazer aulas de dança de salão, resolvi fazer  pilates e aprender a dançar forró.

Além disso, decidi ter aulas de teclado, melhorar minha performance no violão, aprender inglês, começar a aplicar a caneta emagrecedora e viajar para a Suiça. 

Com exceção da viagem e das aulas, o resto já está em andamento. E toda essa sanha para combater a mais absurda solidão que já senti fez também surgir o desejo de saber de onde eu vim. Comprei também esse exame! E o resultado saiu ontem. 

Só fiquei decepcionando com uma coisa: eu sempre quis ter um pezinho na África, mas não tenho. Olha que interessante o resultado: 

Jose, seu DNA indica que 93% da sua ancestralidade é proveniente da Europa.

Europa – 93%, assim distribuídos:
Ibéria – 50%
Itália – 13%
Europa Ocidental – 6% (Alemanha, França e Países Baixos e Ilhas Britânicas)
País Basco – 5%
Bálcãs – 5% (Bulgária e Macedônia do Norte, Grécia, Romênia e Moldávia, Sérvia e Montenegro, Croácia e Bósnia-Herzegovina)
Judeus Sefaradim – 5%
Judeus Ashkenazim – 4%
Sardenha < 3%
Leste Europeu < 3%
Lapônia e Volga-Ural < 2%

Oriente Médio e Magrebe – 5%
 
Américas < 3%

Na próxima encadernação, quero nascer italiano. Afinal, já tenho 13% de sangue romano correndo em minhas veias. Meno, JBrancaleone, meno!

sábado, 5 de setembro de 2026

BANGUELA

 
Não quero mudar o passado,
Desejo só inconsequente.
Quero mudar o presente.
Presente que foi herdado
De um passado que devia ser
Para sempre, sempre olvidado.
 
Diz um velho ditado que
A cavalo dado não se olham os dentes.
Não sei avaliar essa frase
Só sei que a desprezo e descarto,
Pois cansei de cavalo magro, doente
E, pra piorar, desdentado.
 
Quero um novo presente,
com fita vermelha amarrado,
com metal dourado enfeitado,
que tenha meu tamanho certinho
e que eu possa ser nele enterrado.

OH ME! OH LIFE! – WALT WHITMAN

 

Oh, eu! Oh, vida! Das perguntas que voltam, sempre as mesmas,

Dos trens intermináveis dos descrentes, das cidades povoadas de tolos,

De mim mesmo, a me censurar sem trégua

(pois quem mais tolo que eu, quem mais descrente?),

Dos olhos que em vão suplicam pela luz, das coisas mesquinhas,

Da luta que incessantemente recomeça,

Dos pobres frutos de tudo, das multidões que se arrastam,

Sórdidas, laboriosas, ao meu redor,

Dos anos vazios e inúteis que os outros vivem,

E nos quais também eu me enredo,

A pergunta, oh, eu! — tão triste, sempre retornando:

Que há de bom em meio a tudo isso,

Oh, eu, oh, vida?

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

INGRESSO PRIVILEGIADO

 

Cansei de ver, ler ou ouvir alguém perguntando qual o sentido da vida. Eu mesmo já fiz essa pergunta, esperando ouvir uma resposta soprada em meu ouvido durante o sono. Saco cheio disso! 

Agora, o que eu quero mesmo saber é qual o sentido da morte. Não a explicação biológica, mas o sentido mais profundo da morte. Alívio, descanso, libertação, nova viagem? Breve regresso? Todas as possibilidades para esse show. E eu quero um ingresso privilegiado.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

(IN)UTILIDADE PÚBLICA.

 Recentemente (estou com a sensação de já ter falado sobre isso!),  na padaria perto da minha casa, vi uns quadrinhos lindos, bacanérrimos, com várias imagens do fundador da "boulangerie" (porque eles são muito frescos). Perguntei ao neto do patriarca como tinha obtido um resultado tão excepcional.
A resposta foi ter criado, com a ajuda de uma IA, um prompt detalhado para ser utilizado naquelas e em outras futuras imagens. 
Pedido e recebido o tal prompt, resolvi aplicá-lo. A imagem resultante ficou bem boa (para mim, pelo menos). E é essa receita que compartilho agora com os milhões de leitores do velho Blogson: 
 
