Você já se perguntou como deverão ser os
primeiros astronautas despachados para Marte? Nem queira! Ou melhor, queira,
sim, mas precisará de algumas informações que poderão deixá-lo de queixo caído.
Primeiro, precisamos alinhar alguns dados. A
distância mínima entre a Terra e o planeta vermelho é de 54,6 milhões de
quilômetros. Só para comparar, a distância média entre a Terra e a Lua é de 384,4
mil quilômetros. Isso significa que Marte, quando está mais próximo de nós,
fica cerca de 142 vezes mais distante que nosso simpático satélite.
Pela tecnologia atual e considerando
trajetórias convencionais, uma viagem de ida a Marte dura em torno de 260 dias
(oito a nove meses). O problema é que a volta consumiria mais 260 dias. Só aí,
no barato, os malucos treinados e elevados à condição de astronautas
(martonautas talvez ficasse bem) gastariam pouco mais de um ano e meio só
viajando. Pensem bem, nesse tempo todo, o que esses caras farão presos dentro de uma cápsula espacial? Palavras cruzadas? Sudoku? Eu morreria de tédio já no meio da viagem. Talvez até desse uma boa manchete, tipo "Morte em Marte".
Mas ainda tem um complicador: o tempo de
permanência naquele lugar aprazível, só aguardando a janela orbital ideal para
iniciar o retorno. E esse tempo pode chegar a 450 ou 550 dias.
De posse dessas informações (Blogson também é
cultura!), passemos agora às especulações sobre o perfil dos martonautas.
No frigir dos ovos, um martonauta precisará
ter um controle emocional filhadamãe, pois ficará longe das baladas, dos jogos
do fabuloso América Mineiro, da cervejinha com os amigos nos fins de semana e
do churrasco na laje, por quase três anos. Mas não é só isso.
A equipe precisa ser mista, "fifty-fifty", metade homens, metade mulheres. Porque, a menos que sejam ascetas ou tenham feito
votos de castidade temporária, esses malucos certamente desejarão afogar o
ganso, molhar o biscoito, ralar o tchan, dar ou receber uma chinelada. E não
ria, pois o caso é sério.
Por isso, entendo que uma equipe de
astronautas não deve ter vínculos afetivos com alguém à sua espera na
"nave nossa irmã". Porque, se tiver, o que acontecerá de DR na volta
é matéria até para filme. Ou, quem sabe, quando a porta da nave se abrir já
saia um casal pronto para dizer “sim” na frente do padre ou pastor.
Pois é, até agora eu tentei brincar e fazer
gracinhas para os leitores, mas o tema real do post é a solidão. Por isso eu
pensei em Marte, metáfora perfeita para entender isso.
Quem se dispuser a viajar para o planeta
vermelho não pode ter uma estrutura emocional frágil. Pelo contrário, precisa
ter durante três anos resiliência, resignação, paciência, fibra e determinação,
algo semelhante ao que demonstra o monge budista japonês Sogaku Taguchi,
que acaba de iniciar um período de reclusão religiosa de 12 anos, sem contato
com o mundo exterior. Sinceramente, tenho dificuldade para entender escolhas
tão radicais assim. Nada me faria abrir mão espontaneamente de três anos de
minha vida para embarcar em uma aventura dessas – nenhum reconhecimento
público, nenhuma curiosidade intelectual, nenhuma crença religiosa, nada.
Mas, e quando o isolamento, e a solidão são
situações compulsórias, quando não são escolhas de quem resolveu viver assim?
Os idosos ou, pelo menos, uma parcela expressiva dessa população, são as
pessoas mais suscetíveis, mais vulneráveis a isso. Porque passam a ser olhados ou
a sentir-se como se fossem fósseis vivos sem direito a amar, a desejar ter
alguém com quem trocar carinhos e carícias.
Infelizmente, este é o meu caso. Hoje eu me
sinto teletransportado mentalmente a Marte, pois passei a padecer de uma
solidão inimaginável depois de ficar viúvo. Durante alguns meses imaginei que a
reaproximação com um amor da juventude tivesse selado definitivamente a
sensação de estar só. Mas não contava com o término desse relacionamento,
relacionamento em que me joguei com paixão e alegria de adolescente.
Fui obrigado a aceitar o fato de que muitos
idosos - talvez mais as mulheres que os homens - optam por uma vida onde a
paixão e o desejo são substituídos por prazeres que prescindem da união estável
com um companheiro. Gostam de se divertir, viajar, cuidar da saúde, encontrar
com amigos e amigas, mas parecem fugir de relacionamentos amorosos como quem
foge de pessoas com doenças contagiosas.
E quem, como eu, pensa diferente, fica sem
saída, na maior solidão, à espera de encontrar alguém que queira ter “as costas
ensaboadas”.
Resumindo: alguns idosos e idosas que ainda sentem
desejo de se apaixonar novamente, de viver uma paixão plena, imune à idade, são
como “martonautas afetivos”. A diferença é que não escolheram ficar sozinhos e
nem sabem se um dia conseguirão “voltar à Terra”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário