sexta-feira, 10 de abril de 2026

"ZERO, NOTA ZERO!"


Você já tentou ler algum livro e se assustou com a aridez do texto ou com o vocabulário muito sofisticado ou erudito? Já tive algumas experiências com isso, mas a culpa geralmente não era minha. E os livros não eram literatura mesmo, eram mais um amontoado de dados analisados e comentados pelo autor. Mas há livros que são para mim como o caviar do Zeca Pagodinho: nunca vi, nunca li, só ouço falar. E o motivo é simples: como nunca compro livros (sou mão de vaca), só leio os que ganho. Para ser sincero, gostaria muito de ganhar e ler o “Grande Sertão: Veredas”, do Guimarães Rosa, e o mais badalado de todos, que é o “Ulysses”, de James Joyce.
 
Agora, pense comigo (“sigam-me os bons”): se um Zé Mané anônimo resolvesse exibir seu vocabulário super erudito e pernóstico em um documento a ser divulgado na empresa onde trabalhei, qual seria a reação previsível? No meu caso, se fosse seu chefe, antes de devolver os hieróglifos para o autor traduzir, teria que me segurar para não mandar o cara à puta que pariu. Porque ninguém precisa escrever em linguagem periférica, das quebradas, para ser entendido. Basta escrever com clareza em linguagem coloquial ou levemente formal, e tudo bem.
 
Mas vamos imaginar que a nota de uma redação faça parte da classificação geral de um vestibular. E foi isso que aconteceu no vestibular para o curso de Direito de uma faculdade paulista. Essa redação tirou nota zero pelo simples motivo de ser apenas um emaranhado, um cipoal de palavras eruditas que ninguém de bom senso tem saco para tentar entender. O autor disputava uma vaga no curso de Direito e foi desclassificado. Que se pode dizer a um jovem de 18 anos que parece ter saído de dentro de um dicionário do Aurélio e que provavelmente não tem amigos nem namorada? 
 
- “Filho, vá viver a sua vida com alegria e descontração, pratique algum esporte, areje sua mente, arranje uma namorada – ou namorado. Você será um péssimo advogado se insistir nessa linguagem empoeirada e cheia de teias de aranha com que escreve”.
 
Antes de mostrar um trecho do texto original, pedi ao ChatGPT para fazer uma síntese em língua de gente do que o coitado queria dizer (porque ninguém tem saco para ler a íntegra da redação nota zero). E a IA me entregou isto:
 
O texto fala de uma tentativa meio orgulhosa de recuperar a “vida interior”, mesmo passando por tempestades emocionais e um sofrimento bem escondido.
A autora Djaimilia de Almeida, no livro A Visão das Plantas, mistura narrativa e reflexão histórica pra discutir ideias sobre o mundo de hoje.
Nessa linha, o linguista Ferdinand de Saussure entra com a ideia de que o sentido das coisas depende da relação entre palavra e significado.
Só que, como tudo muda o tempo todo, essas “verdades fixas” acabam ficando meio frágeis e discutíveis.
No fundo, o texto sugere que a identidade se fragmenta e que o perdão ganha vários sentidos, muitas vezes marcado por limites, pressões sociais e até violência simbólica.
 
Que achou desta reflexão? Boa? Tudo a ver? Como diriam os astronautas da Estação Espacial, I don’t care! Mas a coisa fica boa mesmo quando se lê um trecho do texto original da  repetindo  redação nota zero:
 
Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito. Djaimilia de Almeida concebe, em A Visão das Plantas, valer-se a epísteme lírico-narrativa de concepções hermenêutico-historiográficas, as quais decorrem da dialética antagônica e maquiavélica ao postularem a teleologia hodierna. Sob essa perspectiva, Ferdinand de Saussure preconiza a relação simbiótica entre significado e significante a partir da coesão engendrada pelo domínio tradicional concomitante ao coercitivo. Entretanto, à medida em que impera a dinamicidade, fragilizam-se axiomas em difusas postulações. Nesse ínterim, ressoa o sofrer recôndito na fragmentação identitária ao se concernir ao perdão - significado - múltiplos significantes: o condicionamento e a limitação, seja em razão da violência simbólica ou da tecnocracia.
 
Fiquei tão incomodado com essa notícia, que deu vontade de dizer a esse jovem (com todo carinho):
- Sabe o que você faz com sua "grandiloquência condoreira”? Sabe, né? Tenho certeza de que consegue imaginar o que eu sugeri! 