PROMPT:
Utilize a foto anexada apenas como referência da pessoa. Crie uma ilustração em estilo line art refinado, mantendo fielmente as características do rosto, expressão e pose.
Estilo desejado:
* Fundo sólido na cor creme (off-white quente, semelhante a papel de algodão).
* Todo o desenho feito exclusivamente com traços verde oliva escuro (#556B2F como referência).
* Sem preenchimentos coloridos.
* Linhas finas, elegantes e orgânicas, com pequenas hachuras apenas para sugerir volume e sombras.
* Aparência de ilustração artesanal, sofisticada e atemporal.
* Alto nível de detalhamento no rosto, olhos e sorriso, preservando a personalidade da pessoa.
* Roupas e acessórios desenhados com simplificação artística, mantendo seus principais detalhes.
* Fundo totalmente limpo, sem objetos, paisagem ou elementos decorativos.
* Centralizar a pessoa na composição.
* Proporção vertical (2:3).
* Qualidade extremamente alta, adequada para impressão em quadros grandes (60×90 cm ou maior).
Objetivo estético:
O resultado deve lembrar uma mistura entre ilustração botânica clássica, gravura fina e desenho editorial contemporâneo, minimalista, elegante e acolhedor. A arte deve parecer feita por um ilustrador profissional, e não um simples filtro aplicado sobre a fotografia.

E para finalizar, olhaí o Jotabê sem nenhuma vergonha na cara:






JOGADOR E DADO

 

Nunca me preocupei em saber

Se a Vida era ou não uma loteria

(era, mas não era, entenda quem quiser)

E eu, jogador e dado, nela me joguei

Sem entender que não há, nunca houve

Prêmio de consolação que console

O jogar-se sem pensar que essa maldita loteria

Nunca pagará, não pagaria o prêmio

Que a insensatez fez acreditar

Que mereceria

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

LOTERIA

 

Tenho andado com uma mega sanha de ganhar na loteria. Se esse milagre acontecer, meu desejo é comprar uma casa à beira de uma praia semideserta e mudar para lá.

Usarei uma blusa anti UV, específica para me proteger dos raios solares e um chapéu ridículo para não deixar que se queime meu couro cabeludo ou meu pescoço.

Morarei nesse paraíso até morrer. Andarei no limite entre a areia e a água do mar, onde as ondas se espraiam. Ou ficarei sentado à sombra, apenas contemplando o vai e vem infinito das ondas.

Quieto, em silêncio. Só, solitário.

E farei muitas viagens, mas só para dentro de mim mesmo.

REAL

 


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

BOLHA!

 
Sempre tive alguma dificuldade de pertencer a grupos, talvez por possuir um temperamento um tanto antissocial, que me faz ficar de saco cheio com as bobagens ditas por alguns.
 
Hoje, mesmo sem muito interesse, acabei sendo incluído em três grupos do whatsapp. O que eles têm em comum é a absurda necessidade dos membros de postar mensagens irrelevantes e chatas, geralmente coloridas e copiadas de outros grupos a que também pertencem.
 
Até aí, tudo bem – snoopys dizendo bom dia, orações, animações feitas por IA, vídeos de crianças bonitinhas – que não são parentes de ninguém – fazendo ou dizendo coisas engraçadinhas, etc.
 
Mas o que pega mesmo são as mensagens de cunho ideológico. Ainda mais nesta época pré-eleitoral. Meu Deus, a sensação é de estar em um comício!
 
Foi aí que pensei que os grupos sociais – e não duvido que todos sejam assim – seriam mais bem definidos se fossem chamados de bolhas sociais.
 
Já, já estou furando essas bolhas e pulando fora de todos!

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

BABY, IT’S COLD OUTSIDE

 
Morreu a cantora Dolly Parton. Praticamente nada sei dela, à exceção de ser, digamos, muito “volumosa” e ter gravado com Rod Stewart (um conquistador na vida real)  a música Baby, It’s Cold Outside. A música é uma delícia de ouvir e a letra é pura sedução e recusa – uma recusa não tão firme assim. E esta é minha homenagem a essa cantora, morta aos 80 anos.
Ouça a música e leia a tradução feita pelo ChatGPT


 
[Dolly — relutante] Eu realmente não posso ficar
[Rod — sedutor] Querida, está frio lá fora
 
[Dolly] Tenho que ir embora
[Rod] Querida, está frio lá fora
 
[Dolly] Esta noite foi...
[Rod] Eu estava torcendo para que você aparecesse
 
[Dolly] Tão agradável
[Rod] Vou segurar suas mãos, estão geladas como gelo
 
[Dolly] Minha mãe vai começar a se preocupar
[Rod] Linda, por que tanta pressa?
 
[Dolly] E meu pai vai ficar andando de um lado para outro
[Rod] Escute só o fogo crepitando na lareira
 
[Dolly] Agora, de verdade, é melhor eu ir depressa
[Rod] Meu bem, por que tanta pressa?
 
[Dolly] Bem, talvez só mais meio drinque
[Rod] Coloque um disco para tocar enquanto eu sirvo
 
[Dolly] Todos os vizinhos podem pensar...
[Rod] Mas, querida, lá fora está horrível
 
[Dolly] Diga, o que tem nesta bebida?
[Rod] Não há táxis disponíveis lá fora
 
[Dolly] Ah, quem me dera saber como
[Rod] Seus olhos estão brilhando como estrelas agora
 
[Dolly] Romper este encantamento
[Rod] Vou pegar seu chapéu; seu cabelo está lindo
 
[Dolly] Eu deveria dizer não, não, não, senhor
[Rod] Importa-se se eu chegar um pouquinho mais perto?
 
[Dolly] Pelo menos vou dizer que tentei
[Rod] De que adianta ferir meu orgulho?
 
[Dolly] Eu realmente não posso ficar
[Rod] Querida, não resista
[Dolly] Ah, mas está frio lá fora
 
 [Dolly] Eu simplesmente tenho que ir
[Rod] Querida, está frio lá fora
 
[Dolly] A resposta é não
[Rod] Mas, querida, lá fora está frio
 
[Dolly] Ah, esta recepção foi...
[Rod] Que sorte você ter aparecido
 
[Dolly] Tão agradável e aconchegante
[Rod] Olhe pela janela para aquela tempestade
 
[Dolly] Minha irmã vai desconfiar
[Rod] Deus, seus lábios parecem deliciosos
 
[Dolly] Meu irmão estará lá na porta
[Rod] Ondas numa praia tropical
 
[Dolly] Ah, minha tia solteirona tem uma mente perversa
[Rod] Ah, querida, você é deliciosa
 
[Dolly] Bem, talvez só mais um beijinho
[Rod] Nunca vi uma nevasca assim antes
 
[Dolly] Ah, tenho que ir para casa
[Rod] Você vai congelar lá fora
 
[Dolly] Diga, me empresta um pente?
[Rod] A neve está chegando aos seus joelhos lá fora
 
[Dolly] Você foi realmente maravilhoso
[Rod] Eu fico arrepiado quando você toca minha mão
 
[Dolly] Mas você não percebe?
[Rod] Como você pode fazer isso comigo?
 
[Dolly] Amanhã certamente vão falar de nós
[Rod] Transformando isso na minha eterna tristeza
 
[Dolly] Bem, pelo menos haverá muita coisa para insinuar
[Rod] Se você pegasse uma pneumonia e morresse
 
[Dolly] Mas eu realmente não posso ficar
[Rod] Esqueça essa história de ir embora
 
[Ambos] Querida, está frio lá fora
 
 
 
[Dolly] Ei, eu tenho que sair daqui.
[Rod] Vamos, querida.
 
[Dolly] Vamos, o quê?
[Rod] Me dê só mais cinco minutos.
 
[Dolly] Você sabe mesmo como cansar uma mulher até ela ceder, não é?
[Dolly] Está bem, está bem, está bem, está bem...

terça-feira, 25 de agosto de 2026

SAMBA!

 
Tenho andado meio sumido da blogosfera pelo simples motivo de não ter nada a dizer. Nenhum caso para contar, nenhuma história, nenhuma bobagem que me pareça digna de ser publicada. E o mais estranho é não sentir aquele antigo desejo paranoico de postar qualquer coisa quase todos os dias.
 
Só para se ter uma ideia: desde a criação do blog, há doze anos – ou 4.460 dias –, foram feitas 3.600 postagens. Trocando em miúdos, um novo post a cada 1,3 dia.
 
Desnecessário dizer que essa chama quase se apagou. Para soprar as cinzas que escondiam o braseiro, resolvi pedir à Suno que musicasse um poema bola-murcha que rascunhei alguns dias atrás. Depois de quatro tentativas, descobri que a simplicidade dos versos combinava com o samba.
 
E é este o resultado que compartilho agora com vocês. Se gostarem, ótimo. Se não gostarem, liguem para o 0800 foda-se.




sexta-feira, 21 de agosto de 2026

AFRODITE

 
Se eu soubesse como seria ter novo amor,
O risco que eu correria de amar sem medida,
Maré alta, sujeita a ressaca – que invade a praia
E coloca em perigo o banhista,
Eu não teria tentado, eu não teria querido
Reviver um passado distante, praticamente esquecido.
Teria disso fugido, não teria desejado tanto
Redescobrir esse amor escondido.
 