8 comentários:

  1. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como diria o filósofo. Uma redação de vestibular não pede ostentação linguística e vocabularística (!!!?), mas sim, pede coerência, norma culta da língua e clarividência (!!!?).
    Ele está comentando o livro dessa tal Djaimilia de Almeida, e não conhecendo nem a autora e nem o livro, fica prejudicada se sua análise rebuscada tem coerência ou clarividência(!!!?).

    * * *
    Um texto literário é outra coisa, é outra questão. Todo mundo diz que Ulisses é o maior romance já escrito, mesmo sendo complexo e difícil de aguentar. Mas, literatura é literatura. Se eu não entendo Ulisses, o problema intelectual é meu.

    * * *
    Sério que nunca comprou um livro? Então, você não gosta de ler ou é mesmo extremante, exacerbadamente, pão duro.
    Eu compro livro desde os 13 anos com o dinheirinho que meu pai me dava. Já tive uns 5 mil volumes em casa, todos comprados por mim. Aí veio o incêndio me dizendo que ia resolver meu problema de espaço...

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    1. Já comprei alguns livros, mas, por já ter lido tantos, tive a fase "infância das crianças" e fiquei anos sem comprar nenhum. Minto: comprei muitos pelo finado "Círculo do Livro" e quase todos os da Agatha Christie vendidos em banca (baratinhos!) e uns trinta vendidos na bacia das almas pela Livraria Ouvidor (deu para salvar dois ou três, o resto era lixo). Mas, realmente, entre as despesas gigantescas do dia a dia e os livros, eu preferia comprar vinis e livros de humor. Com os filhos crescendo, passei a ganhar livros que não escolhi e alguns que detestei. Agora, 5.000 livros só meu amigo bibliófilo Pintão tinha em sua casa. Ironicamente, a maioria foi doada pelos filhos que não herdaram do pai a paixão pela leitura.

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    2. saudoso Círculo do Livro, fiz membro por anos! Mas entendi sua colocação

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  2. Complementando: eu entrava em uma das lojas da rede Livraria Leitura, olhava os livros expostos, folheava alguns e ia para a seção de discos. Sim, detesto gastar dinheiro comigo, seja em livros, roupas, bares, restaurantes ou shows. Hoje sou um ogro recluso (há muito tempo!). Um Scrooge, um Tio Patinhas sem dinheiro.

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    1. diferentemente, eu sempre gostei de gastar muito dinheiro com aquilo que eu gostava, principalmente quando era solteiro, morava com meus pais e o meu dinheiro era só meu. livros, CDs(também tive uma vasta coleção) e cinema. Roupa nunca me preocupei muito com marcas.

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  3. Eu penso que essa especialização tem por mérito o vocabulário extenso e culto no intuito de o elemento se consolidar como profissional azzas prestigiado na função. Em credulidadde, atesto que ele indubitavelmente valeu-se pelo impressionismo em corroborar com sua inteligênia na eminência de obter reconhecimento pela aptidão pela qual concorrre.

    Em outras palavras, esse pessoal dessa área vive tendo um palavriado mais diferenciado. A gente vê em laudas e laudas de processos judiciais, desde os ditames iniciais para a formalidade do documento, e em todo o relato da situação, em alguns casos. Eu acho horrível e penso que deveria ser proibido o uso de muitos termos não usuais pela sociedade atual. Mas defender isso levanta a perigosa questão de que talvez não haja muitas palavras compreensíveis a uma parcela cada vez maior de pessoas que se portam como semianalfabetas. Talvez, defender isso, seja resumir -- e até acabarde vez --- com o que ainda resta do nosso vocabulário.
    Então, deixa o cidadão mostrar que é o cultão.
    Qurero ver se na hora de tirar a roupa, se ele vai chegar no pé do ouvido da mulher e falar que promoverá o deslocamento seminal de seu receptáculo para o recôndito dela.
    Duvido que ele faz isso, mas ele agir assim naturalmente, então merece meu respieto. Caso contrário, é só um personagem bobo.

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  4. A ideia de “nota zero” remete para falha, frustração ou crítica a um resultado que não corresponde às expectativas. Ainda assim, estes momentos podem servir como aprendizagem e impulso para melhorar no futuro.

    Beijinhos,
    Daniela Silva 🩷
    Alma Leve

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