Melhor seria não deixar esse amor florescer
E pegar uma baranga qualquer,
Que fosse apenas bonita e gostosa, mulher
Para deitar na minha cama, fazer cafuné,
Andar de mãos dadas e até,
Talvez – namorar todo dia.
 
Mas jamais faria a besteira de me deixar apaixonar,
De sentir saudade de alguém todo dia, querer com ela estar,
Sonhando com isso acordado, desejo absurdo, impossível,
Pois não há no amor simetria.
Então, melhor seria não dar a esse amor o poder
De tomar de assalto corpo, mente, tudo,
O coração, tudo, tudo, integralmente.
 
Estava nessa divagação, lamentando não ter pensado assim antes,
Sabendo que agora é tarde, pois não mais consigo
Libertar-me do amor que deixei renascer.
 
Sem entender se delirava ou sonhava enquanto dormia,
Pensei uma deusa do amor consultar,
Querendo saber o que diria, sorver sua sabedoria.
Contar-lhe tudo o que sentia. Que conselhos me daria?
 
Pois Afrodite, a deusa do amor consultada,
Aquela desgraçada, riu de mim!
E disse não haver solução pra velhice,
Que amor não tem idade, quem tem idade é quem ama,
Que amores maduros são frutas desidratadas,
Por mais que se deseje o contrário, que fossem
Sumarentas, carnudas.
Já foram, não são mais.
 
E que o máximo que posso fazer
É aceitar este fato, entender
Que o amor que desperto em alguém –
Se realmente desperto – nunca será como antes,
No tempo da juventude. E é pegar ou largar,
Sem reclamar, pois isso não mais mudará.
 
Ah, Afrodite, sua sacana!
 Deusa do amor? Pois sim...
E ainda há quem nela acredite! Ah, Afrodite...

 

domingo, 16 de agosto de 2026

GUARDAR - ANTÔNIO CÍCERO

 
Antônio Cícero foi um grande poeta, filósofo, letrista e membro da Academia Brasileira de Letras. Era irmão da cantora e compositora Marina Lima, para quem escreveu várias letras das músicas por ela compostas.
 
Um dia, ao ver que estava em um processo sem volta, tomou a decisão durísssima de praticar eutanásia na Suiça, deixando uma carta endereçada aos amigos. Entendi que valia a pena transcrever trechos desta carta para apresentar um de seus poemas:
 

A CARTA:
O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer. Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem. (...)
Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia. Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo. Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação. (...)
Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.


O POEMA:
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não
  se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto
                 é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é,
velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela
                                    ou ser por ela.
          Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
                         Do que pássaros sem vôos.
  Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se
                          declara e declama um poema:
                                     Para guardá-lo:
            Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
                  Guarde o que quer que guarda um poema:
                              Por isso o lance do poema:
                       Por guardar-se o que se quer guardar.

sábado, 15 de agosto de 2026

VOCÊ É BRASILEIRO? JURA?

 

Recebi este texto de um amigo de facebook e não resisti à tentação de divulgá-lo no blog, por pensar exatamente com seu autor.

O brasileiro que comprou um pedaço do Liverpool
A notícia me chamou a atenção: Eduardo Saverin, um dos fundadores do Facebook, está entre os investidores de um consórcio que acaba de adquirir uma participação de mais de 30% no Liverpool Football Club. O negócio avalia o tradicional clube inglês em mais de cinco bilhões de libras.
Eduardo Saverin é brasileiro.
Nasceu em São Paulo, em 1982. Mudou-se para os Estados Unidos aos dez anos, tornou-se cidadão americano em 1998 e, em 2011, renunciou à cidadania americana. Desde então, vive em Singapura.
Ainda assim, quando a notícia apareceu, lá estava ele: o brasileiro Eduardo Saverin.
E isso me fez pensar no nosso velho complexo de vira-latas.
A expressão foi criada por Nelson Rodrigues para falar da nossa inferioridade psicológica diante do estrangeiro. Temos, muitas vezes, a necessidade de acreditar que aquilo que vem de fora é melhor — mais sofisticado, mais competente, mais importante. Mas existe também o movimento contrário, talvez igualmente revelador: quando um brasileiro faz sucesso lá fora, imediatamente o reivindicamos.
O sujeito nasce no Brasil, vai embora ainda criança, estuda em Harvard, participa da criação do Facebook, constrói sua fortuna nos Estados Unidos, muda-se para Singapura, renuncia à cidadania americana e passa a investir pelo mundo.
E nós dizemos: "Vejam o brasileiro!"
É curioso.
Não estou dizendo que Saverin não seja brasileiro. Juridicamente, nasceu brasileiro e continua sendo brasileiro. Mas talvez haja uma diferença entre nacionalidade e pertencimento.
A nacionalidade pode estar registrada num documento. O pertencimento é uma coisa muito mais complicada.
O que me parece interessante é perceber como nós, brasileiros, gostamos de incorporar ao nosso currículo nacional aqueles que venceram no exterior. É como se o sucesso obtido longe daqui funcionasse como uma espécie de certificado de qualidade que pudéssemos exibir.
"É brasileiro!"
Como se disséssemos: vejam, nós também produzimos gente capaz de chegar lá.
Mas há uma ironia ainda maior.
Saverin não está comprando o Liverpool sozinho. Está participando de um consórcio que reúne alguns dos maiores capitais do mundo, entre eles Jeff Bezos. O Brasil não está comprando o Liverpool. Um homem nascido no Brasil está investindo no futebol inglês com dinheiro construído numa trajetória essencialmente internacional.
Talvez seja justamente aí que a história fique interessante.
O mundo mudou. O dinheiro atravessa fronteiras com uma facilidade que nossos sentimentos de pertencimento ainda não conseguem acompanhar.
Um homem pode nascer brasileiro, tornar-se americano, viver em Singapura e comprar parte de um clube inglês.
E nós ainda precisamos perguntar:
"Mas ele é brasileiro?"
Talvez o nosso complexo de vira-latas tenha mudado de forma.
Antes, olhávamos para o estrangeiro e dizíamos: eles são melhores que nós.
Agora, quando um dos nossos vence lá fora, corremos para dizer:
"Ele é nosso."
No fundo, talvez ainda estejamos procurando, no sucesso dos outros, uma maneira de acreditar um pouco mais em nós mesmos.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

IN DUBIO PRO REO

 
Nada sabemos do futuro
Pouco sabemos do passado
Mesmo o presente – tão claro! –
Pode se apresentar escuro
Confuso, estranho, nublado
 
Fazendo-nos crer que o dito
Em tempo distante, esquecido
Possa ainda ser veredito
Para hoje nos condenar

Sem pensar que o que foi dito
Pode hoje ser desdito
Pois o que hoje é feio
Já foi um dia bonito
 
Que a eternidade por uns pretendida
Não teve nem tem garantia
De permanecer imutável
Em mente para sempre mutante
Mutável, fluida – enguia
 
Disse um amigo uma vez
Que não podemos julgar o passado
Com nossos olhos de presente

Que condenar, rejeitar o pretérito
Ainda que seja imperfeito
É esquecer que seremos julgados
Por quem estiver no futuro
E que essa é a única, eterna certeza
 
Quem fica propenso a julgar
Ignora ou não quer aceitar
Que o passado é apenas pretérito
Não adianta tentar alterar

E que só é possível mudar
O presente, só o presente,
Somente.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O QUERERES – CAETANO VELOSO

Minha reverência de hoje, extremamente respeitosa, é para Caetano Veloso. Embora já tenha pisado em algumas bolas (não é o que vocês estão pensando!) ao longo da vida – como no caso da associação “Procure Saber”, que tentou impedir a divulgação não autorizada de biografias –, é um sujeito indiscutivelmente genial.
 
Nem tudo o que ele já fez me agrada, pois sua obra é complexa, culta e sofisticada. Seu domínio vocabular é absoluto! Não tenho ferramental adequado para entender tudo o que ele faz (aliás, mesmo que tivesse, nem sei se teria interesse nisso). Algumas coisas eu gosto; outras, não. Simples assim.
 
Mas a letra desta música é absurdamente bonita e sofisticada. E o motivo de eu querer publicar esta maravilha é a enorme semelhança entre o que ele canta e o que rola – ou deixa de rolar – nos relacionamentos afetivos da terceira idade, quando a paixão já não reina soberana e precisa disputar espaço com todo o resto que a vida acumulou. 

Que pena, não?

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim




quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O PRESENTE

 
Pai é uma palavra tão pequena, mas que você me mostrou que pode ser gigante, carregada de significados e sentimentos.
 
Você já me disse várias vezes que não foi um bom pai, que foi um pai ausente. Eu só tenho que discordar, pois você me ensinou a ser pai: um pai carinhoso e sem medo de expressar seus sentimentos.
 
Um pai que me mostrou várias coisas, algumas das quais me interessam hoje. Você me ensinou a curiosidade pelo mundo.
 
Eu sei que você vai discordar de tudo escrito até agora, mas as várias conversas sobre os assuntos mais variados que já tivemos dizem o contrário.
 
Você falou (escreveu) que, neste Dia dos Pais, você não me daria presentes — você sempre diz isso — e que, dessa vez, você daria o presente.
 
O presente que eu quero é você presente (o máximo de tempo possível) e ser mais presente também na sua vida.
 
Posso não saber, mas imagino como você está nesses últimos oito meses, imagino como se sente, em luto e em luta.
 
Hoje entendi a questão do luto da mamãe pelo vovô, quando, um dia, em vez de ir ao cemitério, vocês foram tomar sorvete (se não me engano).
 
O luto não é apenas tristeza e dor. É conseguir entender, sentir que é possível seguir em frente apesar da ausência física.
 
Eu te falei que meu luto seria trabalhado em poesias. Segue a última, que eu não te mandei, pois ainda não estava no papel:
 
"Quando a ausência se torna presente,
a presença se ausencia".
 
Como escrevi antes, espero que sua presença como meu pai ainda dure muitos anos.
 
E espero, e me esforço, para que a Felicidade não se ausente de sua vida.
 
Obrigado por tudo.
 
E, como você diz, te contar um segredo:
 
eu te amo!
 
Bê 11/08/26

terça-feira, 11 de agosto de 2026

EXIBIDO!

 
Olhaí, pessoal. Os cento e trinta e poucos poemas que eu publiquei ao longo do tempo neste blog desconjuntado acabaram sendo reunidos, selecionados e lançados na Amazon sob a forma de e-book, graças à mentoria inicial e apoio do Fabiano Caldeira, imperador absoluto do blog Fabiano Café Gay.
 
Mas o que deveria ser apenas uma publicação, acabou se transformando em dois, três, quatro e sei lá mais quantos e-books. O material era o mesmo, apenas a finalidade mudava.
 
Recentemente, ao ver minha vida e coração revirados por uma pessoa especialíssima, comecei a escrever poemas de amor e de inquietação, bem no estilo neurótico-apaixonado e instável que caracteriza e define meu estado mental.
 
Pois bem, nada mais natural que surgisse também o desejo de que ela lesse os poemas jotabélicos anteriores à sua ressurreição e também aqueles que inspirou. Mas ler a versão e-book é mais chato (para mim, pelo menos).
 
 Por isso, resolvi fazer um livro impresso para dar a ela, a musa inspiradora desse desejo (de outros também). Depois de uma seleção rigorosíssima da tralha toda, selecionei 111 poemas. Mas deu trabalho, como deu trabalho!  Aliás, trabalho e briga com a Amazon, motivada por eu querer utilizar uma capa criada pelo ChatGPT. Para encurtar a conversa, perdi a briga e fui obrigado a usar o criador de capa do KDP.
 
Computados mortos e feridos, medicados e suturado os ferimentos, o livro impresso foi  finalmente aprovado pela Amazon. E é essa belezura que exibo para vocês (sou muito exibido, quase um exibicionista). O título adotado é "OLHOS DE SOL NASCENTE: Seleção Afetiva de Poemas". Por que "olhos de sol nascente"? A explicação para esse título está no corpo do livro. Mas ninguém precisa comprar, pois sai caro pra burro (frete dos EUA para cá, etc.).


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

DOCA SECA

 
Não sou nem quero ser porto seguro
Para ninguém, nunca fui.
Porto seguro pede mar, rio, lagoa
E por mais que isso me doa
Preciso dizer que sou, sempre fui
Inseguro, cais flutuante para quem
Quis, quer ou quiser em mim se atracar.
Cais que flutua no seco, não na água
Que não sabe dizer o que é mar
Pois a única coisa que sabe fazer
Que lembra um pouco a palavra
É amar. Sem medida, freio ou receio
E isso pode fazer muito mal.
Para mim, para alguém ou ninguém...

DE ONDE EU VIM?

  Desde quando fiquei sabendo que o exame de DNA poderia trazer informações sobre a minha ancestralidade, eu tive vontade de fazer. Mas o di...